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Construído dentro de uma cava de argila esgotada com 60 metros de profundidade e 15 metros abaixo do lençol freático, este complexo criou ‘biomas’ gigantes, drenou milhões de litros de água e transformou um buraco industrial no Eden Project

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 10/01/2026 às 13:25 Atualizado em 10/01/2026 às 13:30
Assista o vídeoComplexo foi construído dentro de uma cava de argila com 60 metros de profundidade, abaixo do lençol freático, exigindo drenagem e soluções inéditas de engenharia.
Complexo foi construído dentro de uma cava de argila com 60 metros de profundidade, abaixo do lençol freático, exigindo drenagem e soluções inéditas de engenharia.
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Projeto ergueu estufas gigantes dentro de uma cava de mineração na Cornualha e precisou enfrentar alagamentos, drenagem e instabilidade de encostas para funcionar abaixo do lençol freático, convertendo um vazio industrial em destino de visitação.

Erguido no interior de uma antiga cava de extração de argila na região de Bodelva, na Cornualha, o Eden Project consolidou um tipo de construção que começa onde a maioria das obras termina: no fundo de um vazio industrial.

O complexo abriu ao público em 2001, ocupando um terreno que antes era descrito como uma área estéril de mineração, com encostas expostas e alta propensão a alagamentos.

Em vez de recompor o relevo para “apagar” a cicatriz, o projeto assumiu o buraco como base e organizou a estrutura em torno dele, combinando recuperação paisagística e um conjunto de grandes estufas conhecido por “biomes” (biomas).

Profundidade de 60 metros e desafio do lençol freático

A cava escolhida para receber o empreendimento já havia sido explorada por décadas e apresentava limitações típicas de um ambiente de mineração: pouco ou nenhum solo superficial útil, áreas instáveis e histórico de entrada rápida de água em períodos de chuva.

Um relato técnico publicado no setor de construção e içamento descreveu o local como uma cava de argila com cerca de 60 metros de profundidade e com desafio permanente de controle hídrico, inclusive pela relação entre o fundo da cava e o nível de água subterrânea.

É nesse ponto que o “gancho” do Eden Project se impõe.

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A Instituição de Engenheiros Civis do Reino Unido (ICE) registrou que, nos primeiros meses, o clima se tornou um obstáculo de engenharia: 43 milhões de litros de chuva caíram em 90 dias, exigindo a criação de um sistema de drenagem específico.

A mesma fonte indica que o terreno estava cerca de 15 metros abaixo do lençol freático, o que aumenta a pressão para que a água encontre caminhos de entrada no interior da cava e dificulta qualquer trabalho de terraplenagem e fundação sem controle hidráulico rigoroso.

Alagamento durante a obra e drenagem em escala industrial

Outras descrições técnicas do período apontam números próximos, mas não idênticos, para essa relação com o lençol freático, indicando que as medições e recortes do canteiro podem variar conforme o ponto considerado.

No texto setorial que narra o episódio de alagamento durante a obra, o fundo é mencionado como estando por volta de 20 metros abaixo do lençol freático, ao mesmo tempo em que relata a necessidade de drenos de contenção e grandes áreas de retenção para viabilizar a movimentação inicial de terra e a continuidade dos trabalhos.

Ao tratar do Eden Project, portanto, há registro público de que a cava ficou em uma faixa de dezenas de metros abaixo do nível de água subterrânea, com referências técnicas situando o fundo entre 15 e 20 metros abaixo do lençol freático.

A água não apareceu apenas como “risco potencial”, mas como evento concreto.

Um material de divulgação científica que descreve a operação do local aponta que, após dois meses de chuva intensa, cerca de 43 milhões de galões — quase 163 milhões de litros — escorreram e se acumularam no fundo do poço.

A partir desse cenário, o texto descreve que foi necessário canalizar a água para evitar erosão do terreno e criar uma base estável, com captação e bombeamento integrados ao funcionamento do complexo.

Esse volume ajuda a dimensionar o que o título sugere ao falar em “drenar milhões de litros”: antes mesmo da experiência turística, a obra precisou lidar com massas de água compatíveis com enchentes localizadas, concentradas em um ponto baixo do relevo.

