NextDC viu o indicador de uso de água chegar a 2,40 litros por kWh e o de eficiência energética piorar para 1,49; avanço ocorre enquanto Canberra avalia regras mais rígidas para a expansão dos data centers.
O aumento do consumo de água e energia em data centers ganhou um exemplo concreto na Austrália. A NextDC registrou piora pelo terceiro ano consecutivo em dois indicadores de eficiência de recursos, justamente enquanto a demanda por capacidade computacional ajudou a elevar sua receita em 16% e a empresa saiu de um prejuízo de A$ 60,5 milhões para um lucro líquido de A$ 82,1 milhões no ano encerrado em junho, conforme informou a Reuters.
O contraste coloca duas consequências da expansão da infraestrutura digital lado a lado. Por um lado, cresce a demanda por instalações capazes de sustentar computação em nuvem e cargas ligadas à inteligência artificial. Por outro, água e eletricidade necessárias para manter essas estruturas em funcionamento ganham atenção de governos e comunidades.
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Segundo os dados divulgados pela companhia, a eficiência no uso de água, medida pelo indicador WUE, passou de 2,25 para 2,40 litros por quilowatt-hora. Ao mesmo tempo, o PUE, usado para medir a eficiência no uso de eletricidade, subiu de 1,44 para 1,49.
Nos dois casos, um número maior representa piora do indicador.
Uso de água chega a 2,40 litros por kWh e eficiência piora pelo terceiro ano
O WUE, sigla em inglês para eficiência do uso da água, ajuda a relacionar o volume consumido por uma instalação à energia utilizada pelos equipamentos de tecnologia.
Na NextDC, esse indicador chegou a 2,40 litros por kWh no exercício encerrado em junho. No período anterior, estava em 2,25 litros por kWh.
Isso representa uma alta de aproximadamente 6,7%, cálculo feito a partir dos números divulgados.
Além disso, o indicador de eficiência energética PUE subiu de 1,44 para 1,49, uma piora de cerca de 3,5%.
O PUE compara a energia total consumida por um data center com aquela efetivamente destinada aos equipamentos de TI. Assim, o indicador também incorpora eletricidade necessária para refrigeração e outras funções de suporte.
Consequentemente, quanto mais próximo de 1 estiver o índice, menor tende a ser a parcela adicional destinada à infraestrutura que mantém os servidores operacionais.
A tendência chama atenção porque os dois indicadores pioraram durante três anos consecutivos.
Expansão dos data centers ajuda a explicar aumento no consumo de recursos
A própria empresa relacionou parte da mudança à expansão de suas operações.
Segundo a NextDC, novas capacidades entram em fase de comissionamento e precisam manter sistemas de refrigeração funcionando antes mesmo de todos os equipamentos de TI ocuparem a infraestrutura.
Nesse estágio, portanto, o data center já consome recursos necessários para operar, embora ainda não utilize integralmente sua capacidade computacional.

A companhia afirmou que o maior consumo de água refletiu uma combinação entre crescimento do portfólio e aumento das atividades em projetos operacionais, de expansão e comissionamento.
Esse movimento ocorre enquanto instalações digitais se tornam cada vez maiores e mais complexas, uma transformação semelhante à observada em outros grandes projetos de infraestrutura tecnológica que precisam ampliar capacidade para atender novas demandas.
Porém, a expansão não explica sozinha todos os números.
Revisão dos dados encontrou vazamentos e anomalias em medidores
Durante o exercício, a empresa também realizou um processo de reconciliação e validação das informações relacionadas à água.
Nesse trabalho, surgiram vazamentos isolados, anomalias em medidores de serviços públicos e diferenças entre registros das próprias instalações e dados das concessionárias.
Assim, parte da mudança nos indicadores também apareceu durante uma revisão mais detalhada das medições.
A distinção é importante. Os números não permitem atribuir toda a piora simplesmente ao crescimento da inteligência artificial ou a uma única causa operacional.
Na prática, a NextDC aponta uma combinação entre crescimento do portfólio, comissionamento, expansão das instalações e ajustes na medição dos recursos.
Ainda assim, a trajetória de três anos coloca o tema no centro de uma discussão maior.
Aumento do consumo de água e energia em data centers entra no radar de governos
O aumento do consumo de água e energia em data centers preocupa autoridades porque essas instalações disputam recursos com residências, empresas e outras atividades econômicas.
À medida que cresce a capacidade computacional instalada, também aumenta a necessidade de eletricidade. Além disso, determinados sistemas de refrigeração podem exigir volumes relevantes de água.
Por isso, governos, reguladores e cidades em diferentes partes do mundo começaram a discutir restrições à instalação de novos centros.
Entre as preocupações aparecem custos de eletricidade, disponibilidade de água, escassez de terrenos e impactos sobre comunidades locais.
A questão se torna ainda mais relevante com a expansão da inteligência artificial. Modelos maiores e aplicações de alta intensidade computacional exigem infraestrutura física para armazenar dados, realizar cálculos e manter milhares de equipamentos funcionando continuamente.
