Construção de 50 casas esféricas com 5,5 metros de diâmetro e 11 janelas para testar moradia de baixo custo, provoca debate sobre arquitetura fora do padrão e chama atenção de turistas, arquitetos e jornalistas no mundo.
No fim dos anos 1960, o governo holandês abriu a torneira para projetos habitacionais experimentais. Dessa leva nasceram ideias que ainda chamam atenção hoje, como as Casas Cubo, o complexo Kasbah e, no meio das casas de tijolos e canais sinuosos, um bairro que parece ter caído de outro planeta: o Bolwoningen.
Bolwoningen significa, literalmente, casas em forma de bola ou bulbo. E é isso mesmo: esferas que lembram bolas de golfe gigantes, montadas como um conjunto residencial real, com gente morando de verdade ali.
O resultado é curioso por um motivo simples. O projeto não virou padrão, não se espalhou como se imaginava, mas também não morreu. Seguiu em uso, com moradores satisfeitos, e com uma estética que ficou ainda mais fora do comum com o passar do tempo.
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Como a Holanda bancou moradias experimentais e por que o Bolwoningen nasceu em 1968
Em 1968, a Holanda destinou verba para a construção experimental de habitações de baixo custo. O Bolwoningen foi uma das propostas desse movimento, assinado por Dries Kreijkamp, arquiteto, designer industrial e escultor holandês.
A época era fértil para esse tipo de experiência. Outros exemplos conhecidos, como as Casas Cubo em Helmond e o complexo Kasbah em Hengelo, foram concluídos na década de 1970. O Bolwoningen surgiu no mesmo período, mas a construção foi adiada e só começou bem mais tarde.
O detalhe que mais chama atenção é que os problemas não acabaram quando decidiram começar a obra. A construção iniciou em 1980, o projeto acabou cancelado em 1984, e nesse intervalo várias mudanças precisaram ser feitas para atender regras e normas.
Do protótipo no quintal à base cilíndrica, as mudanças que o projeto sofreu até 1980
Antes de chegar a Den Bosch, Kreijkamp testou a ideia no próprio quintal, em Vlijmen. O protótipo inicial nem tinha base cilíndrica. Foram feitos dois modelos esféricos e um semi esférico colocados diretamente no chão.
O plano era repetir o conceito em Den Bosch, mas normas de construção empurraram o projeto para outra direção. A primeira mudança foi incorporar a base cilíndrica, que virou parte essencial da solução.
A segunda mudança foi ainda maior: material. A proposta original buscava algo leve e fácil de instalar, por isso Kreijkamp pensou em poliéster para garantir baixa massa. No entanto, o poliéster foi trocado por duas camadas de concreto armado com reforço de fibra de vidro, além de isolamento de lã de rocha.
Mesmo com concessões e alterações, ele via a fase de Den Bosch como apenas o começo, na expectativa de que a ideia se multiplicasse depois.
Números que colocam as casas esféricas no chão, 50 unidades, 5,5 m, 11 janelas e 55 m²
O Bolwoningen, como foi construído, reúne 50 casas esféricas em uso e virou atração turística. O formato foi defendido pelo próprio Kreijkamp como escolha lógica e eficiente.
Ele explicou em entrevistas que a esfera seria uma forma orgânica e natural, já que a vida estaria cercada de “redondeza”. Também argumentou que a esfera combina grande volume com menor área de superfície, exigindo menos material, economizando espaço, sendo ecológica e com pouca necessidade de manutenção.
Cada casa tem cerca de 5,5 metros de diâmetro e 11 janelas redondas. A proposta é de unidades que não exigem fundação permanente e podem ser construídas com baixo consumo de energia. Cada uma pesa 1250 kg e poderia ser montada ou transportada com facilidade.
Na prática, elas podem ser vistas como microcasas, adequadas para no máximo duas pessoas. O caminho imaginado era justamente a adaptabilidade: instalar em diferentes lugares para popularizar o conceito.
Entrada pela base, vida na esfera e um interior que troca paredes por plataformas abertas

O layout foge do óbvio. A base cilíndrica funciona como entrada e concentra escada, depósitos e áreas de serviço. A chegada à parte principal ocorre no andar superior, dentro da unidade esférica, onde ficam os espaços habitáveis.
O interior inclui quarto, sala de estar, cozinha e banheiro, organizados para que áreas mais usadas recebam a melhor iluminação possível. A cama é acessada por uma escada em espiral que contorna o interior da esfera, passando pelo lavabo e chegando à sala de estar e à cozinha.
A iluminação é parte do efeito. Uma luminária central no teto e seis janelas circulares de 1,20 metro de diâmetro deixam entrar muita luz. Em vez de cômodos tradicionais e níveis separados, a esfera se divide em plataformas abertas e espaços funcionais interligados. Isso reduz a sensação de aperto, mesmo com um interior de 55 metros quadrados de área útil.
O gancho aqui é o lado prático. A experiência é única, mas a decoração vira desafio. Como as paredes são curvas do chão ao teto, móveis comuns raramente se encaixam bem. Ainda assim, fotos divulgadas por moradores mostram que dá para adaptar e decorar, mesmo com essa geometria nada amigável.
Visitas do mundo inteiro, risco de demolição nos anos 1990 e restauração após rachaduras e infiltrações
Do início das discussões até o fim da construção, o assentamento experimental atraiu atenção. Depois de pronto, jornalistas, arquitetos e turistas de vários lugares foram conhecer as esferas de perto. Isso incentivou Kreijkamp a pensar em produção em massa, mas a segunda chance nunca veio.
Nos anos seguintes, ele chegou a criar centenas de projetos e orçamentos para desenvolver novos terrenos, porém não conseguiu uma nova encomenda. Com o tempo, surgiram reclamações de infiltrações e rachaduras, além do afundamento de uma das casas. Em meados da década de 1990, a companhia habitacional chegou a considerar a demolição.
As casas foram recuperadas após uma restauração completa e a adição de espaço de armazenamento em pequenas estruturas ligadas às hastes. Mesmo assim, a prefeitura recusou e não solicitou novos projetos.
Kreijkamp continuou tentando aprimorar a ideia até sua morte. Ele chegou a projetar casas flutuantes em forma de globo feitas de poliéster, movidas por energia eólica e solar e equipadas com motores de popa. Também encontrou uma fábrica em Dubai que poderia produzir as esferas de poliéster. No fim, nenhum desses planos saiu do papel.
O Bolwoningen seguiu existindo como um remanescente de uma fase em que o governo holandês apoiava projetos experimentais, permanecendo como protótipo, assim como as Casas Cubo. E é exatamente por isso que continua sendo visitado.
E você, moraria em uma casa esférica dessas, ou acha que a graça é só visitar e ir embora?


Interessante, precisa ver o custo
Aqui em Valinhos existe uma comunidade com estas casas.
Tem foto
Era uma casa muito engraçada…
Na rua Bobos, número zero!
Lembrei da canção do Vinícius.