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Demolir uma rodovia que carregava 170 mil carros por dia para botar um riacho no lugar parecia loucura, mas foi exatamente o que Seul fez no início dos anos 2000, criando um dos casos de renovação urbana mais estudados do mundo, com a natureza voltando ao coração da cidade

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 22/05/2026 às 21:53
Atualizado em 22/05/2026 às 21:55
Assista o vídeoSeul demoliu uma rodovia de quase 170 mil carros por dia para reabrir o riacho Cheonggyecheon, caso mundial de renovação urbana que depende de bombeamento de água.
Seul demoliu uma rodovia de quase 170 mil carros por dia para reabrir o riacho Cheonggyecheon, caso mundial de renovação urbana que depende de bombeamento de água.
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Demolir uma rodovia que carregava quase 170 mil carros por dia para colocar um riacho no lugar parecia loucura, mas foi o que Seul fez nos anos 2000. O riacho Cheonggyecheon virou um dos casos de renovação urbana mais estudados do planeta, ainda que dependa de bombeamento artificial de água para sobreviver no coração da cidade.

No início dos anos 2000, a cidade de Seul, capital da Coreia do Sul, tomou uma decisão que parecia absurda para a maioria das pessoas: demolir uma rodovia elevada que carregava cerca de 168 mil carros por dia para colocar um riacho no lugar. O projeto de restauração do Cheonggyecheon, liderado pelo então prefeito Lee Myung-bak, começou em julho de 2003 e reabriu o curso d’água em 1º de outubro de 2005, transformando um corredor de concreto e tráfego em um parque linear que se tornou referência mundial em renovação urbana.

O riacho Cheonggyecheon tem história antiga, remontando à era da dinastia Joseon, há mais de 600 anos, quando moradores lavavam roupas e tocavam a vida cotidiana ao longo de suas pontes de pedra. Mas, após a Guerra da Coreia, o curso d’água foi sendo coberto por concreto entre 1958 e 1978 e, sobre ele, ergueu-se uma rodovia elevada. Décadas depois, a deterioração dessa estrutura e o sufocamento do centro da cidade levaram Seul a apostar em uma ideia radical: trazer o riacho de volta à superfície.

De símbolo de progresso a fardo urbano

Seul demoliu uma rodovia de quase 170 mil carros por dia para reabrir o riacho Cheonggyecheon, caso mundial de renovação urbana que depende de bombeamento de água.
Para entender por que Seul demoliu a rodovia, é preciso voltar ao contexto do pós-guerra.

Devastada e inchada por milhões de refugiados, a cidade saltou de cerca de 1,5 milhão de habitantes em 1950 para mais de 10 milhões no fim do século XX. Favelas se espalharam ao redor do antigo riacho, e esgoto e lixo eram despejados diretamente nele, a ponto de o local ser apelidado de câncer da cidade. Cobrir tudo com concreto e construir uma via expressa por cima parecia, na época, o caminho natural da modernização.

Por décadas, a rodovia elevada foi vista como símbolo de progresso, sinônimo de mais carros, comércio ágil e economia forte. Mas, no fim dos anos 1990, a estrutura que transportava mais de 168 mil veículos por dia estava seriamente deteriorada, com custos de reparo altíssimos. Pior: o centro de Seul havia se tornado um bloco de concreto que retinha calor, com ar poluído e congestionamentos constantes. O que um dia foi orgulho virou um fardo, e o riacho enterrado passou a ser visto como possível solução.

A decisão ousada de um ex-executivo da Hyundai

Seul demoliu uma rodovia de quase 170 mil carros por dia para reabrir o riacho Cheonggyecheon, caso mundial de renovação urbana que depende de bombeamento de água.
O nome por trás da virada é curioso. Lee Myung-bak, eleito prefeito de Seul em 2002, não era ativista ambiental nem arquiteto.

Ele havia passado quase 30 anos na Hyundai, chegando a CEO da construtora do grupo ainda jovem, justamente em uma era em que a empresa era símbolo da industrialização sul-coreana, ligada a grandes obras de estradas, pontes e concreto. A ironia é que esse perfil de construtor decidiu desmontar um dos símbolos de infraestrutura da cidade para devolver o espaço ao riacho.

Quando assumiu, Lee tocou o projeto com uma rapidez que surpreendeu Seul, e mais tarde planejadores urbanos o classificariam como uma das decisões urbanas mais ousadas da Ásia no início do século XXI. Vale registrar que ele soube vender a ideia: enquadrou a obra também como um canal de alívio de enchentes e como vitrine de desenvolvimento sustentável para melhorar a imagem da Coreia no mundo. Anos depois, Lee Myung-bak se tornaria presidente da Coreia do Sul.

A complexa obra de desenterrar o riacho

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A demolição, iniciada oficialmente em 2003, transformou o centro de Seul em um canteiro gigantesco. A cidade teve que lidar com camadas e camadas de infraestrutura empilhadas por décadas: a rodovia elevada, o pavimento de concreto, redes de esgoto, fios elétricos, cabos de telecomunicação, tubulações de água e até pontes antigas, tudo na área mais movimentada da capital. Foi como fazer uma cirurgia cardíaca enquanto o corpo precisava continuar funcionando, segundo planejadores urbanos.

A escala impressiona: mais de 680 mil toneladas de concreto e aço foram removidas, o equivalente, segundo a Sociedade Americana de Arquitetos Paisagistas, a desmontar dezenas de arranha-céus no meio de um distrito financeiro. Em 27 meses de obras, a um custo de cerca de 281 milhões de dólares, surgiu um corredor de água e espaço público de 5,8 quilômetros de extensão atravessando o centro de Seul, com 22 pontes e calçadas para pedestres nas duas margens do riacho.

