1. Início
  2. Geopolítica
  3. Como os EUA queriam transformar a Groenlândia em uma cidade nuclear sob o gelo, com 130 mil km² de túneis, reator atômico e mísseis móveis no auge da Guerra Fria
Faça um comentário 5 min de leitura

Como os EUA queriam transformar a Groenlândia em uma cidade nuclear sob o gelo, com 130 mil km² de túneis, reator atômico e mísseis móveis no auge da Guerra Fria

Imagem de perfil do autor Romário Pereira de Carvalho
Escrito por Romário Pereira de Carvalho Publicado em 16/01/2026 às 20:10 Atualizado em 16/01/2026 às 20:13
Assista o vídeoGroenlândia, Gelo, Cidade nuclear
Imagem: Exército dos EUA
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Após teste nuclear soviético, Washington concebeu o Projeto Iceworm, planejando túneis gigantes, mísseis móveis e bases ocultas na Groenlândia, revelando riscos tecnológicos, acordos diplomáticos silenciosos e impactos ambientais duradouros posteriores

Após o fim do monopólio nuclear dos Estados Unidos em 1949, quando a União Soviética testou sua bomba, estratégias secretas surgiram, incluindo um plano para esconder mísseis sob o gelo da Groenlândia.

O teste soviético de 1949 encerrou uma vantagem estratégica inédita iniciada em 1945 e levou Washington a rever urgentemente suas doutrinas militares e de defesa.

A partir desse momento, a lógica da dissuasão nuclear passou a orientar decisões políticas e militares, ampliando o investimento em projetos sigilosos e tecnologicamente arriscados.

Cidade nuclear na Groenlândia: Armas escondidas no Ártico

Nesse contexto, o Exército americano idealizou um plano considerado extremo mesmo para padrões da Guerra Fria, envolvendo túneis subterrâneos sob a calota polar.

A proposta consistia em criar uma rede capaz de ocultar mísseis nucleares móveis, reduzindo vulnerabilidades e assegurando retaliação em caso de ataque soviético.

A Groenlândia foi escolhida por sua localização estratégica entre América do Norte e Ásia, além da dificuldade natural de monitoramento por potências rivais.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Acordos políticos e silêncio nuclear

Na década de 1950, a Groenlândia era território autônomo sob soberania da Dinamarca, o que exigiu negociações diplomáticas cuidadosas.

Um acordo firmado em 1951 permitiu aos EUA instalar bases militares, incluindo a Base Aérea de Thule, sem mencionar armamentos nucleares explicitamente.

Esse silêncio jurídico foi essencial para viabilizar planos mais amplos, evitando resistência política interna e internacional naquele momento sensível.

Distância, gelo e dissuasão

Documentos ultrassecretos analisados mais tarde pela Atomic Heritage Foundation detalharam por que a Groenlândia parecia ideal estrategicamente.

A distância de cerca de 4.800 km até Moscou permitiria tempos de resposta reduzidos, fortalecendo a chamada capacidade de segundo ataque.

O gelo espesso oferecia camuflagem natural, dificultando detecção aérea ou por satélites ainda limitados tecnologicamente nos anos iniciais da Guerra Fria.

Um plano de escala colossal

O projeto previa escavar aproximadamente 130 mil km² de túneis, área equivalente a três vezes o território dinamarquês, algo sem precedentes históricos.

Dentro dessa rede, 600 mísseis balísticos de médio alcance Iceman circulariam constantemente para evitar localização precisa pelo inimigo.

A infraestrutura incluiria uma cidade subterrânea com dormitórios, hospital, escola, refeitórios, cinema e presença permanente de cerca de 11 mil soldados.

Camp Century como fachada

Para testar a viabilidade, o Exército construiu o Camp Century em 1958, apresentado publicamente como centro científico no Ártico.

Na prática, o local funcionava como laboratório militar, validando técnicas de escavação, habitação e sobrevivência sob gelo extremo.

