Reencontro entre ex-aluno do Proerd e antigo instrutor da Polícia Militar em Presidente Prudente mostra como uma orientação recebida ainda na infância acompanhou André Bina até o início da carreira como soldado, quase dez anos depois das aulas em Pirapozinho, no interior paulista.
O soldado André Luis de Almeida Bina Júnior reencontrou, durante o curso de formação da Polícia Militar em Presidente Prudente (SP), o cabo Gustavo Marçal de Oliveira, instrutor que havia dado aulas para ele no Proerd quando ainda era aluno do quinto ano em Pirapozinho, no interior paulista.
Publicada pelo g1 na última quinta-feira (25), a história aproximou duas fases da vida de Bina: a infância marcada por aulas de prevenção nas escolas e o início da carreira na corporação, quase uma década depois do primeiro contato com o programa.
Natural de Porecatu (PR), Bina participou do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência em 2017, período em que estudava em uma escola de educação geral em Pirapozinho e começava a observar a atuação policial de outro modo.
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Aos 19 anos, já como soldado, ele voltou a encontrar o antigo instrutor em um cenário bem diferente da sala de aula: a Escola Superior de Soldados, onde participava da formação profissional da Polícia Militar em Presidente Prudente.
Reencontro na formação da Polícia Militar
No primeiro semestre de 2026, o cabo Marçal entrou na sala para ministrar a disciplina de medicina legal sem saber que, entre os recrutas, estava um jovem que havia sido seu aluno no Proerd quase dez anos antes.
A ligação entre os dois apareceu durante a apresentação inicial da aula, quando Marçal citou o Proerd e Bina se identificou como um dos estudantes que haviam participado das atividades conduzidas por ele em Pirapozinho.
“Quando eu falei do Proerd, ele [André Luis] levantou a mão e perguntou: ‘Você lembra de mim?’”, contou o cabo, ao lembrar o momento em que percebeu que o recruta diante dele fazia parte de sua própria trajetória nas escolas.
Depois da pergunta, Bina explicou que havia sido aluno do programa, e a surpresa ganhou peso emocional para o instrutor, que precisou conter a reação por estar em um ambiente militar de formação e disciplina.

O que é o Proerd
Apresentado pela Polícia Militar de São Paulo como uma iniciativa de educação preventiva, o Proerd orienta crianças e adolescentes sobre resistência às drogas e à violência, com foco em evitar o início do uso de substâncias ilícitas.
Além da prevenção, a proposta trabalha formas de lidar com pressões de colegas, reconhecer situações de risco e buscar respostas seguras, especialmente em uma fase da vida em que decisões e influências podem deixar marcas duradouras.
Entre as orientações recebidas, uma fala do cabo Marçal permaneceu na memória de Bina por vários anos e, segundo o soldado, ajudou a moldar a forma como ele passou a encarar escolhas e convivências.
O ensinamento envolvia dizer “não” às drogas e procurar alternativas saudáveis, como a prática de esportes, conselho que Bina passou a associar à disciplina, ao cuidado com as próprias decisões e à aproximação de boas influências.
“Uma vez o cabo disse que, se um amigo oferecer droga, tem que dizer ‘não’ e procurar uma rota de fuga”, relembrou Bina, ao explicar que aquela orientação não se limitava à recusa imediata.
Na visão do soldado, a mensagem também indicava a importância de ocupar a mente com atividades positivas, manter distância de situações prejudiciais e buscar caminhos capazes de afastar crianças e adolescentes de riscos presentes no cotidiano.
Da sala de aula ao sonho da farda
A admiração pela carreira policial começou naquele período escolar, segundo Bina, e ganhou força com o apoio do pai, que serviu às Forças Armadas por um ano e também influenciou o interesse do jovem pela área de segurança pública.
Com o passar dos anos, o contato com o Proerd se somou à referência familiar e ajudou Bina a construir o objetivo de prestar concurso, ingressar na Polícia Militar e seguir uma trajetória profissional ligada à farda.
Para o cabo Marçal, ver o antigo aluno usando o mesmo uniforme representou uma confirmação de que o trabalho desenvolvido nas escolas pode ultrapassar o período das aulas e permanecer na vida dos estudantes por muito tempo.
Naquele momento, o policial disse que a vontade era abraçar e conversar com Bina, mas a formalidade do ambiente exigiu contenção, já que o reencontro ocorreu dentro de uma sala de formação militar.

“É uma sensação mesmo paternal, que a gente quer que seja maior, inclusive que nós mesmos. Se for possível, que ele consiga mais do que eu, a gente fica torcendo por isso”, afirmou Marçal ao comentar a emoção de rever o ex-aluno.
Cinco mil crianças atendidas em sete municípios
Durante cinco anos como instrutor do Proerd, Marçal estima ter atendido cerca de 5 mil crianças em sete municípios da região, número que ajuda a dimensionar o alcance do trabalho realizado por ele em escolas do interior paulista.
Na avaliação do cabo, o programa vai além das orientações sobre drogas, porque aproxima policiais, estudantes, famílias e escolas em uma relação de confiança construída dentro do ambiente escolar e fortalecida pelo contato direto com as crianças.
Com duas décadas de serviços prestados à Polícia Militar, Marçal atuou em diferentes funções durante a carreira, mas considera o período no Proerd uma das experiências mais marcantes de sua trajetória dentro da corporação.
O trabalho com crianças, segundo ele, também trouxe aprendizados aos próprios policiais envolvidos nas atividades, especialmente pela possibilidade de acompanhar de perto histórias escolares que, anos depois, podem reaparecer de forma inesperada.
Bina, por sua vez, atribui parte da aprovação no concurso à mudança de postura iniciada ainda na escola, quando passou a se dedicar mais aos estudos e a levar com seriedade o objetivo de ingressar na Polícia Militar.
Hoje, no início da carreira como soldado, o jovem afirma que pretende continuar avançando dentro da corporação, seguindo o exemplo de profissionais que fizeram parte de sua formação e contribuíram para a construção de seu projeto profissional.
Início de carreira e vínculo com a educação preventiva
Na fase em que inicia a vida profissional, Bina mantém aos estudantes uma mensagem de persistência nos objetivos, enquanto Marçal, já com 20 anos de corporação, diz que ainda pretende buscar novos desafios na área de segurança pública.
A trajetória dos dois ganhou repercussão por reunir, em um mesmo episódio, a infância de um aluno atendido por um programa preventivo e o começo da carreira de um jovem que decidiu vestir a farda anos depois.
Ocorrido em Presidente Prudente, o reencontro também evidenciou o alcance local do trabalho desenvolvido por Marçal em municípios do interior paulista e mostrou como uma ação de educação preventiva pode permanecer na memória de estudantes por quase uma década.
