Petrobras pode sentir efeitos indiretos da crise na Venezuela, com impacto no preço do petróleo, nos lucros da estatal e na política de combustíveis no Brasil.
Petrobras voltou ao centro do debate energético após a intensificação da crise política e institucional na Venezuela, que reacendeu expectativas sobre uma possível ampliação da oferta global de petróleo.
Caso os Estados Unidos consigam exercer maior controle sobre as reservas venezuelanas, o mercado tende a reagir com ajustes nos preços internacionais da commodity, o que pode gerar efeitos indiretos relevantes para a estatal brasileira.
Analistas avaliam que a simples percepção de retorno de investimentos privados na Venezuela já é suficiente para pressionar as cotações do barril. Isso ocorre porque o país possui uma das maiores reservas comprovadas do mundo, ainda que sua produção atual seja limitada por falta de capital, tecnologia e estabilidade política.
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Expectativa de queda do barril pressiona margens das petroleiras
Segundo o economista Adriano Pires, diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a leitura do mercado é decisiva. “Se o mercado acreditar que realmente o Trump vai tomar conta da Venezuela e que as empresas americanas e outras privadas vão voltar a investir no país no curto prazo, a tendência é de queda no preço do barril”.
Esse cenário não é trivial para a Petrobras. Preços mais baixos reduzem a receita da companhia, especialmente após um período já marcado por forte desvalorização da commodity. Em 2025, o barril do WTI acumulou queda de 19,9%, enquanto o Brent recuou cerca de 14,3%, registrando um dos piores desempenhos desde 2020.
“Para a Petrobras não é bom, porque perde receita”, reforça Pires, ao destacar que a estatal segue altamente sensível às oscilações do mercado internacional.
Reação inicial do mercado contrasta com visão de médio prazo
No primeiro pregão após a operação americana na Venezuela, o petróleo chegou a registrar alta próxima de 1%. O movimento, porém, foi interpretado como pontual. Para o advogado Marcelo Godke, especialista em Direito Internacional Empresarial, a reação inicial reflete o aumento da percepção de risco.
“Isso ocorre principalmente porque esse tipo de evento gera insegurança, e a insegurança é um fator básico para a elevação do preço de qualquer produto ou de commodities”, explica. Ainda assim, ele pondera que, no médio e no longo prazos, a lógica tende a se inverter, com maior oferta pressionando as cotações para baixo.
Possíveis impactos nos lucros e novas oportunidades de atuação
Os efeitos de médio e longo prazo para a Petrobras ainda são incertos. Caso a produção global aumente de forma consistente, a estatal pode enfrentar margens mais apertadas. Por outro lado, a reabertura do mercado venezuelano também pode criar oportunidades.
Adriano Pires avalia que nem todos os ativos da Venezuela interessam às gigantes americanas. “Um campo de 20 mil barris não é para Chevron. Um campo desses, por exemplo, pode atrair empresas de médio porte americanas, canadenses, ou até brasileiras, como PetroReconcavo ou Prio”, afirma.
Nesse contexto, a Petrobras poderia avaliar parcerias, projetos específicos ou até prestação de serviços, dependendo das condições políticas e regulatórias que venham a ser estabelecidas.
Exportações brasileiras devem seguir dinâmica própria
Especialistas ouvidos pelo mercado financeiro avaliam que as exportações brasileiras de petróleo não devem sofrer impactos relevantes no curto prazo. O economista Simão Silber, professor da Universidade de São Paulo (USP), explica que um eventual aumento da produção venezuelana voltada aos Estados Unidos poderia alterar fluxos regionais.
“Por outro lado, abrem-se outros mercados. Particularmente o asiático fica mais favorável para o Brasil na medida em que houver um desvio do abastecimento do petróleo venezuelano”, afirma Silber.
Historicamente, a Venezuela direcionava grande parte de seu petróleo para a China, país com escassez de reservas próprias. Qualquer mudança nesse arranjo tende a redistribuir mercados, sem necessariamente reduzir o espaço brasileiro.
Além disso, a produção nacional segue influenciada pelas decisões da Opep+, que controla cotas e volumes globais. Embora o grupo enfrente desgaste institucional, ainda exerce papel relevante na formação de preços.
Combustíveis no Brasil: queda possível, mas incerta
Um dos pontos mais sensíveis do debate envolve o preço dos combustíveis no Brasil. Em tese, um petróleo mais barato abre espaço para reduções nas bombas. No entanto, a política de preços da Petrobras adiciona um grau elevado de incerteza.
Desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a estatal adotou um novo modelo que substituiu formalmente a política de Paridade de Importação (PPI). O objetivo declarado é reduzir a volatilidade externa para o consumidor, mas o método de cálculo não foi divulgado.
“Como o modelo de preços do petróleo aqui é muito controlado, alterações de preços vão depender fundamentalmente do governo. Mas, se tiver uma mudança, será para baixo, não para cima”, avalia Simão Silber.
Adriano Pires acrescenta que fatores políticos e eleitorais podem acelerar esse movimento, já que o preço dos combustíveis impacta diretamente a inflação e, por consequência, o debate sobre juros.
Incertezas políticas mantêm cenário em aberto
Apesar das projeções, o futuro do mercado segue condicionado à evolução da situação venezuelana. Para o cientista político Leonardo Paz, da FGV, o cenário ainda carece de definições claras.
“A gente tem que buscar entender como vai ser uma eventual transição política. A Delcy Rodríguez vai ficar no poder até efetivamente terminar o mandato do Maduro? Ela vai convocar novas eleições? Não sabemos”, afirma.
Caso a instabilidade se prolongue e os planos de ampliação da produção fracassem, o efeito pode ser oposto ao esperado, com novas pressões de alta sobre o petróleo. Para o economista Carlos Honorato, da FIA Business School, a cautela é essencial: “Eu acho que tem que ficar bem cuidadoso com o petróleo, porque não temos essa notícia boa vindo imediatamente”.


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