A Indonésia é a segunda na liderança do cultivo mundial de algas com mais de 9 milhões de toneladas por ano e transforma o setor em um gigante global da indústria cosmética e alimentícia.
Em 2024, a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) voltou a colocar a Indonésia no topo da aquicultura mundial de algas marinhas, responsável sozinha por uma produção que ultrapassa 9 milhões de toneladas anuais, mais do que qualquer outro país do planeta e perde espaço apenas para China que ocupa o topo do ranking. O crescimento acelerado, registrado desde 2011, transformou o arquipélago em um polo industrial estratégico e fez das algas um dos insumos mais valiosos das cadeias globais de cosméticos, suplementos, farmacêuticos, alimentos processados e biorrefinarias.
O avanço não aconteceu por acaso. Em regiões como Sulawesi, Bali, Nusa Tenggara e Maluku, a produção deixou de ser artesanal e passou a seguir um modelo híbrido altamente eficiente, combinando manejo tradicional, oceanografia aplicada e tecnologia de rastreamento para atender a um mercado que movimenta bilhões de dólares por ano.
A ascensão da produção de algas na Indonésia
O salto indonésio começou há pouco mais de uma década. Até 2010, a China era isoladamente a maior referência do setor, mas a Indonésia passou a investir em programas nacionais que estimulavam pequenos produtores costeiros a migrar para o cultivo de espécies de alto valor industrial, especialmente Eucheuma cottonii e Eucheuma spinosum, matérias-primas essenciais para a produção de carragena, o hidrocolóide usado como espessante e estabilizante na indústria global.
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Segundo relatórios do Ministério das Pescas e Assuntos Marinhos da Indonésia, as políticas públicas incluíram:
• concessão de áreas marinhas específicas para cultivo
• crédito subsidiado para adquirir cordas, boias, balsas e embarcações
• treinamento em manejo, rotatividade e densidade de plantio
• parcerias com indústrias de processamentos
• rastreamento sanitário para exportação
O resultado foi imediato. Entre 2011 e 2024, a produção nacional saltou de 3 milhões para mais de 9 milhões de toneladas, consolidando a Indonésia como o maior centro de cultivo do mundo, à frente de China, Coreia do Sul e Filipinas.
Como funcionam as megafazendas de algas marinhas
Apesar de parecer um cultivo simples, as fazendas indonésias operam como verdadeiros sistemas industriais conectados ao comportamento do oceano.
A maioria usa o método longline, no qual milhares de metros de cabos são estendidos no mar aberto e sustentados por boias, mantendo as algas a uma profundidade que maximiza luz solar e circulação de nutrientes.
A produtividade depende de variáveis como:
• salinidade entre 28 e 34 partes por mil
• temperatura constante entre 26°C e 30°C
• correntes moderadas que evitam acúmulo de sedimentos
• substituição sistemática dos ramos-mãe a cada ciclo
Esses sistemas permitem até seis colheitas por ano, algo impossível em ambientes de clima temperado. Em um único hectare, produtores conseguem extrair 40 a 60 toneladas de algas frescas por ciclo — uma escala que alimenta processadores industriais espalhados por Java e Sulawesi.
Em muitas comunidades, o cultivo passou a ocorrer em áreas próximas a recifes, aproveitando zonas rasas e águas protegidas. Outras regiões adotaram viveiros oceânicos em mar aberto, com estruturas que resistem a ondas mais fortes e possibilitam expansão contínua.
O poder da carragena: o derivado que movimenta indústrias globais
Grande parte das algas indonésias não é vendida para consumo direto, mas para extração de carragena, um composto que se tornou essencial em áreas como:
• formulações de cremes dermatológicos
• géis e produtos capilares
• fabricação de queijos processados e sorvetes
• produção de cápsulas farmacêuticas
• espessantes usados em carnes processadas
• substitutos vegetais para gelatina
• tintas, tinturas e produtos alimentares premium
O valor do mercado global de carragena ultrapassa US$ 1 bilhão por ano, segundo a Markets & Markets, e a Indonésia concentra mais de 70% da matéria-prima mundial, o que dá ao país influência direta na formação de preços internacionais.
Impacto econômico e social do cultivo intensivo
O setor gera renda para mais de 1 milhão de indonésios, especialmente em comunidades litorâneas que antes dependiam exclusivamente da pesca artesanal e sofriam com queda nos estoques de peixes. Como o cultivo exige pouco investimento inicial e apresenta ciclos rápidos de retorno, tornou-se uma alternativa econômica estável para famílias inteiras.
Em várias regiões, crianças e jovens ajudam na amarração dos ramos-mãe, enquanto adultos cuidam da manutenção das boias e da logística de secagem. A renda obtida possibilitou melhorias em infraestrutura, educação e acesso à tecnologia, além de criar novos negócios locais como:
• cooperativas de produtores
• pequenas indústrias de secagem
• empresas de transporte marítimo
• centros de processamento primário
Desafios ambientais e novas regulamentações
O crescimento acelerado trouxe também problemas. A FAO e órgãos ambientais locais alertam para riscos como:
• ocupação desordenada de áreas sensíveis
• descarte inadequado de cordas e boias plásticas
• competição por espaço com pescadores tradicionais
• aparecimento de doenças que atacam os tecidos das algas
Para conter impactos, o governo indonésio implementou regras mais rígidas de zoneamento e rastreabilidade, exigindo que grandes produtores adotem materiais biodegradáveis, monitorem densidade e respeitem limites ecológicos.
Programas recentes também incentivam o uso de sistemas de recirculação e integração entre cultivos, reduzindo resíduos e ampliando o controle sanitário.
A Indonésia e o futuro da aquicultura global
Com demanda crescente em setores como cosméticos naturais, bioplásticos e alimentos plant-based, as algas marinhas se tornaram um dos recursos mais estratégicos da bioeconomia moderna. E nenhum país está tão bem posicionado quanto a Indonésia.
A projeção da FAO indica que o cultivo poderá ultrapassar 12 milhões de toneladas até 2030, consolidando o arquipélago como líder absoluto.
A combinação de clima estável, mão de obra especializada, tradição pesqueira e políticas de incentivo transforma o país em uma das maiores forças da nova fronteira da aquicultura mundial.


Uma informação fundamental que nao ficou claro pra mim nessa reportagem é: como os produtores conseguem as “mudas” para essas megaproducões? Me parece que muitos dos problemas que podem surgir vêem da biologia reprodutiva da espécie. Provavelmente, deve haver empresas que investem em bancos biogenéticos altamente desenvolvido e tecnificado para sustentar essas produções, Fiquei curioso para entender de onde saem as mudas e com isso é feito por la. Obrigado.