Projeto francês reaproveita águas residuais tratadas para reforçar reservatórios públicos, enquanto diferenças legais mostram por que essa solução ainda avança em ritmos distintos na Europa, especialmente quando o destino final envolve abastecimento humano e controle sanitário rigoroso.
Na região francesa da Vendée, o programa Jourdain testa uma alternativa para reforçar reservatórios usados na produção de água potável a partir do reaproveitamento de águas residuais tratadas.
A iniciativa é conduzida pela Vendée Eau e recupera parte da água que sairia da estação de tratamento dos Sables-d’Olonne, antes de enviá-la para uma etapa adicional de purificação.
Depois desse processo, a água percorre uma tubulação subterrânea até a região do Jaunay, onde passa por uma zona vegetalizada antes de chegar à retenção usada no abastecimento público.
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O modelo ganhou destaque por propor uma reutilização indireta, em que a água regenerada não segue diretamente para as torneiras e ainda passa por etapas ambientais e tratamento convencional.
A proposta busca reduzir a pressão sobre o abastecimento em uma área costeira marcada por turismo intenso no verão, crescimento populacional e maior vulnerabilidade durante períodos de estiagem.
De acordo com a Vendée Eau, cerca de nove em cada dez litros de água potável consumidos no departamento vêm de águas superficiais, como reservatórios e barragens.
Como funciona o programa Jourdain
Diferentemente da ideia de conversão imediata de esgoto em água potável, o sistema francês trabalha com um circuito mais longo e controlado para reduzir riscos sanitários.
A água residual já tratada é captada na saída da estação dos Sables-d’Olonne, antes de ser descartada no mar, e segue para uma unidade de tratamento avançado.
Nessa instalação, o líquido passa por processos de purificação destinados a remover partículas, microrganismos e resíduos químicos antes do transporte até a retenção do Jaunay.
A Agência da Água Loire-Bretagne descreve o projeto como uma forma de recuperar efluentes tratados que seriam lançados no oceano e transformá-los em recurso complementar para o abastecimento.
Após a etapa técnica, a água segue por 27 quilômetros de tubulação subterrânea até uma área vegetalizada, onde ocorre uma transição ambiental antes da mistura com o reservatório.
Somente depois dessa fase a água integra a retenção superficial, que abastece a usina responsável pelo tratamento final da água destinada ao consumo humano.
Quatro barreiras de purificação antes do reservatório
A segurança do programa Jourdain depende de uma sequência de barreiras físicas, químicas e microbiológicas instaladas antes da chegada da água ao ambiente natural de transição.
Segundo a Vendée Eau, o tratamento avançado combina ultrafiltração, osmose inversa de baixa pressão, desinfecção por ultravioleta e cloração para reduzir diferentes tipos de contaminação.
Esses procedimentos têm como finalidade atuar sobre partículas, bactérias, vírus, pesticidas, PFAS e resíduos de medicamentos que podem permanecer em águas residuais após o tratamento convencional.
Na fase experimental, a instalação trata cerca de 25% da água descartada pela estação dos Sables-d’Olonne, volume correspondente a aproximadamente 150 metros cúbicos por hora.
A avaliação sanitária do projeto também passou pela Anses, agência francesa de segurança sanitária, que analisou o uso de águas residuais tratadas para alimentar uma retenção destinada à produção de água potável.
No parecer, a Anses descreve o sistema como um demonstrador experimental e detalha a captação, o transporte por canalização subterrânea, a passagem pela zona vegetalizada e a entrada no reservatório.
Por que a Vendée virou laboratório de água regenerada
A escolha da Vendée está ligada à dependência de águas superficiais e à necessidade de reforçar o abastecimento em uma região sujeita a variações de chuva e aumento sazonal da demanda.
Nos meses de maior movimento turístico, o consumo de água cresce justamente em um período no qual a disponibilidade pode ficar mais pressionada por calor e estiagem.
Esse cenário levou a Vendée Eau a estruturar o Jourdain como uma solução complementar, sem substituir integralmente barragens, rios ou outras fontes tradicionais de abastecimento.
O programa foi desenhado para avançar de forma gradual, com etapas de estudo, implantação, testes em operação real e avaliação de impactos ambientais, sanitários e sociais.
A própria apresentação institucional do projeto indica desenvolvimento em horizonte de vários anos, com fase experimental antes de qualquer expansão mais ampla da capacidade de tratamento.
Por isso, o Jourdain não deve ser apresentado como uma solução já universalizada, mas como uma experiência em escala real voltada à segurança hídrica regional.
Diferenças entre França e Espanha no uso da água regenerada
Enquanto a França testa a reutilização indireta para reforçar reservatórios ligados ao abastecimento humano, a Espanha mantém regras mais restritivas para esse tipo de aplicação.
O Real Decreto 1085/2024, publicado em outubro de 2024, aprovou o regulamento espanhol de reutilização da água e reorganizou o uso de águas regeneradas no país.
O Ministério para a Transição Ecológica da Espanha informa que a norma regula a água regenerada proveniente de estações urbanas e industriais para 28 usos, agrupados em categorias urbanas, agrícolas, industriais e outros usos.
Apesar de ampliar a reutilização em diferentes setores, o marco espanhol não transformou a água regenerada em fonte comum para consumo humano direto em condições normais.
A legislação espanhola prevê critérios de qualidade e planos de gestão de risco, mas mantém cautela quando o destino envolve ingestão humana e abastecimento público direto.
Esse desenho regulatório ajuda a explicar por que a Espanha, mesmo com forte experiência em reúso agrícola e industrial, avança com mais limites no debate sobre água para consumo.
Secas aceleram o debate europeu sobre reúso de água
A discussão ganhou força porque a escassez hídrica pressiona governos europeus a buscar fontes complementares, especialmente em áreas costeiras onde efluentes tratados ainda são descartados no mar.
Na União Europeia, o Regulamento 2020/741 estabelece requisitos mínimos para reúso de água, com foco no aproveitamento de águas residuais urbanas tratadas para irrigação agrícola.
Embora o marco europeu ajude a padronizar critérios de segurança, cada país mantém margem para definir usos, limites e procedimentos compatíveis com sua legislação nacional.
Nesse contexto, o caso francês chama atenção por combinar tecnologia industrial, etapa ambiental e tratamento convencional de água potável em uma cadeia única de abastecimento indireto.
A experiência da Vendée também mostra que a aceitação desse tipo de solução depende de controle técnico, transparência regulatória e comunicação clara sobre cada etapa do processo.
Na prática, projetos como o Jourdain tentam demonstrar que a água regenerada pode reforçar reservatórios sob monitoramento rigoroso, enquanto países como a Espanha preservam limites legais para usos considerados mais sensíveis.

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