Retorno histórico de um predador nativo expõe efeito mensurável sobre espécies invasoras, após três milênios de ausência no continente australiano, com reprodução registrada em ambiente protegido e dados científicos que conectam sua queda ao avanço dos gatos ferais.
O diabo-da-tasmânia, maior marsupial carnívoro existente, voltou a viver no continente australiano pela primeira vez em cerca de 3.000 anos, em um projeto de reintrodução no norte de Nova Gales do Sul.
Dois anos após as primeiras solturas, filhotes passaram a ser registrados em uma área protegida em condições semi-selvagens, marco usado por conservacionistas para medir viabilidade reprodutiva fora da Tasmânia.
Ao mesmo tempo, um dado de pesquisa frequentemente citado no debate sobre esse retorno reforça o potencial papel ecológico da espécie.
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Em locais onde diabos-da-tasmânia entraram em forte declínio, a abundância de gatos ferais foi estimada como cerca de 58% maior do que em áreas onde os diabos permaneciam saudáveis e numerosos.
Projeto Devil Comeback e o santuário de Barrington Tops
A reintrodução ocorre no contexto da campanha Devil Comeback, uma iniciativa apresentada como parceria entre a organização Aussie Ark e entidades associadas ao esforço de rewilding no país.
Comunicados públicos do projeto descrevem que o retorno ao continente foi feito dentro de um santuário de vida selvagem com aproximadamente 400 hectares, na região de Barrington Tops.

O manejo foi desenhado para reduzir riscos iniciais e permitir acompanhamento direto do grupo reintroduzido.
Primeiras solturas e números oficiais
O anúncio internacional do retorno ocorreu em outubro de 2020.
Na comunicação do projeto, a primeira soltura mencionava 11 indivíduos.
Em seguida, foi informado que 26 diabos-da-tasmânia passariam a ocupar o santuário ao longo daquele mesmo ciclo de reintrodução, após uma fase de liberação assistida.
A mesma descrição afirma que a área foi estruturada para limitar ameaças comuns em solturas iniciais, como contato com pragas e trânsito de veículos.
O local também foi apresentado como base para uma população “seguro”, distante da doença que afeta o núcleo selvagem na Tasmânia.
Reprodução registrada em ambiente semi-selvagem
Os primeiros sinais de reprodução foram noticiados no ano seguinte.
Em maio de 2021, a rede pública australiana ABC informou que filhotes haviam nascido no santuário em Barrington Tops poucos meses após a liberação de adultos no fim de 2020.
A reportagem descreveu o local como uma área cercada e desenhada para proteger os animais de ameaças como gatos e raposas.
Especialistas também chamaram atenção para o caráter intermediário do experimento.
Apesar de permitir que os animais vivam e se reproduzam em condições próximas às naturais, o modelo não equivale a uma recolonização aberta, em paisagens sem cercas.
Segundo ano consecutivo de filhotes
Em junho de 2022, a ABC voltou ao tema ao noticiar o segundo ano consecutivo de sucesso reprodutivo no santuário.
A confirmação de novos filhotes reforçou a leitura de que a repetição do evento ajudaria a sustentar a estratégia de formar uma população continental com capacidade de se manter ao longo do tempo dentro daquele modelo de proteção.
A reportagem descreveu o programa como parte de um esforço para construir números fora da Tasmânia.
A doença foi citada como fator central para justificar a criação de núcleos separados.
Por que o diabo-da-tasmânia desapareceu do continente
A ausência do diabo-da-tasmânia no continente é um dos elementos que transformam a história em um marco simbólico.
Reportagens situam o desaparecimento do animal no continente em torno de 3.000 anos, com referências paleontológicas indicando o fim do registro fóssil por volta de 3.200 anos atrás.
As mesmas fontes apontam que a causa não é apresentada como um único fator consensual.
Há menções recorrentes a mudanças ambientais e a alterações na dinâmica de predadores e competidores ao longo daquele período.
A doença que mudou o rumo da espécie

O motor imediato do projeto, porém, é contemporâneo e tem nome definido: Devil Facial Tumour Disease (DFTD).
Trata-se de uma forma transmissível e frequentemente fatal de câncer que se espalha entre diabos-da-tasmânia.
A doença foi associada a quedas acentuadas de população na Tasmânia.
Materiais do Devil Comeback descrevem que a construção de uma população “seguro” envolveu anos de criação e seleção de indivíduos antes de iniciar a reintrodução no continente.
O programa relata centenas de animais nascidos ao longo do tempo e planejamento de liberações adicionais.
O dado de 58% e o efeito sobre gatos ferais
É nesse ponto que o número de 58% entra no debate público.
O resultado aparece tanto em cobertura jornalística quanto em literatura científica.
Um estudo publicado na revista Ecology Letters analisou a queda induzida pela doença em populações de diabos-da-tasmânia como um “experimento natural”.
Os pesquisadores testaram se a redução do predador nativo estaria ligada ao aumento de um mesopredador invasor, o gato feral.
No resumo científico, os autores registram que a abundância de gatos foi cerca de 58% maior onde os diabos haviam declinado.
Esse aumento foi associado a impacto negativo sobre uma presa nativa menor.
Limites do dado e o contexto do santuário
O dado não mede o que acontece hoje dentro do santuário de Barrington Tops.
A lógica do local é reduzir a exposição a predadores introduzidos durante a fase de estabelecimento da população.
Ainda assim, a cifra passou a funcionar como um resumo objetivo do papel ecológico perdido com o declínio do diabo-da-tasmânia.
Pesquisadores e gestores destacam que predadores nativos podem influenciar a presença ou abundância de espécies invasoras.
A perda desses predadores pode abrir espaço para aumentos de invasores com efeitos em cascata sobre espécies menores.
Função ecológica além da predação
A comunicação do Devil Comeback também atribui ao diabo-da-tasmânia um papel que vai além da predação.
Como necrófago, o animal consome carcaças e reduz matéria orgânica disponível no ambiente.
Esse comportamento é descrito como um serviço ecológico ligado à limpeza de restos e à dinâmica sanitária da paisagem.
Esse tipo de função depende do contexto e da escala em que a espécie está presente.
Por isso, a reintrodução começou em uma área com controle e acompanhamento intensivo.
Uma pergunta que permanece aberta
A sequência de eventos concentra a atenção em uma questão que segue no centro do debate científico e ambiental.
Até que ponto restaurar um predador nativo pode alterar, na prática e com dados mensuráveis, a pressão de um invasor tão disseminado quanto o gato feral nos ecossistemas australianos?

