1. Início
  2. / Mineração
  3. / Depois da China, chegou a vez dos EUA ‘garantirem’ fatia dos recursos naturais do Brasil: país compra por R$ 3 bilhões terras raras críticas brasileiras e entra no centro da disputa global por tecnologia
Tempo de leitura 5 min de leitura Comentários 0 comentários

Depois da China, chegou a vez dos EUA ‘garantirem’ fatia dos recursos naturais do Brasil: país compra por R$ 3 bilhões terras raras críticas brasileiras e entra no centro da disputa global por tecnologia

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 02/04/2026 às 12:41
Atualizado em 02/04/2026 às 12:43
EUA garantem acesso a terras raras do Brasil com acordo de US$ 565 milhões, ampliando disputa global por minerais críticos e reduzindo dependência da China.
EUA garantem acesso a terras raras do Brasil com acordo de US$ 565 milhões, ampliando disputa global por minerais críticos e reduzindo dependência da China.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
11 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Movimento estratégico amplia disputa global por minerais críticos e posiciona Brasil no centro de interesses internacionais ligados à energia, defesa e tecnologia avançada, com impactos diretos nas cadeias produtivas e na geopolítica industrial.

Os Estados Unidos fecharam com a Serra Verde um financiamento de US$ 565 milhões para refinanciar dívidas e ampliar a produção da mina de Pela Ema, em Goiás, num movimento que reforça a disputa global por minerais críticos e amplia a presença americana numa cadeia hoje concentrada na China.

De acordo com a revista Veja, em matéria publicada nesta quarta-feira (01), a operação foi estruturada pela U.S. International Development Finance Corporation, a DFC, e inclui ainda a opção de aquisição de uma participação minoritária na companhia.

Além do crédito, o arranjo abre espaço para que Washington influencie o destino comercial de parte da produção.

O Financial Times informou que o pacote assegura aos EUA acesso aos minerais e lhes dá poder incomum de influência sobre quem poderá comprar a produção da Serra Verde, enquanto a Reuters relatou que a mineradora trabalha para ter contratos de offtake em vigor até o fim de 2026, após encurtar acordos firmados anteriormente com processadores chineses.

Brasil no centro da corrida por terras raras

O peso do acordo se explica pelo tipo de material extraído em Minaçu.

A Serra Verde afirma ser a única produtora em larga escala, fora da Ásia, de terras raras pesadas críticas, com destaque para disprósio e térbio, elementos usados em ímãs permanentes presentes em veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, sistemas médicos, defesa e aeroespacial.

A empresa iniciou a produção comercial no começo de 2024 e prevê alcançar cerca de 6.500 toneladas anuais de óxidos totais de terras raras até o fim de 2027.

O Brasil entra nessa corrida com uma vantagem geológica relevante, mas ainda pouco convertida em escala industrial.

EUA garantem acesso a terras raras do Brasil com acordo de US$ 565 milhões, ampliando disputa global por minerais críticos e reduzindo dependência da China.
EUA garantem acesso a terras raras do Brasil com acordo de US$ 565 milhões, ampliando disputa global por minerais críticos e reduzindo dependência da China.

Dados do U.S. Geological Survey apontam que o país tem 21 milhões de toneladas em reservas, o segundo maior volume do mundo, atrás apenas da China, que aparece com 44 milhões de toneladas.

Ainda assim, a produção brasileira segue pequena em comparação com os principais polos globais, o que ajuda a explicar o interesse crescente de governos e grupos privados por projetos no país.

Domínio da China pressiona estratégias globais

O avanço americano ocorre porque o problema não está apenas na mina, mas no processamento.

A Reuters informou, em dezembro de 2025, que a China controla 90% da oferta global processada de terras raras, condição que levou países ocidentais a acelerar a busca por fontes alternativas para defesa, transição energética e indústria de alta tecnologia.

Nesse contexto, ativos com presença relevante de terras raras pesadas ganharam valor estratégico, já que esses elementos tendem a ser mais escassos fora do circuito chinês.

A própria trajetória recente da Serra Verde ilustra essa transição.

Quando o projeto ainda estava sendo desenvolvido, a empresa fechou contratos de longo prazo com grupos chineses porque praticamente não havia outra rota disponível para separar e processar o concentrado.

Mais tarde, com o surgimento de alternativas no Ocidente e o aprofundamento da rivalidade entre Washington e Pequim, a companhia renegociou esses contratos, encurtando os prazos e preservando margem para diversificar a base de compradores.

Estratégia dos EUA para reduzir dependência

Do lado americano, o financiamento à Serra Verde faz parte de uma política mais ampla para reduzir vulnerabilidades em matérias-primas consideradas sensíveis.

A DFC informou oficialmente que o empréstimo servirá para otimizar e expandir a mina brasileira e ajudará a desenvolver uma fonte de terras raras alinhada ao Ocidente.

Já a Reuters mostrou que as duas partes negociam os detalhes de uma futura participação acionária minoritária do governo dos EUA na companhia, mecanismo que ampliaria a influência americana sobre um ativo visto como estratégico.

Essa estratégia não se limita ao caso brasileiro.

Na mesma comunicação em que citou a Serra Verde, a DFC também destacou investimentos e cartas de intenção voltadas a outros projetos de minerais críticos, como tungstênio no Cazaquistão e plataformas de capital para cadeias de suprimento estratégicas.

O desenho indica uma atuação mais agressiva dos EUA em financiamento, participação societária e instrumentos ligados à produção, com foco em segurança econômica e nacional.

Desafios do Brasil para expandir produção

No Brasil, a operação reforça uma contradição conhecida no setor mineral.

O país reúne reservas expressivas e tem depósitos com apelo crescente, mas ainda enfrenta dificuldade para transformar potencial geológico em produção robusta, processamento local e contratos de longo prazo.

O acordo com a DFC tende a aliviar parte desse gargalo no caso da Serra Verde, porque troca passivos por crédito em condições mais favoráveis e bancará a expansão do projeto em Goiás.

Ainda assim, o avanço de uma mina isolada não resolve, por si só, a lacuna industrial brasileira.

O valor estratégico das terras raras está cada vez menos na extração bruta e cada vez mais na capacidade de separar óxidos, fabricar ligas, produzir ímãs e integrar esses insumos a cadeias industriais de maior valor agregado.

É nesse ponto que a disputa internacional se intensifica. Quem garante acesso ao minério também tenta assegurar presença nas etapas posteriores, onde a dependência externa costuma ser ainda maior.

Nesse cenário, a Serra Verde passa a ocupar uma posição singular.

A mina brasileira combina reserva relevante, presença de terras raras pesadas e produção já em curso, três fatores que não aparecem com frequência fora da Ásia.

Por isso, o financiamento americano ultrapassa a lógica de uma operação corporativa convencional e se encaixa na reorganização das cadeias de suprimento de minerais críticos, num momento em que governos tratam esses insumos como questão industrial, energética e geopolítica.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x