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500 prédios já submersos: o distrito carioca que está sendo ‘engolido’ pelo mar, que avança 5 metros por ano, e pode desaparecer segundo relatório da ONU

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 08/07/2026 às 20:30 Atualizado em 08/07/2026 às 20:32
Atafona, em São João da Barra, perde terreno para a erosão costeira, mas um estudo de engenharia quer conter o avanço do mar no distrito.
Atafona, em São João da Barra, perde terreno para a erosão costeira, mas um estudo de engenharia quer conter o avanço do mar no distrito.
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A erosão costeira devora Atafona, distrito de São João da Barra, no Norte Fluminense, há mais de 60 anos, e agora um estudo de engenharia com verba federal tenta frear o avanço do mar sobre a orla, na foz do rio Paraíba do Sul, antes que o distrito suma de vez do mapa.

No litoral norte do Rio de Janeiro, o distrito de Atafona, em São João da Barra, oferece uma das imagens mais duras da erosão costeira no Brasil: casas partidas ao meio, ruas que simplesmente terminam dentro da água e escombros de concreto espalhados pela areia onde antes existiam quarteirões inteiros. Segundo reportagem do iG Último Segundo publicada em julho, a Prefeitura de São João da Barra estima que cerca de 500 casas, comércios e construções já foram engolidos pelo avanço do mar ao longo de décadas, num processo que transformou mais de 2 mil moradores em refugiados ambientais desde os anos 1960. Com aproximadamente 6 mil habitantes e situado bem na foz do rio Paraíba do Sul, o distrito virou o retrato nacional do que a erosão costeira é capaz de fazer.

A novidade que muda o rumo dessa história não veio do mar, e sim da mesa de engenharia. Segundo o J3News, foi definida a empresa responsável por elaborar o estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental, o EVTEA, que vai apontar como conter a erosão costeira em Atafona e no distrito vizinho de Açu. A prefeita Carla Caputi confirmou o avanço, e o governo federal condicionou a liberação da verba de contenção à entrega desse estudo. Depois de décadas de perdas e de uma cobrança do Ministério Público Federal que se arrasta desde 2008, pela primeira vez existe um plano concreto de proteção costeira sendo desenhado para o distrito.

Atafona, o distrito que o mar está engolindo aos poucos

Divulgação/ UERJ
Panorama do rio Paraíba do Sul, que também avança sobre Atafona
Divulgação/ UERJ
Panorama do rio Paraíba do Sul, que também avança sobre Atafona

Quem visita Atafona pela primeira vez custa a acreditar que aquele cenário de ruínas foi, um dia, um balneário movimentado. O mar já derrubou 14 quarteirões inteiros, apagou mais de 60 ruas do mapa e deixou para trás um campo de destroços que os moradores chamam de cidade fantasma. Postes tortos, paredes de sobrados rachadas e pisos de cerâmica boiando na maré compõem a paisagem de um lugar que perde terreno para a água ano após ano.

A conta humana é ainda mais pesada que a conta física. As mais de 2 mil pessoas que precisaram abandonar suas casas desde a década de 1960 são hoje tratadas como refugiados ambientais dentro do próprio país, gente que viu o imóvel da família sumir sob a areia e a espuma. Muitos reconstruíram a vida mais para dentro do continente, sempre com o receio de que a erosão costeira volte a alcançá-los. A estimativa de cerca de 500 imóveis destruídos, feita pela Prefeitura de São João da Barra, soma casas de veraneio, residências fixas e pontos de comércio que sustentavam a economia local.

O mais assustador é que o mar não deu trégua. O que era um problema pontual nos anos 1960 virou uma erosão costeira contínua, que engole a faixa de areia, avança sobre a rua seguinte e, quando chega às construções, não costuma deixar nada de pé.

Por que a erosão costeira avança tão rápido em Atafona?

A resposta mais fácil seria culpar apenas o clima, mas a explicação técnica é bem mais interessante e começa rio acima. O grande motor da erosão costeira em Atafona é a perda de força do rio Paraíba do Sul, que ao longo das últimas décadas viu sua vazão despencar por causa de desvios de fluxo, captações e barragens ao longo do curso. Um rio forte carrega sedimentos, ou seja, areia e material fino que se depositam na foz e reabastecem a praia. Um rio enfraquecido carrega muito menos.

Sem esse reforço constante de sedimentos vindo do rio Paraíba do Sul, a linha de costa deixa de se reconstruir na mesma velocidade em que o mar a desgasta. É como uma conta bancária que só tem saques e quase nenhum depósito: o saldo de areia despenca. A esse desequilíbrio se soma a convergência da energia das ondas naquele trecho do litoral, que bate com força concentrada justamente na orla de Atafona e acelera o avanço do mar sobre o que restou.

