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Endividamento explode: supermercados já parcelam arroz e feijão no cartão, famílias enterram salário em apostas e crédito consignado e agora compram comida como se fosse geladeira para conseguir pôr arroz na mesa no RS

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 23/12/2025 às 21:44
Supermercados parcelam arroz e feijão em meio ao endividamento crescente. Crédito consignado e bets drenam renda e famílias recorrem ao parcelamento.
Supermercados parcelam arroz e feijão em meio ao endividamento crescente. Crédito consignado e bets drenam renda e famílias recorrem ao parcelamento.
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Com o orçamento estourado em 2025, redes gaúchas já parcelam arroz, feijão e compra de mês no cartão, enquanto trabalhadores enterram salário em bets e crédito consignado do FGTS. Especialistas alertam que famílias agora parcelam comida como se fosse geladeira e vivem em verdadeira bola de neve mensal no orçamento.

Desde o início de 2025, supermercados do Rio Grande do Sul passaram a autorizar que clientes parcelam no cartão até a compra de arroz, feijão e outros itens básicos, um retrato extremo do endividamento que se arrasta ao longo do ano.

Em entrevista concedida no fim de 2025, o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados, Lindo Honor Peruso Júnior, afirmou que a prática, antes restrita a geladeiras, fogões e itens de bazar, hoje é usada como tentativa de evitar falta de comida na mesa de famílias afogadas em bets e crédito consignado do FGTS.

Quando o arroz e o feijão entram no crediário

Parcelar compras em supermercado não é exatamente novidade, mas parcelar comida sempre foi a exceção, não a regra.

Tradicionalmente, o crediário ficava reservado a produtos duráveis, como eletrodomésticos e utensílios de bazar.

Segundo Lindo Honor Peruso Júnior, o movimento atual começou ainda no ano passado e se acelerou em 2025.

Em algumas redes, a fatia de vendas que os clientes parcelam subiu de 3% para 8% em apenas um ano, o que mostra que o endividamento das famílias não é pontual, é crescente e persistente.

O presidente da entidade reconhece que ainda não é a maioria dos supermercados que parcelam alimentos, mas “muitas redes já estão fazendo” para não perder clientes.

A lógica é simples e dura: se o concorrente autoriza que os consumidores parcelam o carrinho de compras, quem não aderir arrisca ver o faturamento despencar.

O problema é que, diferente de uma geladeira, que você compra uma vez e usa por anos, arroz e feijão voltam para a lista de compras todo mês.

Quando famílias parcelam hoje o que vão comer nesta semana, empurram prestações para frente sem deixar de gerar novas despesas de alimentação no mês seguinte. O resultado é a famosa “bola de neve”.

Bets e consignado: salário some antes de chegar ao caixa

Nos bastidores desse fenômeno está uma combinação explosiva.

De um lado, o crédito consignado atrelado ao Fundo de Garantia (FGTS), que permite que trabalhadores antecipem parte dessa reserva pagando juros que, segundo o dirigente, chegam a até 15% ao mês.

Do outro lado, o avanço das casas de aposta online. O relato do setor é que muitos consumidores entram no consignado, pegam dinheiro caro, jogam em bets, perdem e ficam com a dívida.

A mensalidade do empréstimo é descontada direto na fonte, antes que o salário chegue às mãos do trabalhador, o que reduz o dinheiro disponível para supermercado, aluguel e contas básicas.

Lindo Honor Peruso Júnior relata um caso concreto dentro da própria rede que comanda. Cerca de 31% dos funcionários já fizeram empréstimo usando o crédito consignado do FGTS, um índice que ele acredita refletir a média de outros supermercados do país.

Esse caminho tem um efeito colateral grave: o trabalhador consome o fundo que deveria servir de proteção na demissão ou na aposentadoria.

Quando perde o emprego, já não encontra o dinheiro guardado, porque parte virou empréstimo e juros.

Para completar, muitos ainda recorrem a familiares, amigos e conhecidos, abrindo novas frentes de dívida informal.

Bets tomam conta da tela e disputam o dinheiro do mercado

O presidente da Agas descreve o que vê como uma “epidemia nacional” das bets em 2025. Ele conta que chegou a assistir a jogo recente do Campeonato Brasileiro em que contou sete casas de aposta diferentes anunciando durante a mesma partida, ocupando praticamente todo o espaço de publicidade.

Segundo ele, a lucratividade do setor é tão alta que o faturamento das bets já se aproxima de 20% a 25% do faturamento total dos supermercados, de acordo com números citados pela Associação Brasileira de Supermercados.

