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Engenheiros querem rasgar a África com um canal gigante para levar água do segundo maior rio do mundo até um lago moribundo na beira do deserto do Saara que já perdeu 90% da sua água

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 08/06/2026 às 17:18
Atualizado em 08/06/2026 às 17:23
Assista o vídeoO canal gigante Transaqua levaria água do rio Congo ao Lago Chade, no Sahel, para reerguer um lago que perdeu 90%, mas segue parado e custaria US$ 50 bilhões.
O canal gigante Transaqua levaria água do rio Congo ao Lago Chade, no Sahel, para reerguer um lago que perdeu 90%, mas segue parado e custaria US$ 50 bilhões.
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Batizado de Transaqua e concebido na Itália nos anos 1980, o canal gigante custaria cerca de 50 bilhões de dólares e tem o apoio de oito países e da China. Mesmo assim, segue no papel há décadas, barrado pela oposição da República Democrática do Congo e por alertas ambientais.

Um canal gigante capaz de atravessar o coração da África para levar água do rio Congo até o Lago Chade voltou ao centro do debate sobre o futuro do Sahel. A ideia, chamada de Transaqua, prevê uma transposição de cerca de 2.400 quilômetros para reabastecer um lago que já perdeu em torno de 90% da sua superfície. Concebido na Itália nos anos 1980 e reaquecido na década de 2010 com apoio chinês, o projeto é orçado em cerca de 50 bilhões de dólares, perto de 258 bilhões de reais pela cotação atual.

O problema que o canal pretende resolver é dramático e tem nome e endereço. O Lago Chade, na borda do deserto do Saara, encolheu de cerca de 25.000 quilômetros quadrados em 1963 para algo em torno de 2.000 nas últimas décadas, e cerca de 40 milhões de pessoas dependem dele para pescar, plantar e criar animais. Com a água recuando, comunidades inteiras entraram em colapso, o que ajudou a abrir espaço para grupos armados na região.

A morte lenta do Lago Chade

O canal gigante Transaqua levaria água do rio Congo ao Lago Chade, no Sahel, para reerguer um lago que perdeu 90%, mas segue parado e custaria US$ 50 bilhões.
O Lago Chade já foi um dos maiores lagos do mundo, e hoje é uma sombra do que era. 

Situado no ponto de encontro entre Chade, Camarões, Nigéria e Níger, ele cobria cerca de 25.000 quilômetros quadrados em 1963 e murchou para a casa dos 2.000 nas décadas seguintes, com algumas medições apontando até 1.350.

A perda gira em torno de 90% da superfície, puxada por mudança no clima, chuvas mais escassas e aumento do uso da água.

O que sobrou se dividiu em duas porções, ligadas por uma faixa de vegetação.

Para a população local, a água que recuou levou junto um modo de vida. 

Cerca de 40 milhões de pessoas vivem ao redor do Lago Chade, a maioria dependendo da pesca e da agricultura de subsistência, e os rios Chari e Logone respondem por cerca de 95% da água que chega ao lago.

Quando as margens secaram, vieram a migração forçada e um vácuo que grupos como o Boko Haram e a facção do Estado Islâmico na África Ocidental aproveitaram para se impor.

A crise da água não criou a insurgência, mas a alimentou, num Sahel onde, em outubro de 2025, perto de 4 milhões de pessoas estavam deslocadas por conflito, fome e clima.

É justamente esse colapso que um canal gigante pretende reverter.

O canal gigante que ligaria o Congo ao Chade

O canal gigante Transaqua levaria água do rio Congo ao Lago Chade, no Sahel, para reerguer um lago que perdeu 90%, mas segue parado e custaria US$ 50 bilhões.
A resposta que os engenheiros propõem é tão ambiciosa quanto controversa. 

O canal gigante partiria de afluentes da margem direita do rio Congo, frequentemente apontado como o segundo maior do mundo em volume de água, atrás apenas do Amazonas, com vazão média em torno de 41 mil metros cúbicos por segundo.

