O caso de Dadarao Bilhore deixou de ser apenas uma tragédia familiar e virou um retrato de um problema urbano que aparece nas estatísticas da Índia. Desde 2015, ele usa cimento, areia, pedras e apoio de voluntários para corrigir buracos em ruas de Mumbai e cidades próximas, enquanto dados oficiais mostram aumento de acidentes, mortes e feridos ligados a crateras nas vias.
Dadarao Bilhore, comerciante de verduras em Mumbai, perdeu o filho de 16 anos em julho de 2015 após um acidente provocado por um buraco na pista.
O adolescente seguia em uma motocicleta com o primo quando o veículo atingiu uma cratera em uma via alagada. O primo sobreviveu. O filho de Bilhore, Prakash, morreu.
Desde então, Bilhore passou a tapar buracos por conta própria em ruas de Mumbai e regiões próximas. Segundo informações da Anadolu Agency, ele afirmou em 2021 que já havia fechado cerca de 1.500 crateras, com ajuda de amigos e voluntários, principalmente aos domingos.
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A história chama atenção porque expõe um problema maior do que a iniciativa individual. Na Índia, buracos, curvas perigosas, pontes, bueiros, trechos em obra e falhas de manutenção aparecem nos relatórios oficiais como fatores de risco para acidentes de trânsito.
O acidente aconteceu em uma via alagada e expôs uma falha comum nas cidades durante as chuvas
O acidente ocorreu na Jogeshwari-Vikhroli Link Road, conhecida como JVLR, uma ligação importante de Mumbai. Como informou a NDTV em 2018, Prakash morreu em 28 de julho de 2015 depois que a motocicleta caiu em um buraco profundo coberto por água da chuva.

Esse detalhe muda a leitura do caso. Buracos em pista seca já oferecem risco, mas, em períodos de monções, a água esconde a profundidade da cratera e reduz o tempo de reação de motociclistas, ciclistas e motoristas.
Em cidades densas como Mumbai, onde motos dividem espaço com ônibus, carros, caminhões e pedestres, uma falha pequena no pavimento pode virar colisão grave em segundos.
Bilhore não criou uma obra pública formal nem substitui a responsabilidade da prefeitura. O que ele faz é uma resposta emergencial. Recebe locais indicados por moradores, vai até o ponto e tenta impedir que a mesma cratera continue aberta por dias ou semanas.
Os números oficiais mostram que buracos nas ruas não são um problema pequeno na Índia
O relatório “Road Accidents in India 2023”, do Ministério de Transporte Rodoviário e Rodovias da Índia, registrou 480.583 acidentes de trânsito, 172.890 mortes e 462.825 feridos no país em 2023. Dentro da categoria de características da via, os buracos causaram 5.840 acidentes, 2.161 mortes e 5.309 feridos naquele ano. Em relação a 2022, os acidentes ligados a buracos subiram 31,4%, as mortes cresceram 16,4% e os feridos aumentaram 42,2%.
O próprio documento aponta que buracos, curvas, bueiros, pontes e trechos em obra exigem atenção de engenheiros responsáveis pela manutenção em níveis nacional, estadual e local. Ou seja, a questão não é apenas “motorista distraído”. Há um componente claro de infraestrutura, fiscalização, drenagem e resposta rápida a reclamações.
Dados divulgados pelo Press Information Bureau, órgão oficial do governo indiano, mostram que o país já vinha de um patamar alto antes disso. Em 2022, foram 461.312 acidentes, 168.491 mortes e 443.366 feridos em vias indianas, com estatísticas reunidas a partir de informações de departamentos de polícia dos estados e territórios.
A ação de Bilhore funciona como reparo emergencial, mas não resolve o gargalo da manutenção urbana
Bilhore começou sozinho. Depois, passou a receber ajuda de amigos e voluntários. O trabalho costuma ocorrer aos domingos, quando há menos tráfego e mais tempo para localizar as crateras indicadas por moradores.
O método é simples. Ele usa materiais de construção, como areia, cascalho e cimento, para preencher as falhas mais perigosas. Em alguns casos, o material vem de sobras de obras. A meta imediata não é reconstruir a rua, mas reduzir o risco de queda, perda de controle e colisão.
Essa diferença é importante. Tapar uma cratera com material improvisado pode evitar um acidente no curto prazo, mas não substitui fresagem, recapeamento, drenagem, base adequada e controle de qualidade do pavimento. Quando a origem do buraco está ligada a infiltração, tráfego pesado ou serviço mal executado, o problema tende a voltar.
Por isso, a iniciativa ganhou força como símbolo de cobrança. Ela mostra o intervalo entre a reclamação do cidadão e a execução do serviço público. Esse intervalo, em uma avenida movimentada e alagada, pode custar vidas.
Aplicativo, voluntários e palestras levaram o caso para o debate de segurança viária
Bilhore também tentou organizar os relatos por meio de um aplicativo para que moradores pudessem informar a localização dos buracos. Segundo ele relatou à Anadolu, a ferramenta tinha problemas técnicos, mas a ideia era facilitar o mapeamento das falhas e reduzir a dependência de avisos informais.
Com a repercussão, ele passou a participar de eventos sobre segurança viária e recebeu apoio de grupos locais e figuras conhecidas na Índia. Ainda assim, o ponto central permanece o mesmo desde 2015: um buraco aberto em uma rua movimentada não é apenas um incômodo para motoristas, é um risco de morte.
A Organização Mundial da Saúde estima que 1,19 milhão de pessoas morrem por ano no trânsito em todo o mundo. A entidade também relaciona segurança viária a desenho urbano, fiscalização, velocidade, infraestrutura e proteção de usuários vulneráveis, como pedestres, ciclistas e motociclistas.
O caso de Mumbai mostra uma conta que aparece antes do asfalto novo
A atuação de Dadarao Bilhore ganhou repercussão porque parte de uma perda familiar, mas a relevância pública está no que ela revela sobre manutenção urbana. Uma cidade pode investir em grandes obras, viadutos e corredores, mas continuar vulnerável se falhar no básico: drenagem, pavimento, sinalização, vistoria e atendimento rápido às reclamações.
O caso também mostra uma limitação prática. A ação voluntária pode reduzir riscos pontuais, mas não cria um sistema permanente de prevenção. Para isso, é preciso orçamento, equipe técnica, inspeção depois das chuvas, canal eficiente de denúncia, prazo de resposta e transparência sobre quem é responsável por cada via.
Bilhore disse que pretende continuar enquanto puder. A frase tem peso, mas não deveria esconder a pergunta principal: quantas crateras uma cidade precisa acumular antes de tratar buraco como indicador de segurança pública?
Você acha que buracos em ruas e rodovias deveriam gerar punição direta para os responsáveis pela manutenção quando causam acidentes graves? Deixe sua opinião nos comentários e conte se esse problema também acontece com frequência na sua cidade.
