Sistema brasileiro de pagamentos virou ponto sensível na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, enquanto o avanço do Pix pressiona cartões, bancos, fintechs e grandes empresas globais de tecnologia que atuam no mercado de transações digitais.
A proposta do governo de Donald Trump de aplicar tarifa de 25% sobre parte das exportações brasileiras colocou o Pix no centro de uma disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos, ao lado de temas como comércio digital, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
Segundo o Escritório do Representante de Comércio dos EUA, o USTR, práticas brasileiras poderiam ser discriminatórias ou prejudiciais ao comércio americano, inclusive pela atuação do Banco Central no sistema de pagamentos instantâneos.
Com a inclusão do Pix na investigação, voltaram ao debate críticas feitas por entidades empresariais americanas que representam companhias globais de tecnologia, cartões e meios de pagamento.
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Nesse grupo aparecem organizações ligadas a empresas como Visa, Mastercard, Apple, Amazon e Google, todas com atuação em mercados diretamente afetados pela expansão do sistema brasileiro.
No centro da acusação americana está a ideia de que o Banco Central teria favorecido o Pix em relação a serviços privados de pagamento, incluindo soluções oferecidas por empresas dos Estados Unidos.
Também entrou na mira do USTR a dupla função do BC, que atua como regulador do sistema financeiro e, ao mesmo tempo, opera a infraestrutura do Pix.
Entre especialistas e representantes do setor financeiro brasileiro, porém, a avaliação segue outro caminho: a ofensiva americana parece mais uma reação de concorrentes diante de uma tecnologia bem-sucedida do que prova de prática comercial desleal.
Pix entra na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos
Criado pelo Banco Central e lançado no fim de 2020, o Pix surgiu com a promessa de permitir transferências e pagamentos em poucos segundos, a qualquer hora do dia e em todos os dias da semana.
Desde a estreia, o sistema passou a ser adotado por pessoas físicas, empresas, bancos, fintechs e estabelecimentos comerciais de diferentes portes, formando uma rede ampla dentro do sistema financeiro brasileiro.
Ao reduzir custos, acelerar transações e simplificar pagamentos cotidianos, a ferramenta ganhou escala e ajudou a ampliar o acesso de milhões de brasileiros aos serviços financeiros.
De acordo com a Reuters, o Banco Central associa o avanço do Pix à entrada de mais de 70 milhões de pessoas no sistema financeiro desde o lançamento da plataforma.
Com esse crescimento, mudou também a dinâmica de um mercado antes dominado por cartões de crédito e débito, boletos e transferências bancárias tradicionais.
À medida que consumidores e empresas passaram a usar o Pix em compras presenciais e digitais, uma parte das operações deixou de passar pelas bandeiras de cartão, setor no qual Visa e Mastercard têm presença relevante.
A pressão ficou mais evidente no comércio eletrônico, onde o pagamento instantâneo passou a disputar diretamente a preferência dos consumidores brasileiros.
Dados da Ebanx, com base em estudo da PCMI, apontam que o Pix respondeu por 42% das compras online no Brasil, superando os cartões de crédito, que ficaram com 41%.
Pelas mesmas projeções, o sistema deve chegar a 50% do e-commerce brasileiro até 2028, consolidando uma mudança relevante no mercado de pagamentos digitais.
Críticas do USTR ecoam lobby empresarial americano
As críticas do USTR ao Pix seguem linha parecida com a apresentada por entidades empresariais americanas durante a fase de consultas da investigação.
Nos documentos enviados ao processo, essas organizações apontaram suposto favorecimento do sistema brasileiro e mencionaram possível conflito de interesse na atuação do Banco Central.
Entre as manifestações citadas estão contribuições de grupos que representam empresas de tecnologia, comércio e pagamentos, áreas diretamente interessadas nas regras brasileiras para transações digitais.
Embora o debate também envolva inteligência artificial, propriedade intelectual e regulação de plataformas digitais, a presença do Pix chamou atenção pelo impacto direto sobre empresas privadas do setor de pagamentos.
No Brasil, a Federação Brasileira de Bancos, a Febraban, rebateu as alegações americanas e defendeu o caráter aberto da infraestrutura criada pelo Banco Central.
Para a entidade, o Pix não deve ser tratado como produto comercial, mas como uma infraestrutura pública de pagamento acessível a instituições nacionais e estrangeiras.
“O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial”, disse a Febraban em nota divulgada após a manifestação do USTR.
Na mesma posição, a federação afirmou que o modelo favorece a competição e o funcionamento do sistema de pagamentos, sem discriminar bancos, fintechs ou instituições financeiras estrangeiras.