A ideia, na verdade, é antiga, pois encher o Chade com água do Congo já era cogitado em 1929, mas foi a empresa italiana Bonifica que, nos anos 1980, desenhou o projeto batizado de Transaqua.

O traçado é o que dá a real dimensão da empreitada. 

Seriam cerca de 2.400 quilômetros de canal, alimentados por barragens, levando uma fração da vazão do Congo, da ordem de poucos por cento, para o norte, atravessando a República Centro-Africana até chegar ao rio Chari e ao Lago Chade.

O projeto ganhou novo fôlego na década de 2010, quando a estatal chinesa PowerChina assinou um memorando com a Comissão da Bacia do Lago Chade em 2016 e, em 2018, a comissão endossou o Transaqua e firmou acordo com a Itália.

Oito países apoiam a iniciativa, com a Nigéria, sob o ex-presidente Muhammadu Buhari, à frente da articulação.

A promessa de um corredor econômico no meio da África

Para seus defensores, o canal gigante seria muito mais do que um cano de água. 

A proposta vende a obra como uma espinha dorsal de desenvolvimento que cortaria o continente, com dezenas de milhares de quilômetros quadrados de lavouras irrigadas, geração de energia hidrelétrica em larga escala e uma hidrovia navegável ligando países sem litoral da África Central ao Atlântico.

Pela lógica dos idealizadores, cada barragem e cada trecho do canal cumpririam várias funções ao mesmo tempo.

O discurso também é de segurança, não só de economia. 

Os apoiadores argumentam que os empregos gerados pela construção e a volta da água ajudariam a estabilizar a bacia do Lago Chade, esvaziando o terreno do qual grupos armados se aproveitam.

Não por acaso, entusiastas comparam a ambição do Transaqua à de obras como os canais de Suez e do Panamá.

Vale lembrar, porém, que todos esses números e ganhos são projeções de um projeto que ainda não saiu da prancheta.

Por que o canal gigante ainda não saiu do papel

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Apesar do apoio político, o Transaqua esbarra em obstáculos que duram décadas. 

O ponto mais sensível é a República Democrática do Congo, que nunca concordou com o plano.

Seria em seu território, e no da República Centro-Africana, que boa parte das obras aconteceria, e o país alega ter sido deixado de fora das decisões, ao mesmo tempo em que três quartos da sua própria população não têm acesso a água potável.

Tirar água da bacia do Congo para abastecer o vizinho do norte, nesse cenário, é uma conversa espinhosa.

Aos custos e à geopolítica somam-se os alertas ambientais e as alternativas mais baratas. 

Parte da comunidade científica francesa sustenta que desviar mesmo uma fração do Congo pode causar danos irreversíveis a um dos ecossistemas mais biodiversos do planeta.

Diante do preço de 50 bilhões de dólares, engenheiros voltaram à prancheta e estudaram versões mais enxutas, como usar o afluente Ubangi com bombeamento, ou captar água por gravidade no rio Kotto, em ponto alto da República Centro-Africana, a custos estimados em uma fração do projeto original.

Nenhuma delas, porém, saiu do papel, porque, no instante em que a água cruza fronteiras, a engenharia vira um problema de soberania e de governo.

O canal gigante para salvar o Lago Chade resume o tamanho do dilema do Sahel. 

De um lado, há uma crise real de água, fome e segurança que empurra milhões de pessoas, e uma solução de engenharia que promete reordenar o mapa de uma região inteira.

De outro, há um custo bilionário, um vizinho que se sente passado para trás, riscos ambientais e décadas de reuniões sem obra.

O Transaqua é, ao mesmo tempo, uma das ideias mais audaciosas já pensadas para a África e uma das mais difíceis de tirar do papel.

E você, acha que um canal gigante como o Transaqua deveria ser construído para reerguer o Lago Chade? Vale o custo e o risco de desviar água do rio Congo, mesmo com a resistência da República Democrática do Congo e de ambientalistas, ou seria melhor investir em outras soluções para o Sahel? Deixe sua opinião nos comentários, com respeito às diferentes opiniões, e compartilhe esta matéria com quem se interessa por geopolítica e grandes obras.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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