Um riacho que precisa de bombeamento para existir

Aqui está o ponto que costuma ser esquecido nas versões mais românticas da história. O Cheonggyecheon não é um rio natural que voltou a correr sozinho. Como sua bacia hidrográfica original foi completamente urbanizada ao longo das décadas, o riacho restaurado depende de bombeamento artificial de água para existir. Segundo estudos do projeto, cerca de 120 mil toneladas de água por dia são bombeadas do Rio Han, de afluentes e da drenagem de águas subterrâneas do metrô para manter o fluxo constante, com profundidade de cerca de 40 centímetros.

Esse detalhe é fundamental para a precisão da história. A cidade gasta milhões de dólares por ano apenas para manter o riacho funcionando, o que faz dele um corredor de água projetado e mantido por engenharia moderna, mais parecido com um grande jardim urbano que precisa de irrigação diária do que com um ecossistema autossuficiente. Vários estudos acadêmicos criticam justamente o mito do retorno ao natural, lembrando que o Cheonggyecheon é uma obra de design urbano, e não uma restauração ecológica no sentido estrito.

A explosão de vida e o frescor no coração de Seul

Mesmo sendo artificial, os resultados ambientais foram extraordinários. Segundo pesquisa do Instituto de Seul, a biodiversidade ao redor do riacho aumentou 639% entre 2003 e 2008. O número de espécies de plantas saltou de 62 para 308, o de insetos de 15 para 192 e o de peixes de 4 para 25. Garças, patos selvagens, libélulas e borboletas voltaram a aparecer no centro da cidade, algo extremamente raro antes da obra, e levantamentos posteriores registraram centenas de espécies vivas na área.

Os efeitos físicos também foram sentidos. A área ao redor do riacho ficou cerca de 3,5 graus Celsius mais fresca que as ruas de concreto vizinhas, um alívio importante em uma cidade marcada pelo efeito de ilha de calor urbana. A remoção da rodovia elevada melhorou a circulação do ar entre os prédios, e os níveis de dióxido de nitrogênio caíram cerca de 35%, segundo relatórios ambientais da cidade, mostrando que trazer água e vegetação de volta gerou benefícios concretos para a qualidade de vida.

O mistério do trânsito que sumiu

A maior preocupação antes da obra era o caos no trânsito. Afinal, como uma megacidade poderia simplesmente eliminar uma via que transportava quase 168 mil veículos por dia? Comerciantes temiam perder clientes e engenheiros previam paralisia. Mas o que aconteceu foi mais complexo e surpreendente. Em paralelo à demolição, Seul ampliou faixas exclusivas de ônibus, reformou o metrô e reduziu a dependência do carro particular.

O resultado é um fenômeno que urbanistas chamam de evaporação do tráfego, a lógica inversa da demanda induzida: às vezes, remover uma estrada faz parte dos motoristas simplesmente mudar a forma como se deslocam. Entre 2003 e 2008, o número de passageiros de ônibus cresceu 15,1% e o de metrô subiu 3,3%. O riacho deixou de ser um fluxo mecânico de carros apressados para se tornar um lugar onde as pessoas param: cerca de 64 mil visitantes por dia frequentam o Cheonggyecheon para caminhar, almoçar ou descansar.

Um movimento global de desenterrar rios

O impacto do Cheonggyecheon se espalhou rápido pelo mundo do planejamento urbano, tornando-se um dos exemplos mais famosos do movimento de revitalização de rios, conhecido como daylighting, que consiste em trazer de volta à luz cursos d’água antes enterrados sob concreto. O projeto rendeu a Seul o Prêmio Veronica Rudge Green de Design Urbano, concedido pela Universidade de Harvard, e os valores imobiliários ao redor do riacho subiram bem acima da média da cidade.

Cidades de todo o planeta passaram a olhar para casos parecidos. Em Madri, o projeto Madrid Río enterrou parte de uma rodovia para criar parques às margens do rio Manzanares. Em Boston, o Big Dig soterrou uma via expressa e devolveu espaço público à superfície. Em São Francisco, após o terremoto de 1989, a cidade optou por não reconstruir uma via elevada e transformou a orla em bulevar. Todos esses projetos refletem uma mudança de mentalidade: a natureza deixou de ser vista como obstáculo ao desenvolvimento para se tornar parte da solução de cidades mais habitáveis.

A história do Cheonggyecheon mostra que aquilo que um dia foi celebrado como progresso, a rodovia sobre o riacho, pode se tornar exatamente o que sufoca uma cidade. Seul enterrou um curso d’água para construir uma via expressa e, décadas depois, demoliu essa mesma via para trazer a água de volta. O caso é fascinante justamente por sua complexidade: um sucesso de renovação urbana e de qualidade de vida que, ao mesmo tempo, depende de bombeamento e manutenção constantes para existir, lembrando que recriar a natureza na cidade tem um preço.

Você acha que as cidades modernas deveriam continuar priorizando o concreto e os carros, ou criar mais espaço para a natureza e as pessoas, como Seul fez com o riacho Cheonggyecheon? Conhece algum rio ou córrego enterrado na sua cidade que poderia voltar à luz? Deixe seu comentário, conte de onde você está lendo e compartilhe a matéria com quem se interessa por urbanismo, meio ambiente e o futuro das cidades.

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Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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