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Especialistas alertam para um possível padrão climático incomum em escala global, que pode elevar as temperaturas a máximos históricos e aumentar o risco de chuvas extremas e secas severas

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 17/03/2026 às 13:14
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Clima global entra em alerta com possível super El Niño, já que o Pacífico pode mudar de fase entre junho e agosto e abrir caminho para calor recorde, enchentes e secas mais duras nos próximos meses.

O El Niño voltou ao centro das atenções com uma projeção que preocupa meteorologistas e pesquisadores do clima. A possibilidade de uma virada ainda em 2026 reacende o alerta para calor mais intenso em escala global.

Hoje, o planeta ainda está sob influência da La Niña, fase fria do ciclo no Pacífico equatorial. Mesmo assim, a chance de mudança entre junho e agosto já é alta e coloca o segundo semestre no radar de quem acompanha extremos climáticos.

Se esse avanço ganhar força até o fim do ano, o efeito pode ir muito além do oceano. A consequência prática seria um empurrão extra nas temperaturas médias do planeta e uma pressão maior sobre o clima em 2027.

Virada entre junho e agosto já entrou no radar com 62 por cento

A atual fase fria do Pacífico não elimina o risco de transição rápida. Pelo contrário. As projeções apontam 62 por cento de chance de saída da La Niña entre junho e agosto, o que muda a leitura para o restante do ano.

Esse movimento importa porque o El Niño interfere diretamente no comportamento do clima global. Quando as águas do Pacífico equatorial ficam mais quentes, o planeta tende a sentir os efeitos em forma de calor, chuvas intensas e desequilíbrios regionais.

Na prática, o que começa no oceano pode aparecer depois em eventos extremos em diferentes partes do mundo. É por isso que a evolução das águas do Pacífico costuma ser tratada como um dos sinais mais observados do sistema climático.

Mapa mostra as temperaturas dos oceanos em 10 de março de 2026 em comparação com a média histórica, com destaque para a faixa do Pacífico equatorial onde se desenvolvem os fenômenos El Niño e La Niña, decisivos para o comportamento do clima global.

Novembro pode marcar a volta de um super El Niño pela terceira vez em 30 anos

Além da mudança de fase, existe um cenário mais pesado no horizonte. A chance de o fenômeno evoluir para um super El Niño até novembro foi estimada em 15 por cento, um número menor, mas suficiente para manter o alerta aceso.

Esse tipo de evento é mais raro e mais forte. Enquanto um El Niño comum aparece quando a superfície do oceano fica ao menos 0,5 °C acima da média de longo prazo, o super evento exige anomalia de pelo menos 2 °C.

Se isso se confirmar, será apenas a terceira vez em 30 anos que um episódio desse porte se forma. O último caso mais forte ocorreu entre 2015 e 2016, período que entrou para o histórico recente do clima global.

Calor do oceano pode empurrar 2027 para um novo recorde global

Quando o Pacífico tropical aquece demais, ele libera grandes quantidades de calor para a atmosfera. Esse processo não costuma bater no mesmo instante com o pico do fenômeno no mar. Existe um atraso, e é justamente aí que 2027 entra como ano mais sensível.

O raciocínio é simples. O oceano aquece antes, a atmosfera responde depois. Por isso, mesmo que o avanço do El Niño se concentre em 2026, os maiores efeitos sobre a temperatura média global podem aparecer de forma mais clara no ano seguinte.

O mundo já viu algo parecido há pouco tempo. 2024 foi o ano mais quente já registrado e ultrapassou pela primeira vez a marca de 1,5 °C acima do nível pré industrial. Já 2025, ao lado de 2023, ficou logo atrás entre os mais quentes da série histórica.

Mapas mostram como um episódio de aquecimento no Pacífico, associado ao El Niño, pode alterar o clima em diferentes partes do planeta entre dezembro e fevereiro e entre junho e agosto, com áreas mais sujeitas a calor, seca ou aumento das chuvas.

Aquecimento do mar saiu de 0,06 °C para 0,27 °C por década

O pano de fundo deixa esse quadro ainda mais delicado. Segundo University of Reading, universidade britânica voltada à pesquisa climática e ambiental, o ritmo de aquecimento dos oceanos acelerou de forma expressiva nas últimas décadas.

No fim dos anos 1980, as temperaturas oceânicas subiam cerca de 0,06 °C por década. Agora, essa taxa avançou para 0,27 °C por década, uma diferença grande o bastante para alterar a forma como o sistema climático responde aos eventos naturais.

Isso ajuda a entender por que cada novo episódio no Pacífico desperta tanta atenção. Um oceano mais quente oferece mais energia ao clima, amplia o potencial de extremos e reduz a margem de segurança em anos de transição entre La Niña e El Niño.

Chuva forte, seca e incêndio podem se alternar com mais frequência até 2060

Os efeitos do ENSO, nome dado ao ciclo que inclui El Niño, La Niña e a fase neutra, não se resumem a um mapa ou a uma curva de temperatura. Em anos de El Niño, a tendência inclui mais chuva de inverno na Califórnia, secas mais profundas na Austrália e maior risco de incêndios no Sudeste Asiático.

Na fase oposta, com a La Niña, o oceano esfria e os ventos ao longo do equador ficam mais intensos. Esse cenário pode favorecer a formação de furacões no Atlântico e reorganizar os padrões de chuva em várias regiões.

Hoje, esse ciclo costuma alternar entre fases quentes e frias a cada dois a sete anos. O problema é que pesquisadores já apontam a possibilidade de esse intervalo encolher e passar a ocorrer com mais regularidade entre dois e cinco anos até 2060.

Quando isso acontece, a mesma região pode sair de uma seca severa para uma enchente extrema em pouco tempo. O solo perde capacidade de absorção, a vegetação desaparece, os reservatórios sofrem danos e a próxima estiagem encontra um ambiente ainda mais frágil.

O sinal preocupa porque algumas cidades já convivem com mudanças bruscas entre falta de água e chuva excessiva. Se os eventos do Pacífico ficarem mais frequentes e mais intensos, esse padrão tende a se aprofundar.

Entender o Pacífico virou parte central da leitura do clima

O avanço possível do El Niño em 2026 não é apenas uma troca de fase no oceano. Ele pode abrir espaço para um novo salto de temperatura global, aumentar a volatilidade climática e empurrar 2027 para um patamar ainda mais extremo.

O quadro combina três fatores que pesam juntos: chance alta de transição, possibilidade de um super evento e um oceano que aquece mais rápido do que antes. Quando essas peças se aproximam, o efeito deixa de ser regional e passa a mexer com o Pacífico e com a leitura do clima no planeta.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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