Por três dias, a rotina do goleiro Caíque deixou de ter traves, bolas e treinamentos.
Com as atividades do Grêmio interrompidas em meio às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024, ele passou a acordar por volta das 5h e retornar para casa somente perto da meia-noite.
No lugar do campo, entrou uma moto aquática.
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Ao lado de amigos e outros voluntários, o então goleiro gremista percorreu áreas alagadas de Porto Alegre para retirar moradores que não conseguiam deixar suas casas.
Em uma das imagens que circularam naquele período, Caíque aparece usando uma corda para ajudar pessoas a sair de um prédio cercado pela água na Zona Norte da capital gaúcha.
Quando falou sobre aqueles dias posteriormente, o jogador contou que participou dos resgates durante três jornadas intensas.
A rotina começava ainda de madrugada e terminava perto da meia-noite, enquanto a cidade atravessava um dos momentos mais críticos das enchentes.
O episódio ocorreu em uma fase na qual o futebol gaúcho praticamente parou.
Centros de treinamento foram atingidos, partidas foram adiadas e jogadores de diferentes clubes começaram a participar de ações de arrecadação, distribuição de mantimentos e resgate de moradores.
Caíque trocou os treinos do Grêmio por resgates de jet ski
O Grêmio estava sem realizar normalmente seus trabalhos de campo por causa dos alagamentos nas estruturas do clube.
Caíque decidiu usar o período de paralisação para se juntar a amigos que já participavam de operações voluntárias.
No domingo, 5 de maio de 2024, vídeos começaram a mostrar o goleiro sobre uma moto aquática em áreas da Zona Norte de Porto Alegre.
A região estava entre as partes da capital mais atingidas pela elevação das águas.
Em uma das operações, uma corda foi utilizada para auxiliar moradores a deixar um edifício cercado pela enchente.
O procedimento permitia que as pessoas fossem orientadas até a moto aquática ou para um ponto onde pudessem continuar o deslocamento em segurança.
Caíque também utilizou barcos durante os trabalhos, segundo relatos posteriores sobre sua participação.

Três dias de resgates começavam às 5h e terminavam perto da meia-noite
A dimensão da rotina só ficou mais clara quando o goleiro falou sobre os resgates dias depois.
Em entrevista aos canais do Grêmio, Caíque contou que foram três dias de atuação intensa, nos quais chegava a levantar às 5h da manhã e retornava para casa apenas perto da meia-noite.
Durante essas horas, ele encontrou crianças, idosos e famílias tentando abandonar imóveis tomados pela água.
O goleiro relatou que inicialmente acompanhava a dimensão da enchente pelas redes sociais, mas que somente ao entrar nas áreas alagadas percebeu o cenário que os moradores enfrentavam.
“Foi um momento muito complicado como ser humano. Não estamos falando como atleta, não agimos como atleta, mas como ser humano”, afirmou Caíque ao relembrar a participação nos resgates.
Segundo ele, as três jornadas foram marcadas por situações que permaneceram na memória mesmo depois da retomada do futebol.
Morador voltou à casa para tentar recuperar documentos
Entre os episódios relatados pelo goleiro estava o resgate de um homem que havia reformado a própria residência pouco antes da enchente.
Durante a operação, o morador precisou retornar ao imóvel para recuperar documentos.
Ao ver os danos provocados pela água, entrou em desespero, segundo Caíque.
O goleiro também descreveu cenas de pessoas sobre telhados e moradores pedindo ajuda pelas janelas.
“Foram três dias muito intensos, muitas cenas doloridas”, afirmou ao canal do Grêmio.
A participação do jogador não ocorreu como parte de uma operação oficial do clube.
Caíque atuou junto a amigos e voluntários que utilizavam embarcações e motos aquáticas para alcançar pontos onde carros e outros veículos já não conseguiam circular.
