Com motor flex + elétrico e autonomia de 1.000 km, o Lecar 459 promete agitar o setor. Mas conflito com o MDIC ameaça o futuro da startup brasileira.
Uma startup de automóveis sediada em Betim, Minas Gerais, acaba de dar um passo concreto rumo ao que pode ser um dos lançamentos mais ousados da indústria automotiva brasileira nos últimos anos. A Lecar, fundada por Flávio Figueiredo Assis — empresário que acumulou o apelido de “Elon Musk brasileiro” pela disposição de enfrentar mercados dominados por gigantes —, revelou na última sexta-feira (5) as primeiras fotografias oficiais do protótipo avançado do 459, seu carro de estreia. O modelo promete 1.000 quilômetros de autonomia com um sistema híbrido inédito e já tem data estimada para os primeiros testes em estrada.
Lecar: Um híbrido diferente de tudo que existe no Brasil
Antes de falar sobre design ou preço, vale entender o que torna o Lecar 459 tecnicamente diferente dos híbridos que já circulam no país. A lógica de funcionamento é simples: o motor a combustão não movimenta as rodas em nenhum momento. Sua única função é gerar eletricidade para abastecer a bateria enquanto o carro anda. É o motor elétrico que faz o trabalho de propulsão — do início ao fim da viagem.
Para isso, a montadora reuniu fornecedores nacionais e internacionais em um conjunto equilibrado:
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- Motor 1.0 turbo flex da Horse: 122 cv, atuando como gerador;
- Motor elétrico da Hepu: 165 cv, responsável por mover o veículo;
- Bateria de 18,4 kWh integrada a um gerador da WEG;
- Autonomia total estimada: até 1.000 km por abastecimento.
Esse tipo de arquitetura, chamado de híbrido de autonomia estendida, é relativamente raro no mercado nacional e pode representar um diferencial expressivo para quem faz longos trajetos entre cidades.
Visual revelado: fastback, azul metálico e sem grade
As imagens registradas na Sander Factory, em Betim, mostram um sedã de carroceria fastback em tom azul-claro metálico, com linhas limpas e ausência de grade frontal convencional — característica comum em veículos elétricos e híbridos, que não precisam de grandes entradas de ar para o motor.
Rodas e acabamentos externos já estão em estágio próximo ao do produto final que deverá chegar às concessionárias. O visual é moderno e competitivo para os padrões do segmento. A questão agora é passar da aparência para a comprovação mecânica.
Testes rodoviários
Segundo o Estadão, a previsão é que os testes em estrada sejam iniciados já no próximo mês. Essa etapa é decisiva: enquanto o protótipo visual já transmite maturidade de projeto, as especificações técnicas — incluindo a autonomia de 1.000 km — só poderão ser validadas com o veículo funcionando em condições reais de uso.

Para qualquer montadora nascente, essa fase concentra riscos e oportunidades ao mesmo tempo. Um resultado positivo nos testes pode acelerar o interesse do mercado e de investidores. Uma surpresa negativa, por outro lado, poderia comprometer o cronograma de lançamento.
Incentivos suspensos
Além dos desafios de engenharia, o Lecar enfrenta um obstáculo de natureza política e econômica. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) suspendeu os benefícios fiscais que a empresa pleiteava dentro do programa federal Mover — linha criada para estimular a produção de veículos mais eficientes no Brasil.
O motivo da suspensão foi a ausência de comprovação dos investimentos obrigatórios em pesquisa e desenvolvimento local, exigência prevista nas regras do programa. Sem esses incentivos, o custo de produção do 459 pode encarecer significativamente, impactando diretamente o preço final ao consumidor e a competitividade da marca frente às montadoras já estabelecidas.
Além do Lecar 459, terá picape e uma fábrica de 90 mil m²
O plano da Lecar vai além de um único modelo. Paralelamente ao desenvolvimento do 459, a empresa trabalha na Campo, uma picape de cabine dupla posicionada para disputar espaço com modelos populares como a Fiat Strada — segmento que lidera as vendas no Brasil há anos consecutivos.

Para produzir os dois modelos em escala, a montadora projeta a construção de uma planta industrial de 90 mil metros quadrados em Sooretama, no Espírito Santo, com capacidade para fabricar até 120 mil unidades por ano. A inauguração estava prevista para uma data anterior, mas foi postergada: a nova estimativa aponta para agosto de 2027.
Fonte: CanalTech

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