Biomas gigantes e estrutura leve com ETFE

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O desenho arquitetônico e estrutural foi pensado para se adaptar ao formato irregular da cava, e não para impor uma geometria rígida em um terreno “domado”.

A ICE relata que o arquiteto Nicholas Grimshaw buscou uma solução que acompanhasse as superfícies e desníveis do antigo poço, recorrendo ao conceito de “bolhas de sabão” como referência para volumes capazes de se acomodar ao espaço disponível.

Na prática, isso se traduziu em grandes cúpulas formadas por módulos transparentes em estrutura metálica, com painéis hexagonais que retêm ar entre camadas de ETFE, um material plástico descrito pela própria ICE como leve e resistente, permitindo reduzir peso e, consequentemente, parte das exigências de carga em um terreno já complexo por natureza.

Nesse contexto, os “biomas” não são apenas uma escolha estética.

Eles funcionam como grandes ambientes controlados para coleção de plantas e visitação, e a sua lógica construtiva se conecta ao desafio de construir dentro de uma cava: reduzir materiais, reduzir peso, aumentar eficiência estrutural e manter transparência para entrada de luz.

O mesmo texto da ICE associa a forma de “colmeia” dos módulos a ganhos de resistência com menos material, e registra que as estruturas foram concebidas como um ambiente quente para plantas, com tecnologia de fechamento que também tem papel no controle climático interno.

Recuperação de área degradada e novo habitat

Além das cúpulas, o Eden Project é apresentado pelos próprios envolvidos como um caso de requalificação de área degradada.

No material institucional do escritório Grimshaw, o local é descrito como um antigo “china clay pit” que ainda estava sendo escavado durante a fase de projeto e que foi transformado em um novo habitat, hoje inserido em uma área paisagística de 15 hectares.

Essa mudança de status — de área industrial quase inabitável para espaço de visitação, educação e programação cultural — aparece como parte central do propósito do empreendimento.

A recuperação do “chão” também exigiu soluções práticas que não existiam no cenário original da mineração.

O texto do HowStuffWorks descreve que, para sustentar a vegetação dos biomas, foi produzido um grande volume de solo revitalizado por meio da mistura de resíduos de argila com compostagem de resíduos verdes, criando um substrato capaz de suportar o cultivo no interior das estruturas.

Complexo foi construído dentro de uma cava de argila com 60 metros de profundidade, abaixo do lençol freático, exigindo drenagem e soluções inéditas de engenharia.
Complexo foi construído dentro de uma cava de argila com 60 metros de profundidade, abaixo do lençol freático, exigindo drenagem e soluções inéditas de engenharia.

A publicação menciona 85 mil toneladas de solo revitalizado produzidas para o projeto, um dado que ajuda a explicar por que a transformação do buraco industrial não se limitou a erguer domos, mas envolveu refazer condições básicas de suporte à vida vegetal em um ambiente antes dominado por rocha exposta e material estéril.

Captação de água e operação contínua do complexo

O aproveitamento de água também foi incorporado ao funcionamento cotidiano.

No mesmo material, a água captada é descrita como parte de um sistema que coleta, filtra e bombeia para usos internos, como irrigação e parte da infraestrutura hidráulica do complexo.

Embora esse tipo de descrição seja de divulgação e não um relatório de obra, o registro público reforça que o enfrentamento das chuvas e do lençol freático não ficou restrito à fase de construção: a água passou a ser tratada como componente operacional, com captação e condução pensadas para reduzir impactos de enxurradas e manter estabilidade de base.

Construir para baixo e operar um terreno já comprometido

O que chama atenção, do ponto de vista urbano e de engenharia, é que o Eden Project não precisou “esconder” a cava para funcionar.

Ele depende da própria cava para compor o microambiente, organizar circulação, orientar volumes e viabilizar uma paisagem que não existia ali antes.

O site oficial do empreendimento identifica o Eden Project como uma atração na Cornualha e mantém registro público de sua abertura em uma antiga cava de argila, baseando sua narrativa institucional na transformação do que antes era um vazio industrial.

Nesse recorte, o “construir para baixo” não se resume a cavar; envolve operar, por anos, um terreno que já nasceu comprometido pela mineração e que passou a exigir controle hídrico, contenção, recomposição de solo e estruturas leves em grande escala.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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