A escolha de uma narrativa científica reduziu questionamentos públicos e manteve o verdadeiro objetivo protegido por vários anos.

Condições extremas e desafios técnicos

Localizado a cerca de 240 km de Thule, o acampamento enfrentava temperaturas de até –57 °C e ventos superiores a 190 km/h.

O transporte de suprimentos exigiu uma logística lenta, com trenós avançando a 3 km/h em trajetos que duravam aproximadamente 70 horas.

Essas condições testaram limites humanos e materiais, revelando desafios não totalmente previstos nos planos iniciais.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Engenharia sob pressão constante

Os túneis foram escavados em trincheiras profundas, reforçados com arcos de aço e novamente soterrados pela própria neve removida.

A galeria principal, chamada Main Street, possuía cerca de 300 metros e conectava estruturas essenciais do acampamento subterrâneo.

Ao todo, foram construídos 26 túneis, totalizando pouco mais de 3 km, segundo o portal All That’s Interesting.

Energia nuclear no gelo

Em 1960, Camp Century tornou-se pioneiro ao operar com o reator nuclear portátil PM-2A, fornecendo energia contínua à instalação.

Para sustentar a imagem pública, o Exército produziu um documentário exaltando a suposta cidade científica construída sob o gelo.

Essa comunicação ajudou a reforçar a fachada pacífica enquanto testes militares prosseguiam discretamente.

O início do colapso estrutural

Apesar da inovação, a calota de gelo mostrou-se instável, movendo-se continuamente e deformando túneis com o passar do tempo.

Em 1962, o teto da sala do reator afundou quase 1,5 metro, conforme destacou a revista Aventuras na História.

O episódio evidenciou riscos crescentes e colocou em xeque a viabilidade do empreendimento.

Limites do projeto Iceworm

O frio extremo tornava o metal quebradiço, elevando riscos de falhas e acidentes nucleares potencialmente graves no interior do gelo.

Dos mais de 80 mil km de túneis planejados, apenas cerca de 3 km foram efetivamente construídos durante toda a operação.

O reator funcionou por apenas 33 meses, e a população nunca ultrapassou 200 pessoas, muito abaixo dos 11 mil previstos.

Cancelamento e abandono do projeto

Em 1963, o projeto foi oficialmente encerrado, reconhecendo-se que os desafios técnicos superavam os benefícios estratégicos esperados.

O Camp Century seguiu operando de forma reduzida até 1966, quando foi finalmente abandonado pelo Exército americano.

O reator foi removido, mas resíduos perigosos permaneceram enterrados sob o gelo.

Resíduos e revelações tardias

Ficaram no local combustível diesel, águas residuais, equipamentos, produtos químicos tóxicos e materiais radioativos diversos.

Somente cerca de três décadas depois, nos anos 1990, a real finalidade militar do Camp Century tornou-se pública.

A revelação reacendeu debates sobre responsabilidades ambientais e decisões estratégicas da Guerra Fria.

Redescoberta científica recente

Décadas depois, cientistas da Nasa identificaram estruturas do acampamento usando radares de penetração em sobrevoos científicos.

O achado demonstrou como vestígios do período ainda permanecem preservados sob camadas espessas de gelo.

Essas descobertas trouxeram novas preocupações sobre o futuro desses resíduos diante do aquecimento global.

Legado geopolítico persistente

Como observa o The Conversation, a presença americana na Groenlândia reflete ambições estratégicas de longa data.

Mesmo décadas depois, decisões tomadas naquele contexto continuam influenciando debates sobre meio ambiente e segurança no Ártico.

A história do projeto revela como soluções grandiosas ignoraram impactos duradouros, uma estratégia cujas consequências ainda emergem hoje.

Com informações de Revista Galileu.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Romário Pereira de Carvalho

Já publiquei milhares de matérias em portais reconhecidos, sempre com foco em conteúdo informativo, direto e com valor para o leitor. Fique à vontade para enviar sugestões ou perguntas

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x