Por isso os especialistas insistem que o caso não é uma simples história de maré alta. É um problema de engenharia e de hidrologia, em que a redução dos sedimentos do rio Paraíba do Sul e o formato da costa explicam, juntos, por que o desgaste da orla ali é tão veloz e tão difícil de frear sem uma obra de proteção costeira.

Um avanço do mar de até 8 metros em um único ano

Colocar número no problema ajuda a entender o tamanho dele. Na média, o mar avança cerca de 3 metros por ano sobre Atafona, mas essa média esconde picos assustadores. Em determinados anos, o avanço do mar passou de 5 metros, e há registros de temporadas em que a linha de costa recuou perto de 8 metros de uma só vez. Para quem mora a poucos metros da água, isso significa ir dormir com a praia num lugar e acordar com ela bem mais perto da porta.

Esse ritmo não é novo, mas se acelerou nos últimos 60 anos, acompanhando justamente o enfraquecimento do rio Paraíba do Sul. Cada metro perdido não volta: a areia some, a fundação aparece e a próxima ressaca costuma terminar o serviço. Foi assim que ruas inteiras, uma depois da outra, desapareceram sob a maré.

Vale a ressalva importante para não exagerar o dado: os 5 metros por ano citados como referência são um pico, não a média constante. Ainda assim, mesmo a média de 3 metros anuais é brutal quando somada ao longo de seis décadas, e é ela que explica por que a erosão costeira já reorganizou toda a geografia do distrito.

Definida a empresa que vai estudar como conter a erosão costeira

Depois de anos em que a resposta pública parecia sempre travar, a virada veio com a contratação de uma empresa especializada. A prefeita de São João da Barra, Carla Caputi, anunciou que já está definida a companhia responsável por elaborar o EVTEA, sigla para estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental, que vai dizer com precisão qual obra de proteção costeira é viável para Atafona e para o distrito de Açu. O estudo ficou a cargo da empresa Caruso Jr., de reconhecida experiência em obras costeiras.

O detalhe que destrava tudo é financeiro. O governo federal condicionou a liberação da verba de contenção da erosão costeira à entrega desse estudo, ou seja, sem EVTEA não sai o dinheiro, e sem dinheiro não sai a obra. Por isso a definição da empresa não é burocracia: é o primeiro degrau real rumo a uma proteção costeira que Atafona espera há gerações.

A pressão para chegar até aqui é antiga. O Ministério Público Federal cobra uma solução para o problema em Atafona desde 2008, e por muito tempo a sensação foi de que o distrito seria abandonado à própria sorte. A contratação do estudo muda esse jogo, porque transforma a promessa vaga de socorro em uma etapa técnica com prazo, responsável e destino claro.

Quais obras podem conter o avanço do mar em Atafona?

Essa é a pergunta que o EVTEA vai responder, mas as alternativas técnicas já estão sobre a mesa e vale conhecer cada uma. A engorda de praia, também chamada de alargamento de praia, consiste em despejar grandes volumes de areia trazida de outro lugar para reconstruir a faixa perdida, devolvendo à orla a barreira natural que a erosão costeira levou. É uma das soluções mais usadas no mundo para segurar a linha de costa.

Há também as estruturas fixas. O espigão é uma espécie de braço de pedra ou concreto que entra mar adentro, perpendicular à praia, para segurar a areia que a correnteza carregaria. O enrocamento é uma parede de blocos de rocha empilhados na linha de costa, funcionando como escudo contra as ondas. Existem ainda soluções mais modernas, como o bagwall, o big bag e o betonbloc, que usam grandes sacos e blocos preenchidos para formar barreiras mais rápidas de instalar.

Cada técnica tem custo, durabilidade e efeito colateral diferentes, e é exatamente isso que o estudo precisa calcular em São João da Barra. Um espigão mal posicionado, por exemplo, pode segurar areia num ponto e acelerar a erosão costeira no vizinho. Por isso ninguém vai simplesmente escolher no chute: a decisão sobre qual obra vai frear o mar em Atafona depende do diagnóstico técnico que a empresa contratada está encarregada de entregar.

O que a ONU diz sobre Atafona e o Rio de Janeiro

O drama de Atafona também entrou no radar internacional. O relatório Surging Seas in a Warming World, da Organização das Nações Unidas, colocou o distrito e a própria cidade do Rio de Janeiro entre as 31 localidades mais vulneráveis do mundo à elevação do nível do mar. Não é um selo qualquer: significa que o problema local ganhou dimensão global e serviu de alerta sobre a gravidade do que acontece na costa de São João da Barra e do estado.

