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Escavado à mão por 13 moradores em apenas 5 anos, o túnel de 1.200 metros que atravessa o interior de uma montanha a 1.700 metros de altitude desafia a gravidade com ‘janelas’ para o abismo

Escrito por Carla Teles
Publicado em 19/11/2025 às 17:25
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Escavado à mão por 13 moradores, o túnel de 1.200 metros na China desafia o abismo a 1.700m de altitude. Descubra a história real por trás dessa obra impossível.
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Obra vernacular feita por 13 moradores nas montanhas Taihang eliminou a “escada do céu” e transformou uma vila isolada a 1.700 metros de altitude em ícone do turismo global.

Nas encostas vertiginosas da província de Henan, na China, uma cicatriz na rocha narra uma das histórias mais impressionantes de determinação humana e engenharia improvisada. O túnel de 1.200 metros, conhecido mundialmente como o Túnel de Guoliang, não foi obra de grandes construtoras ou de planejamento estatal centralizado. Ele foi talhado manualmente, centímetro a centímetro, por treze aldeões que se recusaram a aceitar o isolamento geográfico que condenava sua comunidade à pobreza e à estagnação.

Localizado nas Montanhas Taihang, este corredor de pedra substituiu uma perigosa trilha antiga e se tornou a única via de acesso segura para uma aldeia situada a 1.700 metros de altitude. O que antes era um local acessível apenas pelos mais ágeis, hoje é uma atração que recebe milhões de visitantes, embora sua origem remeta a um período de sacrifício extremo entre 1972 e 1977. A construção, feita sem eletricidade ou maquinário pesado, desafiou a lógica governamental da época e provou a eficácia da vontade coletiva contra a dureza do calcário.

A tirania da geografia e o limite de peso dos porcos

Antes da existência da estrada, a aldeia de Guoliang vivia sob um “teto de vidro” imposto pela geologia. A única conexão com o mundo exterior era a chamada “Escada do Céu” (Tianti), uma rota traiçoeira composta por 720 degraus irregulares esculpidos na rocha durante a Dinastia Song. Essa infraestrutura primitiva ditava cruelmente a economia local. Segundo relatos de Song Baoqun, um dos moradores mais antigos, a logística era tão precária que limitava até o crescimento do gado.

Os porcos criados na vila não podiam ultrapassar o peso de 50 ou 60 quilogramas. Se um animal excedesse esse limite biológico, tornava-se fisicamente impossível para um homem carregá-lo nas costas pelos degraus verticais até o mercado no vale. Isso forçava os moradores a venderem seus ativos antes do tempo, perpetuando um ciclo de pobreza estrutural. Além disso, mercadorias básicas como sal e carvão chegavam à vila com preços inflacionados pelo custo do transporte manual.

O isolamento cobrava um preço ainda mais alto em vidas humanas. A evacuação médica era um pesadelo logístico: eram necessários oito homens fortes para carregar uma maca pela escada, em uma descida angustiante que levava quatro horas até o hospital mais próximo. Muitos doentes não sobreviviam ao trajeto, sucumbindo a condições tratáveis como apendicites simplesmente porque a geografia impedia o socorro rápido.

Martelos contra a montanha: a venda de gado pela sobrevivência

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Diante da recusa do governo em construir uma estrada, considerada cara e tecnicamente inviável para uma população de apenas 300 pessoas, a liderança da aldeia, encabeçada por Shen Mingxin, tomou uma decisão radical em 1972. Inspirados pela fábula chinesa de “O Velho Tolo Remove as Montanhas”, os moradores decidiram financiar a obra por conta própria. Para comprar ferramentas, a comunidade vendeu o que tinha de mais valioso: cabras, ovelhas e ervas medicinais colhidas nos penhascos.

Uma brigada de choque formada por treze agricultores, sem qualquer formação em engenharia ou mineração, assumiu a tarefa titânica. Armados apenas com determinação e ferramentas rudimentares, eles enfrentaram a rocha quartzítica extremamente dura. Os registros da construção são impressionantes: ao longo de cinco anos, foram consumidos 4.000 martelos e 12 toneladas de aço em brocas e cinzéis.

O progresso era agonizante. Nas seções de rocha mais densa, a equipe avançava a uma taxa de apenas um metro a cada três dias. A obra exigia um ciclo constante de forja e reparação das ferramentas, desgastadas pela dureza da montanha. Apesar dos riscos letais de trabalhar na face de um penhasco vertical onde um aldeão perdeu a vida e outros sofreram acidentes, o grupo persistiu, movido pela certeza de que parar significava a extinção lenta da aldeia.

As “janelas” do abismo: funcionalidade acima da estética

Quem observa o túnel de 1.200 metros hoje se impressiona com as famosas “janelas” irregulares que se abrem para o precipício. Embora tenham se tornado o cartão-postal da região, essas aberturas não foram uma escolha estética, mas uma solução brilhante de engenharia vernacular para resolver problemas críticos de construção sem tecnologia moderna.

Primeiramente, as mais de 30 janelas serviam para o descarte de entulho. Remover toneladas de rocha de um túnel cego de mais de um quilômetro seria inviável manualmente; as aberturas permitiam empurrar os detritos diretamente para o abismo. Além disso, sem eletricidade, essas fendas garantiam a iluminação necessária para o trabalho durante o dia e forneciam ventilação vital, criando uma corrente de ar que mitigava o risco de silicose causada pela poeira da escavação.

As dimensões finais do túnel, 5 metros de altura por 4 metros de largura, foram calculadas pragmaticamente para permitir a passagem de veículos da época, como tratores. A geometria da via é orgânica, seguindo o caminho de menor resistência através das camadas geológicas, o que resulta em curvas cegas e mudanças de elevação que desafiam os motoristas modernos.

De vila isolada a “Aldeia do Cinema Chinês”

A conclusão da obra em 1º de maio de 1977 alterou permanentemente o destino de Guoliang. Inicialmente, o túnel cumpriu sua função de sobrevivência: o tempo de acesso a serviços médicos caiu de horas para minutos, e o comércio fluiu. No entanto, a verdadeira transformação econômica ocorreu nas décadas seguintes, quando a estética dramática do local atraiu cineastas e turistas.

Conhecida hoje como a “Aldeia do Cinema e TV Chinesa”, Guoliang serviu de cenário para mais de 40 produções audiovisuais. A exposição midiática transformou a economia de subsistência em uma indústria de hospitalidade. Atualmente, a aldeia recebe cerca de 1,4 milhões de turistas anualmente. Moradores como o Sr. Song, um dos construtores originais, viram suas famílias migrarem da agricultura para a gestão de hotéis e restaurantes, aproveitando a mobilidade social que a estrada proporcionou.

Contudo, a fama trouxe novos desafios de segurança. Listado frequentemente como uma das estradas mais perigosas do mundo, o túnel exige cautela extrema. A falta de guardrails em alguns trechos e a transição abrupta de luz nas “janelas” criam riscos reais. Hoje, para mitigar acidentes e gerenciar o fluxo, o acesso de carros particulares é restrito, priorizando o uso de ônibus operados por motoristas locais experientes.

O que você acha dessa história de persistência? Acredita que a transformação turística compensou a perda da tranquilidade original da aldeia? Deixe sua opinião nos comentários, queremos saber sua visão sobre o preço do progresso.

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Bezalel
Bezalel
24/11/2025 14:13

Escolheram morar lá por que quiseram. Com tanto lugar acessível pra fixar residência foram escolher logo um lugar de difícil acesso!!

Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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