A acusação contra o Pix, na visão de especialistas, ignora o efeito normal de uma inovação tecnológica sobre mercados que já estavam estabelecidos.
Quando uma solução mais rápida, barata ou eficiente ganha escala, empresas que operavam no modelo anterior tendem a perder espaço e precisam se adaptar.
Cartões de crédito sentem avanço do Pix no Brasil
O incômodo das bandeiras de cartão com o Pix vem de antes da ofensiva comercial americana e acompanha a expansão acelerada do sistema desde 2020.
Aos poucos, o pagamento instantâneo passou a substituir transações que dependiam de cartões, boletos ou transferências tradicionais, especialmente em operações de menor valor e em compras com liquidação imediata.
Com novas funcionalidades, a preocupação do setor privado ganhou força e passou a alcançar segmentos historicamente associados aos cartões de crédito e débito.
Voltado a pagamentos recorrentes, o Pix Automático amplia a competição com cobranças feitas por cartão, débito automático e boletos.
Já o Pix Parcelado, oferecido por instituições financeiras participantes, aproxima o sistema do mercado de crédito ao consumidor e disputa espaço com modalidades tradicionais de financiamento ao consumo.
Relatórios de mercado já vinham apontando esse movimento antes de a disputa ganhar novo peso político nos Estados Unidos.
A Fitch Ratings avaliou que modalidades de parcelamento associadas ao Pix podem competir diretamente com cartões de crédito.
Estudos da PCMI, por sua vez, indicaram que pagamentos recorrentes pelo sistema tendem a reduzir volumes hoje concentrados em cartões de débito e crédito.
Mesmo diante desse avanço, analistas destacam que o cartão de crédito ainda mantém força no Brasil, sobretudo por causa do parcelamento sem juros, prática muito usada em compras de maior valor.
A própria Ebanx reconhece que os cartões devem preservar uma base relevante de usuários, embora o Pix continue avançando em ritmo acelerado.
Banco Central defende Pix como infraestrutura aberta
Para o Banco Central, o Pix funciona como uma infraestrutura neutra, construída para ampliar eficiência, inclusão e concorrência dentro do sistema financeiro brasileiro.
Diferentemente de uma empresa privada, o BC não opera o Pix como marca comercial voltada a lucro próprio ou restrita a um grupo específico de participantes.
Na prática, bancos tradicionais, cooperativas de crédito, instituições de pagamento e fintechs usam o sistema, incluindo empresas com capital estrangeiro.
Essa arquitetura aberta sustenta um dos principais argumentos de defesa do modelo brasileiro contra a acusação de discriminação a companhias americanas.
A investigação dos Estados Unidos ocorre com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana, instrumento que permite apurar práticas consideradas injustas ou restritivas ao comércio dos EUA.
Aberta pelo USTR em julho de 2025, a apuração incluiu serviços de pagamento eletrônico entre os pontos avaliados pelo governo americano.
Ainda sem decisão definitiva, a proposta de tarifa de 25% depende de etapas formais nos Estados Unidos antes de eventual aplicação.
Segundo a Reuters, o processo prevê consulta pública até 1º de julho e audiência em 6 de julho, antes de uma definição sobre as medidas comerciais contra o Brasil.
Pagamentos digitais entram no jogo geopolítico
A disputa em torno do Pix mostra como sistemas de pagamento passaram a ter peso estratégico nas relações econômicas internacionais.
Temas como controle de transações digitais, dados, tarifas e infraestrutura financeira deixaram de ser apenas assuntos bancários e entraram no campo da política comercial.
No caso brasileiro, a rápida adoção do Pix reduziu a dependência de dinheiro em espécie, acelerou operações e alterou a divisão de receitas entre participantes do mercado.
Com essa mudança, empresas que antes ocupavam posição central em pagamentos passaram a enfrentar a concorrência de uma rede pública operada pelo Banco Central.
A digitalização dos pagamentos também avança em outros países, embora com modelos diferentes e maior ou menor participação direta do Estado.
Na China, plataformas privadas ligadas a grandes empresas de tecnologia ganharam protagonismo na intermediação de pagamentos digitais.
Já no Brasil, a infraestrutura foi organizada pelo regulador e aberta aos participantes do sistema financeiro, o que ampliou a escala do Pix em pouco tempo.
O embate com os Estados Unidos, portanto, não se limita à tarifa proposta sobre produtos brasileiros, porque reflete uma disputa maior sobre quem controla a infraestrutura dos pagamentos digitais.
Também mostra como governos podem criar sistemas públicos capazes de competir com redes privadas globais, deslocando receitas, reorganizando mercados e provocando reação de empresas já estabelecidas.


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