Nível do Guaíba passou de cinco metros em Porto Alegre
Naquele período, Porto Alegre enfrentava uma situação sem precedentes recentes.
Em 6 de maio de 2024, quando a participação de Caíque nos resgates ganhou repercussão nacional, o nível do Guaíba estava em 5,26 metros, muito acima da cota de inundação usada como referência naquele momento.
Bairros inteiros foram tomados pela água.
Além dos alagamentos, moradores enfrentavam interrupções no fornecimento de energia elétrica e problemas no abastecimento de água.
As vias inundadas transformaram barcos, botes e motos aquáticas em meios fundamentais para alcançar pessoas isoladas.
Foi nesse cenário que as imagens do goleiro deixaram de mostrar defesas no campo para registrar operações em ruas que haviam se transformado em canais.
Jogadores de Grêmio e Inter também participaram das ações
Caíque não foi o único atleta envolvido nas mobilizações.
O então atacante Diego Costa, também jogador do Grêmio, participou de ações em Eldorado do Sul, município da Região Metropolitana fortemente atingido pelas águas.
Segundo relatos divulgados na época, ele colocou quatro motos aquáticas à disposição e também participou do trabalho com voluntários.
Do lado do Internacional, jogadores como Sergio Rochet, Gabriel Mercado, Enner Valencia e Lucas Alario apareceram em iniciativas de apoio, com distribuição de alimentos e donativos.
Outros atletas também participaram de resgates ao longo daqueles dias.
A suspensão da rotina esportiva acabou aproximando jogadores de operações que normalmente não fariam parte do cotidiano de um clube profissional.

Enchentes atingiram 478 municípios do Rio Grande do Sul
Os números disponíveis quando Caíque entrou na água ainda estavam longe de representar a dimensão que o desastre alcançaria.
No dia 6 de maio de 2024, a Defesa Civil registrava 83 mortes, 111 desaparecidos e 291 feridos.
Os balanços continuaram crescendo nas semanas seguintes.
Em agosto daquele ano, dados da Defesa Civil apontavam 478 municípios afetados, aproximadamente 2,4 milhões de pessoas atingidas, 806 feridos, 183 mortes confirmadas e 28 desaparecidos.
O levantamento evidencia a escala do cenário no qual milhares de voluntários passaram a atuar ao lado das equipes oficiais de salvamento.
Somente até 13 de maio, forças estaduais já contabilizavam mais de 76 mil pessoas resgatadas, além de milhares de animais retirados de áreas atingidas.
Caíque deixou o Grêmio no ano seguinte
A passagem do goleiro pelo clube gaúcho continuou até janeiro de 2025.
Naquele mês, o Grêmio confirmou a transferência de Caíque para o Criciúma, mantendo 30% dos direitos econômicos do jogador.
O goleiro havia chegado a Porto Alegre em 2023 depois de defender o Ypiranga, de Erechim.
Pelo Criciúma, disputou parte da temporada de 2025 antes de deixar o clube em agosto para seguir a carreira no futebol do Vietnã.
A transferência foi confirmada pelo executivo de futebol da equipe catarinense.
A mudança de clube, porém, não altera o contexto das imagens que circularam durante a enchente.
Naqueles três dias de maio de 2024, Caíque ainda era goleiro do Grêmio, mas sua rotina estava distante do futebol.
Sem treinamentos no campo, ele passava boa parte do dia sobre a água, deslocando-se entre imóveis inundados e ajudando pessoas que aguardavam uma maneira de deixar regiões isoladas.
Ao recordar a experiência, o próprio jogador disse que não agiu pensando em sua condição de atleta, mas como alguém que poderia ajudar naquele momento.
Depois de passar dias saindo de casa ainda antes do amanhecer e retornando perto da meia-noite, as imagens que ficaram daquela semana mostram um goleiro usando cordas, barcos e um jet ski em uma cidade onde, por alguns dias, chegar até a porta de uma casa já exigia atravessar a água.