Os números ajudam a entender a preocupação. Segundo o levantamento, o nível do mar já subiu cerca de 13 centímetros na região ao longo dos últimos 30 anos e pode subir outros 16 centímetros até 2050. Parece pouco, mas em uma costa que já sofre com esse desgaste acelerado, cada centímetro a mais de mar empurra a linha de costa ainda mais para dentro e agrava a pressão do mar sobre as construções.

É importante separar as coisas para não distorcer o recado da ONU. O relatório aponta vulnerabilidade e projeta a subida do nível do mar, mas não afirma que prédios inteiros já afundaram. A destruição já ocorrida em Atafona é resultado principalmente da erosão costeira ligada à perda de sedimentos do rio Paraíba do Sul, enquanto a elevação do nível do mar funciona como um fator que tende a piorar o quadro no futuro. Somados, os dois ajudam a explicar por que a proteção costeira do distrito virou urgência.

O que a erosão costeira tem a ver com o Brasil

Atafona é o caso mais extremo, mas está longe de ser o único. Boa parte das praias brasileiras já convive com algum grau de erosão costeira, do Nordeste ao Sul, seja pela ação natural das ondas, pela ocupação desordenada da orla ou pela redução de sedimentos que chegam ao litoral, como acontece na foz do rio Paraíba do Sul. O avanço do mar sobre casas, avenidas e quiosques é uma preocupação real em vários pontos do país, mesmo que nenhum chegue perto da devastação vista no Norte Fluminense.

O Brasil também já acumula exemplos de proteção costeira que deram certo. Em Itapoá, em Santa Catarina, uma grande engorda de praia devolveu areia à orla e recuperou a faixa que o mar havia levado, mostrando que existe solução de engenharia quando há projeto e verba. São experiências que servem de referência para o que Atafona tenta agora estruturar.

O que faz Atafona virar símbolo nacional é o limite a que o distrito chegou. Foi preciso perder cerca de 500 imóveis, dezenas de ruas e quarteirões inteiros para que a erosão costeira ali forçasse um estudo de engenharia sério e a promessa de verba federal. Se a resposta funcionar em São João da Barra, o modelo de enfrentamento do mar pode inspirar outras cidades brasileiras que veem o litoral encolher e ainda não sabem como reagir.

Atafona pode desaparecer antes de 2100?

É a pergunta que assombra os moradores, e as projeções não são animadoras. Simulações da Universidade Federal Fluminense, a UFF, indicam que, se o ritmo atual for mantido, mais de mil construções podem ser perdidas até 2100, o que na prática significa o desaparecimento do distrito de São João da Barra como ele é conhecido hoje. Em outras palavras, sem intervenção, Atafona corre o risco real de sumir do mapa antes do fim do século.

O que separa esse cenário sombrio de um futuro melhor é justamente a obra de proteção costeira. Se o EVTEA sair do papel, a verba for liberada e a estrutura certa for instalada a tempo, é possível frear o mar e estabilizar a linha de costa. A corrida é contra o relógio: cada ano de atraso significa mais alguns metros de praia perdidos e mais casas na zona de risco, enquanto o rio Paraíba do Sul segue sem devolver areia suficiente à foz.

Existe esperança fundamentada? Sim, desde que o cronograma ande. A definição da empresa que fará o estudo é o sinal mais concreto em muitos anos de que Atafona pode, enfim, ter uma chance de resistir. O que não dá mais é para tratar a erosão costeira do distrito como um problema distante ou inevitável, porque o prazo para agir está claramente definido pelas próprias projeções.

E você, o que faria se morasse a poucos metros de um mar que engole uma cidade inteira? A história de Atafona mistura a força bruta da natureza, o peso das decisões de engenharia lá no alto do rio Paraíba do Sul e a esperança depositada em um estudo que pode, finalmente, definir a obra de proteção costeira capaz de segurar a linha de costa. Depois de décadas vendo o mar apagar ruas e memórias em São João da Barra, o distrito enfim tem um caminho técnico pela frente.

A dúvida que fica é se a resposta vai chegar a tempo. Você acredita que a engorda de praia, o espigão ou o enrocamento vão conseguir frear a erosão costeira em Atafona, ou acha que o mar é forte demais para ser contido? Acha que o Brasil deveria tratar a proteção costeira como prioridade nacional, já que tantas praias enfrentam o mesmo risco? Conte a sua opinião nos comentários, compartilhe esta matéria com quem se importa com o litoral brasileiro e ajude essa história a chegar a mais gente.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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