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A quase 1.600 metros abaixo da superfície de Dakota do Sul, trabalhadores removeram 800 mil toneladas de rocha e construíram duas cavernas gigantes sem um único acidente grave — dentro delas, cientistas vão instalar o maior detector criogênico subterrâneo do mundo

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 22/04/2026 às 11:30
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A quase 1.600 metros abaixo da superfície, trabalhadores escavaram 800 mil toneladas de rocha em Dakota do Sul e construíram duas cavernas colossais sem um único acidente grave — tudo para abrigar o maior detector de neutrinos do mundo

No coração de uma antiga mina de ouro em Dakota do Sul, nos Estados Unidos, operários passaram anos removendo rocha a 1.520 metros de profundidade — quase o dobro da altura do Burj Khalifa, mas para baixo.

Segundo a Underground Construction Association, que concedeu ao projeto o prêmio de Projeto do Ano de 2026, as equipes removeram mais de 800 mil toneladas de rocha dessa profundidade extrema.

O resultado são duas cavernas gigantescas, cada uma com 20 metros de largura, 28 metros de altura e 150 metros de comprimento. Dentro delas, cientistas vão instalar o maior sistema criogênico subterrâneo do mundo para detectar partículas fantasma chamadas neutrinos.

O mais impressionante: ao longo de toda a escavação, os trabalhadores acumularam 1.135.105 horas sem nenhum acidente com afastamento.

Partículas que atravessam tudo — até a Terra inteira — sem parar

Neutrinos são as partículas mais esquivas do universo. A cada segundo, trilhões deles atravessam seu corpo sem que você perceba.

Eles não têm carga elétrica, quase não têm massa e raramente interagem com a matéria. Um neutrino pode atravessar a Terra inteira de ponta a ponta sem bater em nada.

Para detectá-los, os cientistas precisam de silêncio absoluto. Qualquer radiação cósmica que chega à superfície produz sinais falsos. Por isso, o detector precisa estar protegido por 1.520 metros de rocha — um escudo natural contra o ruído do cosmos.

É por isso que as cavernas foram escavadas no Sanford Underground Research Facility (SURF), uma mina de ouro desativada em Lead, Dakota do Sul.

Trabalhadores carregando rocha em correia transportadora a 1.520 metros de profundidade
Operários removeram 800 mil toneladas de rocha a 1.520 metros de profundidade — acumulando mais de 1,1 milhão de horas sem acidente grave.

Duas cavernas do tamanho de um avião jumbo — a quase 2 km de profundidade

Cada caverna escavada mede 65 pés de largura (20 metros), 92 pés de altura (28 metros) e 495 pés de comprimento (150 metros). Para ter uma ideia, um Boeing 747 tem 70 metros de comprimento — cada caverna cabe mais de dois aviões jumbo de ponta a ponta.

A escala é ainda mais impressionante quando se considera que tudo foi feito a quase 1,6 quilômetro abaixo da superfície.

O material removido precisou subir por shafts verticais até a superfície. O sistema de manuseio de rocha foi restaurado e expandido a partir da infraestrutura histórica da antiga mina de ouro Homestake, que operou de 1876 a 2002.

800 mil toneladas de rocha equivalem a cerca de 100 mil caminhões betoneira cheios — uma fila que iria de São Paulo ao Rio de Janeiro.

O que vai dentro das cavernas: o maior sistema criogênico subterrâneo do planeta

As cavernas vão abrigar os detectores do projeto DUNE — Deep Underground Neutrino Experiment, liderado pelo Fermilab, o principal laboratório de física de partículas dos Estados Unidos.

Dentro de cada caverna, tanques gigantescos serão preenchidos com argônio líquido a -186°C. Quando um neutrino interagir com um átomo de argônio — evento raríssimo — o detector registrará o flash de energia resultante.

O sistema completo será o maior detector criogênico subterrâneo do mundo. Nenhum experimento anterior tentou algo nessa escala debaixo da terra.

Grande vaso cilíndrico de detector de neutrinos sendo instalado em caverna subterrânea
Tanques gigantescos de argônio líquido a -186°C serão instalados dentro das cavernas para detectar neutrinos — partículas que atravessam a Terra inteira sem parar.

1,1 milhão de horas sem um acidente: o recorde silencioso

Em projetos de construção subterrânea a essa profundidade, acidentes são comuns. O calor da rocha, a pressão, a ventilação limitada e o espaço confinado criam um ambiente hostil.

Mas as equipes do LBNF/DUNE acumularam 1.135.105 horas trabalhadas sem nenhum acidente com tempo perdido — um recorde que impressionou a comunidade de engenharia subterrânea.

Esse desempenho foi um dos fatores que levaram a Underground Construction Association a premiar o projeto como Projeto do Ano de 2026.

Trabalhadores enfrentaram turnos em condições extremas: temperaturas elevadas pela geotermia da rocha, poeira constante, e o isolamento psicológico de operar a quase 2 quilômetros da luz do sol.

Por que caçar partículas fantasma importa para o mundo real

Neutrinos podem parecer abstratos, mas entendê-los pode resolver alguns dos maiores mistérios da física.

Os cientistas querem saber por que o universo é feito de matéria e não de antimatéria. Se neutrinos e antineutrinos se comportam de forma diferente — algo que o DUNE pode medir — isso explicaria por que existimos.

Neutrinos também são produzidos em explosões de supernovas. Detectá-los daria aos astrônomos um sistema de alerta precoce para esses eventos cósmicos.

O DUNE vai disparar um feixe de neutrinos do Fermilab, em Illinois, até as cavernas em Dakota do Sul — uma distância de 1.300 quilômetros através da crosta terrestre. Sem túnel, sem cabo, sem nada. Os neutrinos simplesmente atravessam a rocha.

Entrada do shaft vertical da mina subterrânea em Dakota do Sul
A mina de ouro Homestake, que operou de 1876 a 2002, foi transformada no Sanford Underground Research Facility para abrigar o detector de neutrinos DUNE.

Da mina de ouro ao laboratório do futuro: o segundo ato de uma mina centenária

A mina Homestake produziu ouro por 126 anos. Quando fechou em 2002, parecia destinada ao abandono.

Mas a mesma profundidade que fez dela uma mina produtiva — 1.520 metros de rocha sólida acima — a transformou no local perfeito para um laboratório de física de partículas.

Essa segunda vida mostra como infraestrutura abandonada pode ser reaproveitada para ciência de ponta. O conhecimento acumulado em mais de um século de mineração foi essencial para planejar a escavação.

Os sistemas de ventilação, bombeamento de água e transporte de rocha foram restaurados e modernizados. A experiência dos mineradores locais foi incorporada ao projeto científico.

Às vezes, as descobertas mais importantes do futuro acontecem nos lugares mais improváveis — como no fundo de uma mina de ouro abandonada no meio de Dakota do Sul. A pergunta é: quais outras minas no mundo poderiam ter um segundo ato semelhante?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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