A prefeitura de Criciúma iniciou estudos topográficos para projeto que prevê elevar a ferrovia Tereza Cristina a 7 metros do solo no trecho urbano, obra de R$ 250 milhões ainda sem data de execução, enquanto a concessão da ferrovia que transporta carvão ao Jorge Lacerda vence em 2027 e negocia renovação por 30 anos.
A prefeitura de Criciúma, no Sul de Santa Catarina, deu início nesta segunda-feira (4) aos estudos topográficos para um dos projetos mais ambiciosos da história recente do município: elevar a sete metros do solo o trecho da ferrovia Tereza Cristina (FTC) que corta a zona urbana. A intervenção, estimada em R$ 250 milhões e ainda em fase de planejamento, contempla a elevação dos trilhos da ferrovia desde a região do Rio Maina até o bairro Milanese, depois do cruzamento com a Avenida Centenário, numa tentativa de resolver conflito que existe desde que a cidade cresceu ao redor de uma malha ferroviária inaugurada em 1884. As equipes técnicas realizam medições em campo, conferência de níveis do terreno, identificação de pontos de referência e perfurações para análise do solo, trabalho que deve embasar os estudos de engenharia com previsão de conclusão até o final de 2026.
O projeto ganha relevância adicional por acontecer num momento em que a concessão da ferrovia Tereza Cristina, operada pela empresa Ferrovia Tereza Cristina S.A. desde 1º de fevereiro de 1997, vence em janeiro de 2027. A concessionária negocia com o Ministério dos Transportes e a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) a renovação por mais 30 anos, com investimento previsto de R$ 131 milhões que inclui R$ 30 milhões destinados especificamente à solução de conflitos urbanos nos 14 municípios atendidos pela ferrovia, valor que se conecta diretamente com o tipo de intervenção que Criciúma planeja. “Essa não é uma obra para agora, mas é um projeto no qual precisamos trabalhar desde já. A elevação da ferrovia é uma intervenção estruturante, pensada para as próximas décadas, e que pode transformar a relação da cidade com a linha férrea”, declarou Vagner Espindola, conhecido como Vaguinho, prefeito de Criciúma.
A ferrovia que Criciúma quer elevar existe desde 1884 e transporta carvão mineral

A ferrovia Tereza Cristina não é linha férrea comum: é malha estratégica para a matriz energética do Sul de Santa Catarina. Construída entre 1880 e 1884 pela companhia inglesa The Donna Theresa Christina Railway Company Limited sob concessão imperial, a ferrovia foi criada para transportar carvão mineral do interior catarinense ao Porto de Imbituba, função que mantém até hoje ao abastecer o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda em Capivari de Baixo, usina que depende do carvão transportado pelos trilhos para gerar energia. Em 29 anos de concessão privada, a ferrovia movimentou 78,1 milhões de toneladas de carvão e 4,96 milhões de toneladas de cargas conteinerizadas, números que dimensionam a escala logística que passa pelos mesmos trilhos que Criciúma quer elevar a sete metros do solo.
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A ferrovia se estende por 164 quilômetros de Siderópolis a Imbituba, cruzando 14 municípios catarinenses. O setor carbonífero que a ferrovia sustenta emprega cerca de 5 mil pessoas diretamente e outras 20 mil indiretamente, movimentando R$ 5 bilhões na economia regional, peso que torna qualquer intervenção na malha ferroviária questão que ultrapassa o interesse municipal e atinge a política energética e industrial de Santa Catarina. O conflito entre a ferrovia e o crescimento urbano de Criciúma é antigo: a cidade cresceu ao redor dos trilhos, não o contrário, e décadas de expansão sem planejamento específico para a convivência entre trens de carga e tráfego urbano produziram os gargalos que o projeto de R$ 250 milhões pretende resolver.
O que o projeto de elevação da ferrovia prevê e o que ainda falta
O projeto contempla erguer toda a estrutura da ferrovia a sete metros de altura no trecho urbano de Criciúma. A elevação liberaria o solo para passagem de veículos e pedestres sob os trilhos, eliminando cruzamentos de nível que atualmente interrompem o tráfego quando composições de carga passam, e criaria faixa de circulação livre que transformaria a relação entre a cidade e a ferrovia que a divide. O custo estimado de R$ 250 milhões posiciona o projeto como um dos maiores investimentos em infraestrutura urbana da história de Criciúma.
