1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Com apenas 5 dias de chuva por ano e consumo de água 3 vezes acima da média mundial, os Emirados Árabes contrataram cientistas americanos por US$ 400 mil para estudar a viabilidade de construir uma montanha artificial no deserto capaz de redesenhar o clima do país e forçar precipitação onde nunca choveu
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Com apenas 5 dias de chuva por ano e consumo de água 3 vezes acima da média mundial, os Emirados Árabes contrataram cientistas americanos por US$ 400 mil para estudar a viabilidade de construir uma montanha artificial no deserto capaz de redesenhar o clima do país e forçar precipitação onde nunca choveu

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 21/02/2026 às 16:55
Atualizado em 21/02/2026 às 16:58
Assista o vídeoCom apenas 5 dias de chuva por ano e consumo de água 3 vezes acima da média mundial, os Emirados Árabes contrataram cientistas americanos por US$ 400 mil para estudar a viabilidade de construir uma montanha artificial no deserto capaz de redesenhar o clima do país e forçar precipitação onde nunca choveu
Com apenas 5 dias de chuva por ano e consumo de água 3 vezes acima da média mundial, os Emirados Árabes contrataram cientistas americanos por US$ 400 mil para estudar a viabilidade de construir uma montanha artificial no deserto capaz de redesenhar o clima do país e forçar precipitação onde nunca choveu
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
11 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Dubai enfrenta até 45 °C, zero milímetros de chuva no verão e depende de dessalinização; Emirados planejam “criar montanha” para provocar chuva artificial.

Em Dubai, durante os meses de verão, a precipitação média é de zero milímetros. Não quase zero — zero. O termômetro chega a 45 graus Celsius, o vento carrega areia, e a água que abastece uma das cidades mais densamente construídas do planeta vem quase inteiramente de usinas de dessalinização que transformam água do mar em água potável a um custo energético enorme. Os Emirados Árabes Unidos têm em média apenas cinco dias de chuva por ano.

Esse cenário levou o governo dos EAU a uma conclusão que parece tirada de um filme de ficção científica: se não há montanhas para forçar a chuva, talvez valha a pena construir uma.

O problema que nenhuma engenharia convencional resolve

A crise hídrica dos Emirados não é nova, mas está se agravando. Segundo dados do Al Jazeera Centre for Studies, a demanda por água na região cresceu 140% enquanto os recursos naturais continuam diminuindo por causa de secas, baixa pluviosidade e mudanças climáticas.

O consumo médio por habitante nos EAU chega a 550 litros por dia — quase o triplo da média internacional de 170 a 300 litros diários, segundo a Autoridade Federal de Água e Eletricidade do país.

Cloud seedin – como funciona?

Para compensar a falta de chuva, o governo já opera desde o final dos anos 1990 um dos programas de cloud seeding mais avançados do mundo. A técnica consiste em injetar partículas de iodeto de prata ou cloreto de potássio em nuvens para induzir precipitação.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Em 2010, o programa produziu tempestades artificiais nos desertos de Dubai e Abu Dhabi com um investimento de US$ 11 milhões. Em 2015, foram realizadas 186 missões de cloud seeding ao custo de US$ 558 mil. Um estudo científico publicado em 2021 concluiu que o programa aumentou em média 23% a pluviosidade anual na área-alvo, com as tempestades tratadas registrando crescimento de 159% no volume total de chuva.

Mas o cloud seeding tem um limite físico fundamental: só funciona quando há nuvens. E em boa parte do ano, sobre o deserto dos Emirados, simplesmente não há nuvens para semear.

A lógica por trás de construir uma montanha do zero

A ideia de uma montanha artificial não é tão absurda do ponto de vista científico quanto parece à primeira vista.

O fenômeno que ela pretende replicar tem nome técnico: levantamento orográfico. Quando ventos carregados de umidade encontram um obstáculo montanhoso, são forçados a subir. Ao subir, o ar esfria. Ar frio retém menos umidade do que ar quente. O resultado é a formação de nuvens e, eventualmente, chuva.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

“As cadeias montanhosas elevam as massas de ar para a atmosfera por levantamento orográfico”, explicou Hans Ahlness, vice-presidente de operações da Weather Modification Inc., empresa que já realizou operações de cloud seeding nos EAU.

