Descoberta realizada em 2021 no sítio arqueológico de Milovice IV, na Morávia do Sul, reúne 29 lâminas datadas entre 30.250 e 29.550 anos antes do presente e indica possível equipamento pessoal completo de um indivíduo da cultura gravetiana, preservado no Horizonte Arqueológico II
Enterrado por 30.000 anos, o kit de ferramentas encontrado em 2021 no sítio Milovice IV, na Morávia do Sul, reúne 29 pedras datadas entre 30.250 e 29.550 anos antes do presente e pode representar o equipamento pessoal completo de um único indivíduo da cultura gravetiana.
A descoberta ocorreu nas colinas da Morávia do Sul, região que ao longo de décadas revelou milhares de artefatos da Idade da Pedra. Diferentemente da maioria dos achados anteriores, compostos por fragmentos dispersos, o conjunto de 29 pedras apresentou uma configuração incomum.
As peças estavam compactadas e preservavam a disposição que teriam se estivessem envoltas em recipiente de couro ou casca de árvore, material perecível que apodreceu ao longo de milênios. A datação por radiocarbono do carvão vegetal da mesma camada situou o depósito entre 30.250 e 29.550 anos antes do presente.
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Segundo estudo publicado no Journal of Paleolithic Archaeology, o contexto indica que não se trata de lixo acumulado por gerações, mas possivelmente do equipamento pessoal completo de um único indivíduo. Essa distinção permite observar como um caçador da Idade do Gelo se deslocava e quais ferramentas considerava essenciais.
Kit de ferramentas preservado no Horizonte Arqueológico II
A escavação realizada em 2021 revelou estratigrafia complexa com múltiplas ocupações do Paleolítico Superior. O conjunto emergiu do Horizonte Arqueológico II, camada que também continha lareira e ossos de animais, principalmente cavalo e rena.
Os pesquisadores documentaram a posição do kit de ferramentas utilizando estação total e executaram a escavação em três fases. Houve registro fotográfico detalhado, preservando as relações espaciais entre as 29 lâminas e lamelas.
O estudo afirma que o contexto específico sugere agrupamento original em recipiente de material perecível. A ausência desse material atualmente é considerada esperada, já que a preservação orgânica é rara em sítios a céu aberto dessa época.
A formação do horizonte parece ter ocorrido de forma relativamente rápida. Os autores observam que o corpo principal do Horizonte Arqueológico II foi depositado logo após ou durante a ocupação humana do sítio, o que pode explicar a manutenção do conjunto intacto.
Análises técnicas revelam funções e origens diversas do kit de ferramentas
Análises tecnotipológicas e de desgaste por uso, conduzidas na Universidade Sapienza de Roma e na Universidade de Hradec Králové, identificaram múltiplas funções nas peças. Parte substancial apresentou fraturas associadas a projéteis.
Outras ferramentas exibiram evidências de corte, raspagem e perfuração. As análises indicaram uso intensivo e reaproveitamento de fragmentos quebrados, que foram afiados e modificados para novas funções.
As matérias-primas foram rastreadas por espectrometria de massa com plasma acoplado indutivamente por ablação a laser. Algumas pedras vieram de fontes situadas a mais de 100 quilômetros de distância.
De acordo com o estudo, a variedade de matérias-primas reflete o alcance da mobilidade ou a rede de contatos do indivíduo. A reutilização de pequenos fragmentos também sugere tratamento econômico dos equipamentos pessoais, possivelmente em razão de escassez durante viagens.
O uso de lascas e pedaços quebrados reforça a hipótese de limitação de recursos em deslocamentos de caça ou migração. O kit de ferramentas evidencia decisões individuais relacionadas ao aproveitamento máximo do material disponível.
Cultura gravetiana e contexto regional do achado
A datação entre 30.250 e 29.550 anos antes do presente situa o conjunto no período em que a cultura gravetiana se estendia pela Europa central, aproximadamente entre 33.000 e 24.000 anos atrás.
Sítios como Dolní Věstonice e Pavlov, próximos a Milovice IV, registram ocupações em ambiente de estepe fria. Os grupos caçavam animais de rebanho, incluindo cavalos, renas e mamutes.
Segundo Dominik Chlachula, do Instituto de Arqueologia da Academia de Ciências da República Tcheca e primeiro autor do estudo, os artefatos provavelmente destacam um episódio na vida de uma pessoa, algo descrito como muito raro para o Paleolítico.
Ele afirmou que tais descobertas podem lançar luz sobre o comportamento de povos pré-históricos durante migrações ou expedições de caça, que não costumavam deixar muitos vestígios na paisagem.
Contexto espacial e importância do conjunto intacto
O conjunto foi encontrado em acampamento residencial, entre lareiras e ossos de animais abatidos. Esse contexto associa o indivíduo a um ambiente social mais amplo, mesmo que as ferramentas possam ter sido utilizadas em expedições mais isoladas.
O estudo ressalta que, se os artefatos tivessem sido descobertos separadamente, não teriam se destacado dos demais materiais descartados no sítio. É o contexto espacial preservado que confere relevância ao conjunto.
A disposição compactada das 29 lâminas e lamelas sugere armazenamento organizado. A configuração reforça a interpretação de que o kit de ferramentas representava equipamento pessoal e não simples acúmulo coletivo.
As peças encontram-se armazenadas em laboratório na Academia Tcheca de Ciências, onde permanecem disponíveis para estudos adicionais. Os pesquisadores continuam trabalhando para aprimorar a compreensão dos processos de formação do sítio de Milovice IV.
A documentação detalhada da escavação e a preservação das relações espaciais permitiram análise precisa do conjunto. O kit de ferramentas, ao permanecer agrupado por cerca de 30.000 anos, oferece registro raro de um momento específico na vida de um indivíduo da Era do Gelo.
Ao reunir dados de datação, análises funcionais e rastreamento de matérias-primas, o estudo apresenta um quadro integrado do achado. A combinação de contexto estratigráfico, organização espacial e diversidade de materiais sustenta a interpretação de equipamento pessoal.
Assim, o kit de ferramentas encontrado em Milovice IV acrescenta uma dimensão individual ao registro arqueológico da cultura gravetiana. A descoberta amplia a compreensão sobre mobilidade, uso de recursos e organização tecnológica no Paleolítico Superior, mantendo-se ancorada exclusivamente nas evidências documentadas no sítio.

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