A Ambipar, gigante do setor ambiental, enfrenta suspeitas de irregularidades após o desaparecimento de bilhões de reais do caixa, mergulhando em uma crise que abalou o mercado e colocou em xeque sua governança corporativa.
A Ambipar, conhecida no setor de gestão ambiental por sua expansão global e presença em dezenas de países, tornou-se o centro de um dos maiores escândalos corporativos recentes no Brasil.
A empresa informou ter R$ 4,7 bilhões a menos em caixa do que o registrado anteriormente, o que levou ao pedido de recuperação judicial em 20 de outubro, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
O caso levantou suspeitas de irregularidades financeiras e colocou em dúvida a transparência das operações do grupo.
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Aquisições e crescimento acelerado
Nas últimas décadas, a Ambipar construiu uma reputação de empresa inovadora, com atuação em 40 países e cerca de 80 aquisições de companhias ligadas ao setor ambiental.
O modelo de crescimento acelerado, no entanto, passou a ser questionado por analistas a partir de 2020.
Segundo especialistas do mercado financeiro, o grupo comprou negócios com dificuldades operacionais e financeiras, o que elevou o endividamento e reduziu a capacidade de controle sobre as novas operações.

Esses fatores, apontam os analistas, contribuíram para o aumento da alavancagem e a perda gradual de confiança dos investidores.
A deterioração financeira se acentuou em setembro de 2025, quando a empresa obteve na Justiça uma medida cautelar que impediu credores de cobrarem imediatamente suas dívidas.
A decisão evitou o chamado cross default — cláusula que antecipa o vencimento de todos os contratos de dívida quando um deles é descumprido —, mas não conteve a reação negativa do mercado.
As ações chegaram a registrar queda acumulada de mais de 90% no período de 30 dias, segundo dados da B3.
Emissão de títulos e derivativos cambiais
Parte da crise está relacionada à emissão de green bonds, títulos de dívida voltados a projetos sustentáveis.
Em 2024, a Ambipar levantou US$ 550 milhões, com vencimento em 2031, e recorreu a derivativos de swap cambial para se proteger da variação do dólar.
De acordo com especialistas consultados, esse tipo de contrato é usado para “travar” o valor da moeda, mas pode se tornar arriscado caso haja desequilíbrio nas garantias ou nos aditivos contratuais.
Em janeiro de 2025, a empresa fez uma nova emissão de US$ 493 milhões, destinando parte ao pagamento do título anterior e parte a novos projetos.
Contudo, em agosto de 2025, um banco credor exigiu margem adicional de R$ 60 milhões como garantia, diante da instabilidade nos preços dos títulos e da desvalorização cambial.
Segundo fontes do mercado, a Ambipar não efetuou o depósito.
O contrato previa que, em caso de inadimplência, a operação poderia ser antecipada — o que aumentou a pressão sobre as finanças da companhia e despertou dúvidas sobre sua capacidade de pagamento.
Endividamento bilionário e reação dos credores
Relatórios de mercado indicam que a dívida da Ambipar, que era estimada em cerca de R$ 2 bilhões em 2020, teria ultrapassado R$ 11 bilhões em 2025.
Essa elevação, de acordo com analistas, decorreu do ritmo intenso de aquisições e do uso de instrumentos financeiros complexos.
Fontes do setor afirmam que a tutela cautelar concedida pela Justiça foi essencial para evitar uma corrida judicial dos credores.
Caso contrário, haveria risco de execução simultânea de contratos e bloqueio de ativos, o que poderia interromper parte das operações do grupo.
Especialistas também apontam que, embora cláusulas contratuais de garantia sejam comuns nesse tipo de operação, o alto volume de compromissos interligados aumentou a vulnerabilidade da empresa a oscilações cambiais e de crédito.
Queda das ações e mudanças no comando
O impacto da crise foi imediato na bolsa.
Em 1º de outubro, o papel da Ambipar abriu a R$ 8,72 e fechou a R$ 7,14.
Cinco dias depois, no dia 6, terminou o pregão a R$ 0,91, segundo dados da B3.
Durante esse período, o mercado acompanhou mudanças importantes no alto escalão.
João Arruda, ex-executivo do Bank of America, assumiu a diretoria financeira em agosto de 2024 e deixou o cargo uma semana antes do pedido de tutela cautelar.
Para analistas de governança, a saída de dirigentes em meio a crises financeiras é um indício de divergências internas ou de conhecimento prévio sobre problemas estruturais.
O fundador Tércio Borlenghi Júnior, que começou a empresa aos 25 anos e se tornou um dos nomes mais conhecidos do setor ambiental, viu o valor de mercado da companhia despencar.
Fontes próximas à gestão relatam que decisões estratégicas tomadas nos últimos anos, combinadas a fatores cambiais e de crédito, contribuíram para a crise de liquidez.
Investigações e possíveis desdobramentos

Partes do caso já estão sob investigação policial, segundo apuração confirmada por fontes ligadas à empresa.
Especialistas em direito empresarial preveem uma fase de litígios prolongados, envolvendo credores, ex-executivos e instituições financeiras.
Ainda não há conclusão sobre a origem exata do desaparecimento do caixa.
Analistas apontam que falhas de gestão, cálculos incorretos de risco e operações financeiras mal estruturadas podem ter contribuído para o resultado.
Até o momento, não há provas de que o episódio envolva fraude deliberada, e as investigações buscam esclarecer essa possibilidade.
Posição oficial da Ambipar
Em nota, a Ambipar afirmou que o pedido de recuperação judicial tem o objetivo de garantir a continuidade das operações e preservar empregos.
A empresa explicou que a opção pela justiça do Rio de Janeiro se deve ao fato de que suas unidades no estado concentram o maior volume de faturamento, contratos e receitas do grupo.
A companhia também declarou que os aditivos contratuais aplicados por instituições financeiras transformaram operações originalmente voltadas à proteção cambial em instrumentos de caráter especulativo, o que teria amplificado o risco financeiro.
Segundo a nota, a Ambipar “segue operando normalmente” e está colaborando com as autoridades competentes.
Com as investigações em andamento e a confiança dos investidores em queda, o mercado ainda tenta entender quem será responsabilizado pelo sumiço de R$ 4,7 bilhões e quais decisões permitiram que o caixa da Ambipar chegasse a esse ponto.