O que está em andamento agora, porém, é apenas o estágio inicial de um processo longo. Para a obra de fato sair do papel, ainda são necessários: conclusão dos estudos topográficos, elaboração do projeto executivo completo, análise de viabilidade técnica e financeira, licenciamento ambiental, definição da fonte de financiamento (que pode vir de recursos próprios, PAC, BNDES ou operação urbana consorciada), coordenação com a concessionária da ferrovia, possível aprovação da ANTT e licitação da obra. Nenhum desses passos foi concluído, e o prefeito Vaguinho deixa claro que o projeto é para “as próximas décadas”, não para o mandato atual, honestidade que diferencia planejamento sério de promessa eleitoral.
Como a renovação da concessão da ferrovia se conecta com o projeto de Criciúma
A coincidência temporal entre o projeto municipal e a negociação de renovação da concessão da ferrovia cria oportunidade que não existiria em outro momento. A Ferrovia Tereza Cristina S.A., sob a presidência de Benony Schmitz Filho, negocia renovação da concessão por mais 30 anos com investimento de R$ 131 milhões divididos em R$ 45 milhões para manutenção e melhorias da via férrea, R$ 56 milhões para modernização de locomotivas e vagões e R$ 30 milhões para solução de conflitos urbanos nos municípios atendidos pela ferrovia. Os R$ 30 milhões que a concessionária destina a conflitos urbanos são fração do R$ 250 milhões que Criciúma estima para a elevação, mas representam sinal de que a empresa reconhece o problema e está disposta a contribuir financeiramente.
A sinergia entre o projeto municipal e a renovação da concessão da ferrovia ainda não foi formalizada em acordo. Mas a lógica é evidente: Criciúma precisa resolver o conflito entre cidade e trilhos, a concessionária precisa resolver o mesmo conflito para renovar a concessão com apoio político dos municípios, e o governo federal precisa que ambos se entendam para manter a ferrovia operando como via logística estratégica para o Complexo Jorge Lacerda. Se a renovação for aprovada por mais 30 anos, a ferrovia Tereza Cristina seguirá transportando carvão e cargas conteinerizadas por Criciúma até 2057, cenário que torna a elevação dos trilhos investimento cuja utilidade se estende por décadas e cuja ausência se faz sentir a cada composição que para o trânsito da cidade.
O que o futuro do carvão e da ferrovia significa para Criciúma
O projeto de elevação da ferrovia acontece em contexto de incerteza sobre o futuro do carvão mineral na matriz energética brasileira. A Engie, gestora do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, anunciou que sairá das operações de carvão a partir de 2025, mas a usina pode seguir operando se um novo grupo investidor assumir, o que significa que a ferrovia continuará sendo peça logística essencial enquanto houver demanda por carvão na geração de energia. A diversificação da ferrovia para cargas conteinerizadas e produtos cerâmicos, por meio do Terminal Intermodal Sul (TIS) conectado ao Porto de Imbituba, é estratégia que reduz a dependência do carvão e pode sustentar a relevância da malha ferroviária mesmo num cenário de transição energética.
Para Criciúma, a elevação da ferrovia não depende do que acontecer com o carvão: o conflito urbano existe independentemente da carga que os trens carregam. Enquanto houver composições cruzando a cidade, haverá necessidade de solução que permita à ferrovia operar sem interromper o cotidiano de um município com mais de 200 mil habitantes que cresceu ao redor de trilhos centenários. O projeto de R$ 250 milhões é resposta que combina planejamento urbano com realismo logístico, e o estudo topográfico iniciado nesta segunda-feira é o primeiro passo concreto de um caminho que vai levar anos mas que precisa começar para que a solução chegue antes que o problema se torne inviável de resolver.
E você, acha que elevar a ferrovia a 7 metros é a melhor solução para Criciúma? Conhece outra cidade com conflito parecido entre ferrovia e zona urbana? Deixe sua opinião nos comentários.

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