Engenheiro civil transforma plástico irreciclável em RESIN8, processa 610 toneladas por mês e constrói casas com blocos 15% mais leves na África do Sul.
Por décadas, Abraham Avenant trabalhou com o que a maioria dos engenheiros civis trabalha: concreto, fundações e projetos de infraestrutura. Com mais de 25 anos de experiência no setor de construção civil na África do Sul, ele conhecia cada detalhe dos materiais que entram numa obra — e também sabia o que sobrava depois: toneladas de plástico irreciclável que não tinham destino e inevitavelmente terminavam em aterros ou nos rios da Cidade do Cabo. Foi essa bagagem técnica que fez a diferença quando ele se deparou com a tecnologia desenvolvida pela CRDC Global, empresa fundada em 2018 na Costa Rica por Donald Thomson, incorporador que começou transformando resíduos plásticos em materiais de construção para revitalizar comunidades locais. Avenant não viu ali uma causa ambiental. Viu uma solução de engenharia.
“Quando entendi o processo, ficou claro que isso não era uma ideia romântica sobre reciclagem”, explicaria mais tarde. “Era uma resposta concreta para dois problemas que eu via todos os dias: plástico que não tem destino e falta de materiais acessíveis para construção.”
Em 2019, ele assumiu a operação da CRDC na África do Sul como CEO e começou a estruturar a primeira planta industrial do tipo no continente africano.
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O que é o RESIN8: agregado sustentável que substitui brita e areia no concreto
O nome pode soar técnico, mas o princípio é direto: qualquer tipo de plástico — sujo, misturado ou contaminado, aquele que as recicladoras convencionais recusam — entra na máquina e sai como RESIN8, um eco-agregado patenteado que substitui parte da brita e da areia no concreto convencional.
O processo começa pela granulação do plástico. O material é triturado, misturado com aditivos minerais e extrudado até virar um agregado híbrido de polímero-mineral com granulometria de 6,5 mm. Esse agregado é então incorporado ao concreto de fabricantes parceiros, que o utilizam para produzir blocos estruturais, pavers, meio-fios, tubulações e placas.
Desempenho técnico comprovado
O resultado é mensurável:
- Blocos até 15% mais leves que o concreto convencional
- Melhor desempenho térmico
- Conformidade com normas de construção sul-africanas
Testes realizados nas universidades de Stellenbosch e Cyril Attwell, além de certificação no padrão internacional ASTM, confirmaram a viabilidade estrutural do material.

Mas o ponto central do RESIN8 é econômico: o sistema aceita exatamente os plásticos que não possuem valor comercial — embalagens multilaminadas, sacolas, isopor, canudos e embalagens de salgadinhos. Ao criar demanda para esse resíduo, o CRDC cria um mercado onde antes não existia nenhum.
“Se 2,8% de todo o concreto produzido no mundo incorporasse RESIN8, o problema global da poluição plástica estaria resolvido”, afirmou Avenant à Concrete Trends.
Fábrica de Blackheath processa 610 toneladas de plástico por mês
A planta da CRDC está localizada em Blackheath, área industrial da Cidade do Cabo. Operando em plena capacidade, processa 610 toneladas de plástico por mês e produz 725 toneladas de RESIN8.
Essa matéria-prima segue para fabricantes de blocos que atendem projetos públicos e privados de habitação social e infraestrutura urbana.
“The Bag That Builds”: 500 coletores transformando lixo em material de construção
Para alimentar a produção, o CRDC criou o programa comunitário “The Bag That Builds” (“A Sacola que Constrói”).

O modelo é simples:
- Sacolas reutilizáveis são distribuídas para escolas e comunidades
- Qualquer plástico pode ser depositado
- Não é necessário separar
- A sacola inteira entra no processo de conversão
Esse sistema estruturou uma rede com mais de 500 coletores parceiros, que recebem pagamento pelo material entregue.
Antes, embalagens de salgadinhos e copos descartáveis eram ignorados porque não tinham valor comercial. Com o programa, passaram a valer dinheiro.
Até a publicação da reportagem, mais de 85 toneladas de plástico haviam sido coletadas — o equivalente a 53.000 sacolas em 18 pontos da Península do Cabo.
Khayelitsha: onde o plástico reciclado vira parede de casa
Khayelitsha, maior assentamento informal da Província do Cabo, abriga cerca de 400.000 moradores e enfrenta déficit habitacional crônico.
A construtora Bitprop incorporou o RESIN8 em 2022. Atualmente, 70% das casas construídas utilizam blocos com plástico reciclado. Cada residência de 108 m² absorve 6,2 toneladas de plástico.
Cada unidade exige 6.100 blocos. Um único jogo dos Springboks pode gerar plástico suficiente para produzir aproximadamente 17.000 blocos.
A parceria com o rugby sul-africano coletou, em três eventos internacionais de 2023:
- 1.862 sacolas
- 65.000 blocos produzidos
- 15 casas construídas em 2024
- 79 empregos diretos gerados
A iniciativa recebeu o Climate Action Award do Comitê Olímpico Internacional.
Argumento financeiro convenceu o poder público
O bloco com RESIN8 pode custar marginalmente mais que o convencional. Porém:
- O impacto representa menos de 0,2% do orçamento de habitação social
- Cada tonelada de plástico desviada reduz custos de aterro
“Pode custar um pouco mais na infraestrutura, mas você economiza significativamente no orçamento de resíduos”, afirmou Avenant à CBN.
A Cidade do Cabo respondeu incorporando cláusula de infraestrutura verde em seus regulamentos.
Projetos já executados:
- BRT AZ Berman: 71 toneladas desviadas
- Economia de 284 toneladas de agregado natural
- V&A Waterfront: primeira laje armada do mundo com RESIN8
- 2,4 toneladas de plástico desviadas (1,2 milhão de embalagens)
Escala global: meta de 20 fábricas e expansão internacional
A planta de Blackheath foi desenhada para ser replicável. Meta do CRDC:
- 20 plantas em cinco anos
- 800 toneladas processadas por mês por unidade
- Expansão para Gauteng e Durban
- Operações piloto na Costa Rica, EUA e Reino Unido
A África do Sul produz 2,4 milhões de toneladas de plástico por ano, com apenas 14% recicladas. O restante vai para aterros, rios ou praias.
Economia circular aplicada à construção civil
Avenant passou de engenheiro que utilizava concreto tradicional para pioneiro em concreto sustentável baseado em resíduos.
O plástico descartado em uma escola de Khayelitsha esta semana já tem destino: a parede de uma casa que ainda será construída.
É engenharia aplicada à economia circular, à habitação social e à redução da poluição plástica — simultaneamente.


Es posible todo cuando uno se lo propone. me gustaría saber los costos de implementar una planta similar en sudamérica, especialmente en Perú.
Great idea! Interested in partnership to aquire the plant in Nigeria.