Ao mesmo tempo, a corrida tecnológica impulsiona pesquisas para tornar sistemas de computação e armazenamento de energia mais eficientes, justamente porque escala e consumo passam a caminhar juntos.
Austrália avalia obrigar novos data centers a criar fontes renováveis de energia
Na Austrália, a discussão já chegou ao governo federal.
Canberra avalia a criação de padrões nacionais obrigatórios para decisões relacionadas a energia, água e localização de data centers.
Além disso, uma proposta recente prevê que novos empreendimentos do setor desenvolvam novas fontes renováveis de eletricidade, em vez de simplesmente retirar toda a energia necessária da rede existente.
A lógica busca impedir que a expansão acelerada da infraestrutura digital pressione ainda mais um sistema elétrico que também atende consumidores e outras indústrias.
Por outro lado, qualquer exigência adicional pode alterar custos e cronogramas de novos projetos.
A questão, portanto, vai além da quantidade de servidores instalada. A próxima fase da expansão poderá depender também de onde virão a eletricidade e a água necessárias para sustentá-los.
Receita sobe 16% e NextDC transforma prejuízo de A$ 60,5 milhões em lucro
Enquanto os indicadores ambientais pioraram, os resultados financeiros avançaram.
A NextDC informou crescimento de 16% na receita no ano encerrado em junho.
Mais significativa foi a mudança no resultado líquido. A empresa havia registrado prejuízo de A$ 60,5 milhões no exercício anterior. Agora, reportou lucro líquido de A$ 82,1 milhões, equivalente a aproximadamente US$ 59,1 milhões pelo câmbio usado pela Reuters.
Contudo, há uma ressalva importante.
A virada para o lucro recebeu ajuda de uma mudança contábil que reconheceu ganho relacionado ao valor dos imóveis da companhia. Portanto, o lucro líquido não deve ser interpretado simplesmente como resultado direto do aumento da demanda por inteligência artificial.
Para observar melhor o desempenho operacional, outro indicador ajuda a completar o quadro.
EBITDA ajustado chega a A$ 248,8 milhões e supera previsão de analistas
O EBITDA subjacente da companhia cresceu 15%, chegando a A$ 248,8 milhões.
O resultado ficou acima da média das projeções de analistas compiladas pela Visible Alpha, segundo a Reuters.
Assim, mesmo com a ressalva contábil relacionada ao lucro líquido, a companhia também apresentou crescimento em uma medida ligada ao desempenho operacional.
O mercado reagiu positivamente.
As ações da NextDC subiam 3,3% no meio da sessão de sexta-feira após a divulgação dos números.
A companhia também vem ampliando sua infraestrutura para acompanhar a demanda. Em seu site oficial, a NextDC informa operar 18 data centers e manter um pipeline de desenvolvimento de 3 GW, dimensão que ajuda a mostrar a escala da expansão planejada.
Boom da IA transforma eletricidade, água e terreno em parte da disputa tecnológica
Durante anos, a discussão sobre inteligência artificial ficou concentrada principalmente em chips, algoritmos e capacidade computacional.
Agora, a infraestrutura física ganha protagonismo.
Cada nova expansão exige instalações, conexão elétrica, refrigeração e, dependendo da tecnologia utilizada, água. Dessa forma, a corrida por processamento começa a esbarrar em recursos que pertencem à economia física.
É uma transformação parecida com outras tecnologias que avançam rapidamente do laboratório para aplicações reais: aumentar a escala exige resolver limitações que não aparecem necessariamente na fase inicial de desenvolvimento, como ocorre com tecnologias desenvolvidas a partir de pesquisas.
No caso dos data centers, o desafio aparece nos próprios indicadores da NextDC.
A empresa cresceu financeiramente e ampliou sua capacidade operacional. Porém, simultaneamente, seus índices de eficiência de água e energia pioraram pelo terceiro ano consecutivo.
NextDC cresce, mas próxima etapa terá de enfrentar pressão por recursos
A trajetória resume uma das contradições da atual corrida pela inteligência artificial.
A demanda por computação ajudou a impulsionar os negócios da NextDC. A receita avançou 16%, o EBITDA subjacente alcançou A$ 248,8 milhões e a companhia passou de A$ 60,5 milhões de prejuízo para A$ 82,1 milhões de lucro líquido, embora este último resultado tenha recebido contribuição de uma mudança contábil.
Enquanto isso, o WUE chegou a 2,40 litros por kWh e o PUE subiu para 1,49.
Agora, a discussão deixa de ser apenas quanto poder computacional a indústria consegue instalar.
A pergunta passa a incluir quanta água, eletricidade e infraestrutura serão necessárias para mantê-lo funcionando — e quem deverá criar os recursos adicionais para sustentar essa expansão.
Você acredita que novos data centers de inteligência artificial deveriam ser obrigados a construir geração renovável própria antes de receber autorização para ampliar suas operações?