“É como uma criança em um skate subindo um meio-fio: o ar sobe rapidamente. E quando o ar e as nuvens são forçados a altitudes maiores, há mais chance de precipitação — alvos ideais para cloud seeding.”

Em outras palavras: uma montanha artificial não apenas criaria chuva diretamente. Ela criaria as condições para que o cloud seeding existente se tornasse muito mais eficiente, operando durante muito mais dias no ano.

US$ 400 mil para modelar o impossível

Em fevereiro de 2015, o governo dos EAU contratou a University Corporation for Atmospheric Research (UCAR) e o National Center for Atmospheric Research (NCAR) — duas das instituições científicas mais respeitadas dos Estados Unidos na área de meteorologia — para conduzir um estudo de viabilidade detalhado. O contrato foi de US$ 400 mil para a primeira fase de modelagem computacional.

O pesquisador-chefe Roelof Bruintjes, do NCAR, descreveu o escopo do trabalho: “O que estamos avaliando é basicamente os efeitos no clima a partir do tipo de montanha, de quão alta ela deve ser e como as encostas devem ser configuradas.”

A equipe utilizou modelos tridimensionais para simular diferentes alturas, larguras e localizações possíveis dentro do território dos EAU, tentando encontrar a combinação que maximizaria a formação de nuvens sem criar efeitos colaterais indesejados.

O principal efeito colateral temido é a chamada sombra de chuva: o lado da montanha voltado para o vento recebe mais precipitação, enquanto o lado oposto tende a ficar ainda mais seco. Em regiões com fronteiras próximas, isso pode gerar disputas internacionais sobre a redistribuição do clima. No caso dos EAU, onde o ar já é extremamente seco, especialistas consideraram improvável que esse efeito fosse significativo.

O desafio de mover 1 trilhão de toneladas

A escala do projeto coloca em perspectiva por que ele continua sendo um estudo e não uma obra. O Monte Fuji, no Japão, pesa aproximadamente 1 trilhão de toneladas.

Construir uma estrutura de dimensões comparáveis exigiria uma quantidade de concreto equivalente a um quarto de toda a produção global anual do material, apenas para a primeira camada. Bruintjes foi direto sobre o obstáculo: “Construir uma montanha não é algo simples.”

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Raymond Pierrehumbert, professor de física da Universidade de Oxford, levantou uma crítica mais fundamental ainda. Para ele, os EAU são um deserto não por falta de montanhas, mas por causa dos padrões globais de circulação atmosférica.

“Qualquer montanha que construam não vai alterar esses padrões”, afirmou. Pierrehumbert acrescentou que mesmo que a estrutura funcionasse como planejado, o cloud seeding adicional que ela possibilitaria teria resultados modestos, já que há poucas evidências de que a técnica produza volumes expressivos de chuva de forma consistente.

O próprio Bruintjes reconheceu a incerteza: “Se o projeto for caro demais para o governo, logicamente não vai avançar. Mas isso dá a eles uma ideia do tipo de alternativas disponíveis para o futuro de longo prazo.”

Entre a ficção científica e a engenharia do clima

O que torna o projeto da montanha artificial dos EAU significativo não é a certeza de que será construída — até agora, não há nenhuma indicação de que a fase de construção foi aprovada.

O que importa é o que ela representa: a primeira vez que um governo nacional encomendou um estudo científico sério para avaliar a viabilidade de alterar a geografia de um país com o objetivo explícito de modificar seu clima.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Não é a primeira tentativa de geoengenharia do planeta. A China lança foguetes com cristais de iodeto de prata em nuvens para provocar precipitação.

A Rússia usou técnicas similares para garantir céu aberto durante desfiles militares. Mas uma montanha permanente, projetada para redirecionar ventos e forçar a formação de nuvens em escala regional, seria algo qualitativamente diferente de qualquer intervenção climática já tentada.

Os EAU já demonstraram disposição para projetos que desafiam a lógica do possível: o Burj Khalifa tem 829 metros de altura e foi construído em solo mole às margens do deserto; as Ilhas Palm são arquipélagos artificiais visíveis do espaço; o país tem uma pista de esqui coberta de neve artificial funcionando em pleno clima tropical.

A montanha da chuva seria mais um capítulo dessa narrativa — ou o primeiro sinal de que a humanidade está começando a tratar o clima não como uma condição dada, mas como uma variável a ser projetada.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fonte
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x