1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Enquanto a França usa 4 barreiras de purificação e 27 km de tubulações para transformar esgoto tratado em reforço dos reservatórios, a Espanha segue travada por restrições legais e desconfiança sobre o consumo humano.
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Enquanto a França usa 4 barreiras de purificação e 27 km de tubulações para transformar esgoto tratado em reforço dos reservatórios, a Espanha segue travada por restrições legais e desconfiança sobre o consumo humano.

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 11/06/2026 às 17:18
Atualizado em 11/06/2026 às 17:22
França testa água de esgoto tratada para reforçar reservatórios, enquanto Espanha mantém restrições ao consumo humano.
França testa água de esgoto tratada para reforçar reservatórios, enquanto Espanha mantém restrições ao consumo humano.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Projeto francês reaproveita águas residuais tratadas para reforçar reservatórios públicos, enquanto diferenças legais mostram por que essa solução ainda avança em ritmos distintos na Europa, especialmente quando o destino final envolve abastecimento humano e controle sanitário rigoroso.

Na região francesa da Vendée, o programa Jourdain testa uma alternativa para reforçar reservatórios usados na produção de água potável a partir do reaproveitamento de águas residuais tratadas.

A iniciativa é conduzida pela Vendée Eau e recupera parte da água que sairia da estação de tratamento dos Sables-d’Olonne, antes de enviá-la para uma etapa adicional de purificação.

Depois desse processo, a água percorre uma tubulação subterrânea até a região do Jaunay, onde passa por uma zona vegetalizada antes de chegar à retenção usada no abastecimento público.

O modelo ganhou destaque por propor uma reutilização indireta, em que a água regenerada não segue diretamente para as torneiras e ainda passa por etapas ambientais e tratamento convencional.

A proposta busca reduzir a pressão sobre o abastecimento em uma área costeira marcada por turismo intenso no verão, crescimento populacional e maior vulnerabilidade durante períodos de estiagem.

De acordo com a Vendée Eau, cerca de nove em cada dez litros de água potável consumidos no departamento vêm de águas superficiais, como reservatórios e barragens.

Como funciona o programa Jourdain

Diferentemente da ideia de conversão imediata de esgoto em água potável, o sistema francês trabalha com um circuito mais longo e controlado para reduzir riscos sanitários.

A água residual já tratada é captada na saída da estação dos Sables-d’Olonne, antes de ser descartada no mar, e segue para uma unidade de tratamento avançado.

Nessa instalação, o líquido passa por processos de purificação destinados a remover partículas, microrganismos e resíduos químicos antes do transporte até a retenção do Jaunay.

A Agência da Água Loire-Bretagne descreve o projeto como uma forma de recuperar efluentes tratados que seriam lançados no oceano e transformá-los em recurso complementar para o abastecimento.

Após a etapa técnica, a água segue por 27 quilômetros de tubulação subterrânea até uma área vegetalizada, onde ocorre uma transição ambiental antes da mistura com o reservatório.

Somente depois dessa fase a água integra a retenção superficial, que abastece a usina responsável pelo tratamento final da água destinada ao consumo humano.

Quatro barreiras de purificação antes do reservatório

A segurança do programa Jourdain depende de uma sequência de barreiras físicas, químicas e microbiológicas instaladas antes da chegada da água ao ambiente natural de transição.

Segundo a Vendée Eau, o tratamento avançado combina ultrafiltração, osmose inversa de baixa pressão, desinfecção por ultravioleta e cloração para reduzir diferentes tipos de contaminação.

Esses procedimentos têm como finalidade atuar sobre partículas, bactérias, vírus, pesticidas, PFAS e resíduos de medicamentos que podem permanecer em águas residuais após o tratamento convencional.

Na fase experimental, a instalação trata cerca de 25% da água descartada pela estação dos Sables-d’Olonne, volume correspondente a aproximadamente 150 metros cúbicos por hora.

A avaliação sanitária do projeto também passou pela Anses, agência francesa de segurança sanitária, que analisou o uso de águas residuais tratadas para alimentar uma retenção destinada à produção de água potável.

No parecer, a Anses descreve o sistema como um demonstrador experimental e detalha a captação, o transporte por canalização subterrânea, a passagem pela zona vegetalizada e a entrada no reservatório.

Por que a Vendée virou laboratório de água regenerada

A escolha da Vendée está ligada à dependência de águas superficiais e à necessidade de reforçar o abastecimento em uma região sujeita a variações de chuva e aumento sazonal da demanda.

Nos meses de maior movimento turístico, o consumo de água cresce justamente em um período no qual a disponibilidade pode ficar mais pressionada por calor e estiagem.

Esse cenário levou a Vendée Eau a estruturar o Jourdain como uma solução complementar, sem substituir integralmente barragens, rios ou outras fontes tradicionais de abastecimento.

O programa foi desenhado para avançar de forma gradual, com etapas de estudo, implantação, testes em operação real e avaliação de impactos ambientais, sanitários e sociais.

A própria apresentação institucional do projeto indica desenvolvimento em horizonte de vários anos, com fase experimental antes de qualquer expansão mais ampla da capacidade de tratamento.

Por isso, o Jourdain não deve ser apresentado como uma solução já universalizada, mas como uma experiência em escala real voltada à segurança hídrica regional.

Diferenças entre França e Espanha no uso da água regenerada

Enquanto a França testa a reutilização indireta para reforçar reservatórios ligados ao abastecimento humano, a Espanha mantém regras mais restritivas para esse tipo de aplicação.

O Real Decreto 1085/2024, publicado em outubro de 2024, aprovou o regulamento espanhol de reutilização da água e reorganizou o uso de águas regeneradas no país.

O Ministério para a Transição Ecológica da Espanha informa que a norma regula a água regenerada proveniente de estações urbanas e industriais para 28 usos, agrupados em categorias urbanas, agrícolas, industriais e outros usos.

Apesar de ampliar a reutilização em diferentes setores, o marco espanhol não transformou a água regenerada em fonte comum para consumo humano direto em condições normais.

A legislação espanhola prevê critérios de qualidade e planos de gestão de risco, mas mantém cautela quando o destino envolve ingestão humana e abastecimento público direto.

Esse desenho regulatório ajuda a explicar por que a Espanha, mesmo com forte experiência em reúso agrícola e industrial, avança com mais limites no debate sobre água para consumo.

Secas aceleram o debate europeu sobre reúso de água

A discussão ganhou força porque a escassez hídrica pressiona governos europeus a buscar fontes complementares, especialmente em áreas costeiras onde efluentes tratados ainda são descartados no mar.

Na União Europeia, o Regulamento 2020/741 estabelece requisitos mínimos para reúso de água, com foco no aproveitamento de águas residuais urbanas tratadas para irrigação agrícola.

Embora o marco europeu ajude a padronizar critérios de segurança, cada país mantém margem para definir usos, limites e procedimentos compatíveis com sua legislação nacional.

Nesse contexto, o caso francês chama atenção por combinar tecnologia industrial, etapa ambiental e tratamento convencional de água potável em uma cadeia única de abastecimento indireto.

A experiência da Vendée também mostra que a aceitação desse tipo de solução depende de controle técnico, transparência regulatória e comunicação clara sobre cada etapa do processo.

Na prática, projetos como o Jourdain tentam demonstrar que a água regenerada pode reforçar reservatórios sob monitoramento rigoroso, enquanto países como a Espanha preservam limites legais para usos considerados mais sensíveis.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x