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Como a crise venezuelana afeta a Petrobras? Instabilidade regional pode mexer com o petróleo, os lucros da estatal e o preço do combustível no Brasil

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 12/01/2026 às 11:21
Assista o vídeoPetrobras pode sentir efeitos indiretos da crise na Venezuela, com impacto no preço do petróleo, nos lucros da estatal e na política de combustíveis no Brasil.
Petrobras pode sentir efeitos indiretos da crise na Venezuela, com impacto no preço do petróleo, nos lucros da estatal e na política de combustíveis no Brasil.
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Petrobras pode sentir efeitos indiretos da crise na Venezuela, com impacto no preço do petróleo, nos lucros da estatal e na política de combustíveis no Brasil.

Petrobras voltou ao centro do debate energético após a intensificação da crise política e institucional na Venezuela, que reacendeu expectativas sobre uma possível ampliação da oferta global de petróleo. 

Caso os Estados Unidos consigam exercer maior controle sobre as reservas venezuelanas, o mercado tende a reagir com ajustes nos preços internacionais da commodity, o que pode gerar efeitos indiretos relevantes para a estatal brasileira.

Analistas avaliam que a simples percepção de retorno de investimentos privados na Venezuela já é suficiente para pressionar as cotações do barril. Isso ocorre porque o país possui uma das maiores reservas comprovadas do mundo, ainda que sua produção atual seja limitada por falta de capital, tecnologia e estabilidade política.

Expectativa de queda do barril pressiona margens das petroleiras

Segundo o economista Adriano Pires, diretor fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a leitura do mercado é decisiva. “Se o mercado acreditar que realmente o Trump vai tomar conta da Venezuela e que as empresas americanas e outras privadas vão voltar a investir no país no curto prazo, a tendência é de queda no preço do barril”.

Esse cenário não é trivial para a Petrobras. Preços mais baixos reduzem a receita da companhia, especialmente após um período já marcado por forte desvalorização da commodity. Em 2025, o barril do WTI acumulou queda de 19,9%, enquanto o Brent recuou cerca de 14,3%, registrando um dos piores desempenhos desde 2020.

“Para a Petrobras não é bom, porque perde receita”, reforça Pires, ao destacar que a estatal segue altamente sensível às oscilações do mercado internacional.

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Reação inicial do mercado contrasta com visão de médio prazo

No primeiro pregão após a operação americana na Venezuela, o petróleo chegou a registrar alta próxima de 1%. O movimento, porém, foi interpretado como pontual. Para o advogado Marcelo Godke, especialista em Direito Internacional Empresarial, a reação inicial reflete o aumento da percepção de risco.

“Isso ocorre principalmente porque esse tipo de evento gera insegurança, e a insegurança é um fator básico para a elevação do preço de qualquer produto ou de commodities”, explica. Ainda assim, ele pondera que, no médio e no longo prazos, a lógica tende a se inverter, com maior oferta pressionando as cotações para baixo.

Possíveis impactos nos lucros e novas oportunidades de atuação

Os efeitos de médio e longo prazo para a Petrobras ainda são incertos. Caso a produção global aumente de forma consistente, a estatal pode enfrentar margens mais apertadas. Por outro lado, a reabertura do mercado venezuelano também pode criar oportunidades.

Adriano Pires avalia que nem todos os ativos da Venezuela interessam às gigantes americanas. “Um campo de 20 mil barris não é para Chevron. Um campo desses, por exemplo, pode atrair empresas de médio porte americanas, canadenses, ou até brasileiras, como PetroReconcavo ou Prio”, afirma.

Nesse contexto, a Petrobras poderia avaliar parcerias, projetos específicos ou até prestação de serviços, dependendo das condições políticas e regulatórias que venham a ser estabelecidas.

Exportações brasileiras devem seguir dinâmica própria

Especialistas ouvidos pelo mercado financeiro avaliam que as exportações brasileiras de petróleo não devem sofrer impactos relevantes no curto prazo. O economista Simão Silber, professor da Universidade de São Paulo (USP), explica que um eventual aumento da produção venezuelana voltada aos Estados Unidos poderia alterar fluxos regionais.

“Por outro lado, abrem-se outros mercados. Particularmente o asiático fica mais favorável para o Brasil na medida em que houver um desvio do abastecimento do petróleo venezuelano”, afirma Silber.

Historicamente, a Venezuela direcionava grande parte de seu petróleo para a China, país com escassez de reservas próprias. Qualquer mudança nesse arranjo tende a redistribuir mercados, sem necessariamente reduzir o espaço brasileiro.

Além disso, a produção nacional segue influenciada pelas decisões da Opep+, que controla cotas e volumes globais. Embora o grupo enfrente desgaste institucional, ainda exerce papel relevante na formação de preços.

Combustíveis no Brasil: queda possível, mas incerta

Um dos pontos mais sensíveis do debate envolve o preço dos combustíveis no Brasil. Em tese, um petróleo mais barato abre espaço para reduções nas bombas. No entanto, a política de preços da Petrobras adiciona um grau elevado de incerteza.

Desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a estatal adotou um novo modelo que substituiu formalmente a política de Paridade de Importação (PPI). O objetivo declarado é reduzir a volatilidade externa para o consumidor, mas o método de cálculo não foi divulgado.

“Como o modelo de preços do petróleo aqui é muito controlado, alterações de preços vão depender fundamentalmente do governo. Mas, se tiver uma mudança, será para baixo, não para cima”, avalia Simão Silber.

Adriano Pires acrescenta que fatores políticos e eleitorais podem acelerar esse movimento, já que o preço dos combustíveis impacta diretamente a inflação e, por consequência, o debate sobre juros.

Incertezas políticas mantêm cenário em aberto

Apesar das projeções, o futuro do mercado segue condicionado à evolução da situação venezuelana. Para o cientista político Leonardo Paz, da FGV, o cenário ainda carece de definições claras.

“A gente tem que buscar entender como vai ser uma eventual transição política. A Delcy Rodríguez vai ficar no poder até efetivamente terminar o mandato do Maduro? Ela vai convocar novas eleições? Não sabemos”, afirma.

Caso a instabilidade se prolongue e os planos de ampliação da produção fracassem, o efeito pode ser oposto ao esperado, com novas pressões de alta sobre o petróleo. Para o economista Carlos Honorato, da FIA Business School, a cautela é essencial: “Eu acho que tem que ficar bem cuidadoso com o petróleo, porque não temos essa notícia boa vindo imediatamente”.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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