A história de Alimata Bara revela como a migração econômica transformou casamentos, renda familiar e a rotina de mulheres que esperam por maridos ausentes há anos
Uma realidade social de grande impacto familiar marca Beguédo, pequeno vilarejo localizado no leste de Burquina Fasso, na África Ocidental. A região ficou conhecida pela presença das chamadas “esposas solteiras”, mulheres casadas com homens que migraram para trabalhar no exterior e que passam anos, às vezes décadas, sem conviver com eles. Entre essas mulheres está Alimata Bara, comerciante que se casou em 2009, aos 17 anos, com Saada, um dos chamados “italianos”, apelido dado aos migrantes econômicos que foram para a Itália em busca de trabalho. O casal acreditava que ela também iria para o exterior e deixaria para trás as dificuldades da vida rural, mas a crise econômica europeia e as mudanças nas políticas migratórias frustraram esse plano.
Migração econômica mudou o destino de muitas famílias
Logo após o casamento, Saada perdeu o emprego e não conseguiu levar Alimata para a Itália. Desde então, voltou a Beguédo apenas duas vezes, e o casal passou menos de seis meses junto entre 2009 e 2015. Com isso, Alimata permaneceu na casa da família do marido, como manda o costume local, e assumiu os cuidados da filha Omayma, do filho Obaidou e dos sogros idosos. Além da rotina doméstica, ela trabalha na roça, cozinha e organiza a vida da família, tornando-se a principal cuidadora e provedora da casa.
Comércio de carvão virou alternativa de sobrevivência
O dinheiro enviado por Saada chegava apenas de tempos em tempos e em valores baixos. Por isso, Alimata decidiu construir sua própria fonte de renda. Durante a gravidez da filha, vendia verduras no mercado, mesmo passando horas sob o sol e enfrentando o cansaço físico. Com as economias, comprou sacos de carvão para revender e, aos poucos, reinvestiu os lucros no pequeno negócio. Hoje, mantém cerca de 30 sacos de carvão guardados em um abrigo construído em frente à casa. Quando consegue tempo, também pedala até a roça da mãe para ajudar no cultivo de quiabo, painço, cebola e amendoim.
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Tradição local passou a conviver com casamentos rápidos
Segundo Mahamadou Zongo, sociólogo e professor da Universidade de Uagadugu, a migração possui forte peso social em Beguédo. Na região, quem não migra pode ser visto como alguém sem perspectiva, já que partir para o exterior é entendido quase como uma passagem para a vida adulta. No passado, os casamentos rurais eram planejados durante meses, e o pretendente precisava trabalhar na fazenda dos futuros sogros para provar responsabilidade. Com a migração, esse processo mudou. Muitos homens escolhem esposas em visitas curtas, casam rapidamente e retornam para a Europa.
Promessas de retorno ficaram mais difíceis de cumprir
Os migrantes costumam prometer visitas frequentes ou a ida das esposas para o exterior quando conseguem estabilidade financeira. Porém, essa realidade foi mais comum entre homens que migraram antes da crise econômica europeia. Os mais jovens enfrentam empregos precários, baixa renda e longos períodos sem conseguir voltar. A diferença aparece nas ruas de Beguédo, onde casas simples dos “novos italianos” ficam ao lado de construções maiores feitas pelos “velhos italianos”, que conseguiram enviar mais dinheiro e retornar com maior frequência.

“Esposas solteiras” assumem o centro da vida familiar
Mais da metade das mulheres com filhos em Beguédo vive situação semelhante, segundo o relato original. Algumas enfrentam ainda o abandono quando os maridos se casam novamente ou retornam com novas companheiras. Diante desse risco, parte das esposas guarda pequenas economias sem informar aos maridos, como forma de proteção. Outras acabam dependendo financeiramente dos próprios filhos. Por causa dessa forte ligação com os migrantes que vivem na Itália, Beguédo passou a ser chamada de “pequena Itália”.
Ausência prolongada expõe arrependimentos e incertezas
Alimata já não espera viver na Itália. Hoje, seu desejo principal é que Saada volte para casa. Os dois ainda conversam por Skype quando ela vai a um pequeno cibercafé em Beguédo, mas a distância segue definindo a vida do casal. A história também revela outro efeito social importante: muitas mulheres se arrependem de ter abandonado a escola cedo para se casar. Com uma profissão, acreditam que poderiam enfrentar a ausência dos maridos com mais autonomia e menos dependência.
Você acredita que a migração econômica ainda representa esperança para essas famílias ou os custos sociais se tornaram maiores que os benefícios?

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