Após teste nuclear soviético, Washington concebeu o Projeto Iceworm, planejando túneis gigantes, mísseis móveis e bases ocultas na Groenlândia, revelando riscos tecnológicos, acordos diplomáticos silenciosos e impactos ambientais duradouros posteriores
Após o fim do monopólio nuclear dos Estados Unidos em 1949, quando a União Soviética testou sua bomba, estratégias secretas surgiram, incluindo um plano para esconder mísseis sob o gelo da Groenlândia.
O teste soviético de 1949 encerrou uma vantagem estratégica inédita iniciada em 1945 e levou Washington a rever urgentemente suas doutrinas militares e de defesa.
A partir desse momento, a lógica da dissuasão nuclear passou a orientar decisões políticas e militares, ampliando o investimento em projetos sigilosos e tecnologicamente arriscados.
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Cidade nuclear na Groenlândia: Armas escondidas no Ártico
Nesse contexto, o Exército americano idealizou um plano considerado extremo mesmo para padrões da Guerra Fria, envolvendo túneis subterrâneos sob a calota polar.
A proposta consistia em criar uma rede capaz de ocultar mísseis nucleares móveis, reduzindo vulnerabilidades e assegurando retaliação em caso de ataque soviético.
A Groenlândia foi escolhida por sua localização estratégica entre América do Norte e Ásia, além da dificuldade natural de monitoramento por potências rivais.
Acordos políticos e silêncio nuclear
Na década de 1950, a Groenlândia era território autônomo sob soberania da Dinamarca, o que exigiu negociações diplomáticas cuidadosas.
Um acordo firmado em 1951 permitiu aos EUA instalar bases militares, incluindo a Base Aérea de Thule, sem mencionar armamentos nucleares explicitamente.
Esse silêncio jurídico foi essencial para viabilizar planos mais amplos, evitando resistência política interna e internacional naquele momento sensível.
Distância, gelo e dissuasão
Documentos ultrassecretos analisados mais tarde pela Atomic Heritage Foundation detalharam por que a Groenlândia parecia ideal estrategicamente.
A distância de cerca de 4.800 km até Moscou permitiria tempos de resposta reduzidos, fortalecendo a chamada capacidade de segundo ataque.
O gelo espesso oferecia camuflagem natural, dificultando detecção aérea ou por satélites ainda limitados tecnologicamente nos anos iniciais da Guerra Fria.
Um plano de escala colossal
O projeto previa escavar aproximadamente 130 mil km² de túneis, área equivalente a três vezes o território dinamarquês, algo sem precedentes históricos.
Dentro dessa rede, 600 mísseis balísticos de médio alcance Iceman circulariam constantemente para evitar localização precisa pelo inimigo.
A infraestrutura incluiria uma cidade subterrânea com dormitórios, hospital, escola, refeitórios, cinema e presença permanente de cerca de 11 mil soldados.
Camp Century como fachada
Para testar a viabilidade, o Exército construiu o Camp Century em 1958, apresentado publicamente como centro científico no Ártico.
Na prática, o local funcionava como laboratório militar, validando técnicas de escavação, habitação e sobrevivência sob gelo extremo.
A escolha de uma narrativa científica reduziu questionamentos públicos e manteve o verdadeiro objetivo protegido por vários anos.
Condições extremas e desafios técnicos
Localizado a cerca de 240 km de Thule, o acampamento enfrentava temperaturas de até –57 °C e ventos superiores a 190 km/h.
O transporte de suprimentos exigiu uma logística lenta, com trenós avançando a 3 km/h em trajetos que duravam aproximadamente 70 horas.
Essas condições testaram limites humanos e materiais, revelando desafios não totalmente previstos nos planos iniciais.
Engenharia sob pressão constante
Os túneis foram escavados em trincheiras profundas, reforçados com arcos de aço e novamente soterrados pela própria neve removida.
A galeria principal, chamada Main Street, possuía cerca de 300 metros e conectava estruturas essenciais do acampamento subterrâneo.
Ao todo, foram construídos 26 túneis, totalizando pouco mais de 3 km, segundo o portal All That’s Interesting.
Energia nuclear no gelo
Em 1960, Camp Century tornou-se pioneiro ao operar com o reator nuclear portátil PM-2A, fornecendo energia contínua à instalação.
Para sustentar a imagem pública, o Exército produziu um documentário exaltando a suposta cidade científica construída sob o gelo.
Essa comunicação ajudou a reforçar a fachada pacífica enquanto testes militares prosseguiam discretamente.
O início do colapso estrutural
Apesar da inovação, a calota de gelo mostrou-se instável, movendo-se continuamente e deformando túneis com o passar do tempo.
Em 1962, o teto da sala do reator afundou quase 1,5 metro, conforme destacou a revista Aventuras na História.
O episódio evidenciou riscos crescentes e colocou em xeque a viabilidade do empreendimento.
Limites do projeto Iceworm
O frio extremo tornava o metal quebradiço, elevando riscos de falhas e acidentes nucleares potencialmente graves no interior do gelo.
Dos mais de 80 mil km de túneis planejados, apenas cerca de 3 km foram efetivamente construídos durante toda a operação.
O reator funcionou por apenas 33 meses, e a população nunca ultrapassou 200 pessoas, muito abaixo dos 11 mil previstos.
Cancelamento e abandono do projeto
Em 1963, o projeto foi oficialmente encerrado, reconhecendo-se que os desafios técnicos superavam os benefícios estratégicos esperados.
O Camp Century seguiu operando de forma reduzida até 1966, quando foi finalmente abandonado pelo Exército americano.
O reator foi removido, mas resíduos perigosos permaneceram enterrados sob o gelo.
Resíduos e revelações tardias
Ficaram no local combustível diesel, águas residuais, equipamentos, produtos químicos tóxicos e materiais radioativos diversos.
Somente cerca de três décadas depois, nos anos 1990, a real finalidade militar do Camp Century tornou-se pública.
A revelação reacendeu debates sobre responsabilidades ambientais e decisões estratégicas da Guerra Fria.
Redescoberta científica recente
Décadas depois, cientistas da Nasa identificaram estruturas do acampamento usando radares de penetração em sobrevoos científicos.
O achado demonstrou como vestígios do período ainda permanecem preservados sob camadas espessas de gelo.
Essas descobertas trouxeram novas preocupações sobre o futuro desses resíduos diante do aquecimento global.
Legado geopolítico persistente
Como observa o The Conversation, a presença americana na Groenlândia reflete ambições estratégicas de longa data.
Mesmo décadas depois, decisões tomadas naquele contexto continuam influenciando debates sobre meio ambiente e segurança no Ártico.
A história do projeto revela como soluções grandiosas ignoraram impactos duradouros, uma estratégia cujas consequências ainda emergem hoje.
Com informações de Revista Galileu.

