A descoberta de Samabaj, no sul do Lago Atitlán, mostra como o nível da água subiu rapidamente após erupções vulcânicas e deslizamentos por volta de 100 d.C., engolindo um centro ritual usado no período Pré-Clássico tardio e revelando a fragilidade das comunidades antigas diante de eventos geológicos.
Pesquisadores da Universidad Francisco Marroquín mapearam por sonar multibeam o vilarejo maia submerso de Samabaj, conforme apresentação técnica do arqueólogo Roberto T. Giesso, da UFM.
Segundo o relatório do IDAEH apresentado em 2018, o levantamento batimétrico cobriu 70 quilômetros de transectos e identificou 32 plataformas cerimoniais.
Além disso, foram identificadas duas praças principais. As estruturas estão a profundidades que variam de 12 a 20 metros.
Portanto, não é um achado solto. Samabaj é um vilarejo maia submerso em escala completa, com pirâmides truncadas que chegavam a dez metros de altura.
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Conforme o IDAEH, o sítio cobre cerca de um quilômetro quadrado de fundo lacustre — equivalente a 140 campos de futebol.

Como o sonar encontrou o vilarejo maia submerso
A primeira pista veio de pescadores tz’utujil. Por gerações, eles relatavam blocos de pedra incomuns no fundo, percebidos quando a rede prendia em algo duro.
Contudo, os relatos só ganharam atenção científica décadas depois. Em 2017 e 2018, a equipe da UFM levou um sonar multibeam montado num barco.
Conforme o equipamento, centenas de feixes acústicos são enviados para baixo e o tempo de retorno é medido. Assim, é possível criar um mapa tridimensional do leito.
Por cima do sedimento, apareceram alinhamentos retos, ângulos de 90 graus e plataformas regulares.
Dessa forma, formas que não se explicam por erosão natural foram registradas.
Em seguida, mergulhadores desceram para confirmar. Com lanternas e câmeras, registraram blocos talhados, altares e fragmentos cerâmicos.
Segundo o IDAEH, mais de 200 artefatos foram recuperados. Por outro lado, a visibilidade no Atitlán é traiçoeira.
Por causa do sedimento em suspensão, os mergulhadores enxergam menos de cinco metros à frente. Apenas cerca de 10% do sítio foi escavado até hoje.
O que era Samabaj antes de afundar
Conforme a datação por carbono-14, a ocupação maia ocorreu no período Pré-Clássico tardio, entre 300 a.C. e 200 d.C.
Naquela época, Samabaj não estava no fundo de coisa nenhuma. Era uma península, quase uma ilha, na margem sul do lago, conectada à terra por um istmo estreito.
Assim, a função do lugar parece ter sido ritual, não residencial. Além disso, não foram encontradas casas comuns.
Apenas plataformas cerimoniais, altares de pedra e calçadas que ligam um conjunto ao outro foram registradas. Por isso, os arqueólogos sugerem peregrinação para comunidades vizinhas.
Dessa forma, ao afundar, Samabaj não levou consigo uma população inteira — mas levou um espaço sagrado. A perda foi simbólica antes de ser material.
• Período de ocupação: 300 a.C. a 200 d.C. (Pré-Clássico tardio)
• Profundidade atual: 12 a 20 metros, com média perto de 17 metros
• Área mapeada: aproximadamente 1 km² no leito do lago
• Estruturas identificadas: 32 plataformas e duas praças principais
• Altura original das pirâmides: até 10 metros antes do colapso
• Artefatos recuperados pelo IDAEH: mais de 200 itens

A subida rápida do lago e o ano de 100 d.C.
O dado mais impressionante não é a profundidade. É a velocidade do afogamento
Conforme estudos sedimentares publicados pelo Geological Society of America Bulletin, o nível do Atitlán subiu cerca de 17 metros em pouco tempo, perto de 100 d.C.
Segundo o consenso atual, a causa foi uma combinação de erupções vulcânicas próximas. Atitlán, Tolimán e San Pedro são vulcões ativos da bacia.
Além disso, deslizamentos massivos bloquearam saídas naturais de água. Como resultado, o lago, que é fechado e não tem rio que escoe, começou a represar tudo o que entrava.
Em poucas gerações, o nível subiu o equivalente a um prédio de seis andares. Por isso, dizer que o sítio foi “afogado” é mais preciso do que “abandonado”.
Quem morava ou frequentava o local viu a água chegar, recuar e voltar para nunca mais sair.
Samabaj foi construído numa ilha quando o lago estava 17 metros mais baixo.
O nível subiu por vulcanismo e deslizamentos, afogando a comunidade por volta de 100 d.C. Dr. Nicholas Dunning, geoarqueólogo da University of Cincinnati.
Por que o vilarejo maia submerso ainda não foi todo escavado
Apesar do impacto na imprensa internacional, o trabalho de campo praticamente parou após 2021. Contudo, o motivo é prosaico: dinheiro e logística.
Segundo a equipe, a expedição de 2018 custou cerca de US$ 250 mil, financiados pela National Geographic Society e pela Arcus Foundation.
Para mapear o restante com a mesma profundidade técnica, seriam necessários valores muito maiores. Além disso, o IDAEH proíbe remoção de artefatos.
Por isso, cada peça analisada precisa retornar ao fundo, o que torna o trabalho lento e caro. Dessa forma, a maior parte do sítio continua intocada.
Estima-se que nove em cada dez metros quadrados ainda nunca foram escavados em alta resolução.
Outros casos de cidades afogadas no mundo
Sítios pelo mundo seguem padrão parecido. Na Grécia, a cidade de Pavlopetri tem cinco mil anos.
Conforme registros, ela foi mapeada por sonar em 1967 a apenas três metros de profundidade — uma fração do que se vê no Atitlán.
Por outro lado, no México, cenotes como o Sak Be guardam estruturas maias submersas pela elevação do lençol freático.
Segundo o INAH, o turismo subaquático lá já gera cerca de US$ 10 milhões por ano.
Contudo, há casos em que sonar inicial gerou hype e a geologia explicou a maioria. Yonaguni, no Japão, foi tratada por anos como pirâmide submersa.
Posteriormente, cientistas mostraram que a simetria vinha de erosão natural em rocha vulcânica. Por isso, a ressalva continua válida no Atitlán.
Impacto social e o que a Guatemala pode ganhar
Conforme a UNESCO, a bacia do Atitlán é território das comunidades tz’utujil, com cerca de 10 mil indígenas.
Segundo o INGUAT, o turismo do lago recebia 500 mil visitantes por ano antes da pandemia.
Assim, mesmo um pequeno acréscimo via mergulhos guiados significaria emprego adicional para guias locais.
Por consequência, o estudo subaquático ganhou caráter de urgência. Estudos do Geological Society of America Bulletin mostram que o Atitlán continua subindo.
Entre 2008 e 2010, o nível avançou cerca de três metros, alagando casas e calçadões em São Pedro La Laguna.
Será que o Brasil, com tantas cidades à beira de represas, está preparado para algo parecido?
Por outro lado, é preciso ressalva: nem todo arqueólogo concorda que Samabaj era uma “cidade”. Contudo, a perda continua sendo a de um espaço sagrado.
