Com o choque da morte do pai, a menina da pecuária e a mãe recusam sair do campo, reestruturam o rebanho em 48 hectares, apostam no Senepol, em conhecimento técnico, gestão detalhada, parcerias, leilões, genética forte e viram exemplo consolidado de protagonismo feminino no agro brasileiro para novas gerações rurais
Desde a adolescência, quando perdeu o pai aos 13 anos, a menina da pecuária viu a rotina da fazenda deixar de ser apenas herança afetiva para virar responsabilidade concreta, cheia de contas, decisões e riscos. Em vez de seguir o caminho mais esperado e migrar para a cidade, ela e a mãe decidiram permanecer na propriedade de 48 hectares em Rio das Antas, em Santa Catarina, enfrentando sozinhas a gestão de um negócio que até então tinha no patriarca o grande “braço direito” da família.
Anos depois, já aos 26, a produtora transforma essa mesma área em vitrine de genética, manejo afinado e posicionamento estratégico em uma raça de alto valor agregado. Com planejamento, estudo e disciplina, a menina da pecuária sai da condição de sucessora inesperada para se consolidar como referência nacional em Senepol, conectando tradição familiar, tecnologia e protagonismo feminino em um dos segmentos mais competitivos do agro.
Do luto à decisão de ficar no campo

Quando o pai morreu em 2011, a estrutura da fazenda ainda era marcada pelo manejo extensivo: gado em campo nativo o ano todo, sal branco, vermifugação pontual e um calendário sanitário básico, com poucas intervenções técnicas.
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A perda repentina do gestor trouxe um choque duplo.
Além do luto, mãe e filha tiveram de encarar o desafio de manter a propriedade financeiramente viável em um ambiente onde ainda havia forte preconceito contra mulheres na linha de frente da pecuária.
Sem telefone, sem internet e com acesso difícil ao centro urbano, cada decisão exigia mais improviso e resiliência do que conforto.
Foi nesse contexto que a menina da pecuária aprendeu, na prática, a negociar com cooperativas, dialogar com instituições bancárias e buscar apoio de técnicos que realmente entendessem o projeto da família.
A transição de um modelo tradicional para um sistema mais tecnificado começou justamente pela disposição em perguntar, escutar e testar, mesmo quando o ambiente não era favorável.
Virada de chave: do gado comum ao Senepol de alto valor

A segunda grande ruptura veio em 2016, quando, assistindo a um leilão virtual, a jovem se encantou com a rusticidade e a docilidade dos animais Senepol.
A curiosidade virou estratégia: ela buscou informação técnica, visitou propriedades, estudou genética e decidiu que aquela poderia ser a nova identidade produtiva da fazenda.
No mesmo ano chegaram os primeiros 10 embriões, que geraram matrizes fundamentais para o rebanho atual.
Desde o início, mãe e filha entenderam que não bastava ter bons animais, era preciso construir um modelo de negócio.
A fazenda passou a trabalhar com venda de embriões, preparação de touros para mercado, oferta de suporte técnico aos clientes e participação em leilões.
A menina da pecuária passou a ouvir o produtor, entender o objetivo de cada rebanho e desenhar cruzamentos alinhados à realidade de campo, encurtando ciclos, antecipando precocidade sexual e ganhando peso a pasto com eficiência.
Manejo, nutrição e genética como tríade de desempenho
Na rotina atual, nada é tratado como improviso.
A produtora repete com frequência que não existe segredo, mas sim equilíbrio entre manejo, nutrição e melhoramento genético.
Pastagens de inverno com gramíneas como aveia e azevém são combinadas com áreas de lavoura, confinamento em momentos estratégicos e suplementação com silagem e ração específica em fases críticas, como pré-leilão e preparação para exposições.
A adaptação do Senepol ao frio do Sul foi um ponto de dúvida recorrente para outros produtores.
A experiência de campo mostrou o contrário: no inverno, o pelo cresce e protege o animal; no verão, encurta e volta ao padrão racial, evidenciando rusticidade e adaptação.
Essa observação prática virou argumento técnico, reforçando a imagem da fazenda como vitrine de uma genética que responde bem mesmo em regiões de geadas e temperaturas mais baixas.
Gestão de risco, ciclos de mercado e decisões sem apego
Um dos traços mais marcantes da trajetória da menina da pecuária é a capacidade de tomar decisões rápidas, sem apego excessivo ao plantel.
Parte da área é arrendada, e a renda gerada é reinvestida em matrizes e genética.
Lotes inteiros de vacas de outras raças podem ser vendidos se o ciclo econômico e o planejamento da propriedade indicarem que o capital será melhor aproveitado em outro formato.
A lógica é clara: o mercado de bezerros e reprodutores é cíclico, alternando fases de alta e baixa.
Em vez de agir por impulso, a produtora acompanha informações de mercado, observa tendências de preço, avalia custo de produção e ajusta o tamanho do rebanho conforme o cenário.
Expandir em momentos de oportunidade e recuar com disciplina em períodos de baixa virou parte do DNA de gestão da fazenda, reduzindo riscos e garantindo fôlego para atravessar ciclos difíceis.
Campo, tecnologia e redes sociais a serviço do negócio
Embora passe a maior parte do tempo entre piquetes, cercas, curral e planejamento de acasalamentos, a produtora transformou também a presença digital em ferramenta de trabalho.
Nas redes sociais, a menina da pecuária mostra bastidores da lida, comenta decisões de manejo, fala sobre embriões, touros e cronogramas de reprodução, aproximando outros produtores da rotina real da fazenda.
Essa exposição não é apenas estética.
Ao compartilhar acertos e desafios, ela fortalece a confiança de clientes, inspira outras mulheres do agro e ajuda a difundir práticas mais técnicas, como uso de assistência veterinária constante, participação em dias de campo, diálogo com laboratórios e testes de novas tecnologias.
O resultado é um círculo virtuoso em que a imagem digital reforça a credibilidade da fazenda, que por sua vez entrega resultados consistentes em produtividade e qualidade genética.
Protagonismo feminino e legado familiar em construção
Mesmo com agenda cheia, a produtora insiste em um ponto: cuidar de si mesma faz parte da gestão do negócio.
Vaidosa, de unhas sempre feitas, ela defende que mulheres do campo não precisam abrir mão da própria identidade para comandar fazendas, negociar com leiloeiros ou fechar contratos de genética.
Esse equilíbrio entre firmeza na tomada de decisão e cuidado pessoal reforça a mensagem de que o protagonismo feminino no agro é compatível com qualquer estilo.
Ao olhar para trás, a menina da pecuária enxerga na figura do pai o ponto de partida de tudo: foi ele quem apresentou a lida com o gado, o valor da palavra empenhada e a importância de manter a fazenda viva.
O que hoje se vê em Rio das Antas é a continuidade desse legado sob uma nova liderança, mais conectada, técnica e preparada para enfrentar um setor em constante transformação, sem perder as raízes que sustentam a história da família.
E você, deixaria a cidade para assumir uma fazenda como a da menina da pecuária se a vida colocasse essa decisão nas suas mãos?


Parabéns. Admiro muito essas atitudes, especialmente de mulheres e pequenos produtores