Isso significa que uma fatia relevante do dinheiro que antes pagava supermercado, gás e aluguel está sendo drenada para a promessa de “ganhos fáceis” nas apostas esportivas.

Empresários de outros ramos relatam o mesmo cenário. Um dono de bar em Porto Alegre, por exemplo, diz enfrentar problemas sérios de endividamento com bets entre funcionários e clientes, que chegam ao ponto de comprometer o faturamento do negócio.

A queixa se repete em diferentes setores, reforçando a percepção de que a renda mensal da população está sendo sugada por esse tipo de jogo.

A avaliação do bloco empresarial que reúne supermercados e outras entidades é dura: a combinação de crédito fácil com propaganda massiva de apostas está adoecendo financeiramente uma parcela importante da população e pressionando o consumo de itens essenciais.

Supermercado vira socorro financeiro e perde margem

Na prática, quando os supermercados passam a permitir que clientes parcelam o básico da despensa, acabam assumindo parte do papel de banco informal.

O consumidor sem limite em outros canais enxerga no varejo a última chance de encher a geladeira, mesmo que isso signifique empilhar prestações.

O dirigente explica que vender parcelado custa mais caro para o supermercado do que vender à vista, porque as taxas de cartão são maiores. Isso corrói a margem de lucro, justamente em um momento em que o setor já sente o impacto do endividamento geral sobre o caixa das lojas.

Ele conta que, no seu grupo, apenas cerca de 20% das vendas ainda são feitas em dinheiro, com o cheque praticamente desaparecido.

O restante passa por meios eletrônicos, principalmente cartão de crédito e débito.

Ao mesmo tempo, houve queda tanto no ticket médio quanto no número de vezes em que o consumidor vai ao supermercado, o que pressiona ainda mais o faturamento.

Mesmo assim, o varejo continua liberando que os clientes parcelam a compra de alimentos.

A leitura do setor é que, se cortar de uma vez essa opção, muitas famílias simplesmente não conseguirão manter o mesmo nível mínimo de abastecimento, o que tornaria o cenário social ainda mais delicado e reduziria as vendas de forma brusca.

Classe C e D são as que mais sentem a pancada

O efeito do endividamento e do parcelamento de comida atinge o estado inteiro, mas não de forma igual.

O presidente da Agas afirma que o problema pega todo o Rio Grande do Sul, porém com impacto mais visível entre as classes C e D, justamente o público que historicamente mais recorre ao parcelamento para comprar bens duráveis.

Agora, a novidade é que esse mesmo público passou a parcelar alimentos básicos. Famílias que antes dividiam em dez vezes uma geladeira ou um fogão, hoje parcelam o carrinho com arroz, feijão e mistura para conseguir fechar as contas.

A renda é menor, o custo de vida continua alto, e as apostas aparecem como uma tentativa de “acender na vida” que, na prática, termina em mais dívidas.

O uso intenso do celular agrava o quadro. Antes, joguinhos de telefone consumiam principalmente tempo; agora, muitos deles envolvem dinheiro real.

Pessoas que começam ganhando pequenos prêmios são estimuladas a aumentar o valor apostado e acabam perdendo economias inteiras, o que empurra a ida ao supermercado diretamente para o limite do cartão.

Pressão por mudanças e medo do que vem em 2025

Diante desse quadro, entidades empresariais gaúchas se articulam em um bloco para pressionar por mudanças.

A Agas apoia uma iniciativa liderada pelo deputado estadual Thiago Simon que busca restringir a propaganda de casas de apostas, especialmente no futebol, principal vitrine desses anúncios. A avaliação é que a publicidade excessiva acelera o ciclo de endividamento.

Para os supermercadistas, parcelar arroz e feijão virou um termômetro de emergência social.

Se já está difícil garantir o básico em dezembro de 2025, a dúvida é como as famílias vão atravessar 2026 com parte do salário comprometida em consignados e apostas e, ainda por cima, com a compra de comida sendo dividida em várias prestações.

Enquanto isso, o varejo segue em uma encruzilhada: se não permite que os clientes parcelam a compra do mês, perde faturamento e empurra famílias para o desabastecimento; se mantém o parcelamento, assume o risco de queda na margem e convive com uma clientela cada vez mais endividada.

O recado do setor é claro: o modelo atual não se sustenta por muito tempo sem uma reação de governo, empresas e sociedade.

E na sua casa ou entre seus amigos, quantas pessoas você já vê que parcelam supermercado para conseguir chegar ao fim do mês?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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