Em Cambria, na Califórnia, um coletor de lixo ergueu sua casa com materiais reaproveitados e ferramentas manuais, o conjunto ganhou terraços, muros de pedra e caminhos pela encosta, mas teve as visitas encerradas após a venda em 2022
O coletor de lixo Arthur Harold Beal passou mais de 50 anos construindo uma casa e organizando uma encosta em nove níveis, em Cambria, na Califórnia. Entre conchas, louças quebradas e sucata, ele abriu caminhos, ergueu muros e incorporou à obra materiais retirados do aterro.
O SPACES Archives, arquivo que documenta ambientes construídos por artistas, registra a trajetória dessa construção, chamada Nitt Witt Ridge e iniciada em 1928. A encosta tinha aproximadamente 76 metros de altura, medida referente ao terreno, não à casa.
Quem foi o coletor de lixo que construiu o Nitt Witt Ridge
Conhecido como Art, Beal trabalhou na coleta de lixo de Cambria e tinha seu próprio caminhão. Ele não era arquiteto e encontrou nos objetos descartados parte dos materiais usados para transformar o lugar onde morava.
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Ao comprar a encosta coberta por pinheiros, começou um trabalho que atravessaria décadas. A construção envolvia tarefas de pedreiro, como preparar bases, assentar pedras e levantar muros, além de escavar o terreno e montar estruturas de madeira.

Beal adotou uma regra pessoal: comprar apenas cimento para a obra. Os demais materiais vinham da natureza, dos vizinhos ou do descarte urbano, o que explica a presença de objetos tão diferentes no mesmo conjunto.
Muros e terraços organizaram a encosta em nove níveis
Com picareta e pá, Beal abriu terraços, áreas mais planas criadas em diferentes alturas do terreno. Esses espaços permitiam distribuir as construções e os caminhos pela encosta, em vez de concentrar tudo em uma única superfície.
Entre os desníveis, ergueu muros de contenção com pedras e argamassa, a mistura usada para unir as peças. A função desse tipo de muro é segurar a terra, ajudando a manter os patamares que acompanham a inclinação.
As construções tinham fundações de pedra e concreto, bases que recebem o peso da obra e o transmitem ao solo. Sobre elas, Beal montou estruturas de madeira e acrescentou os materiais que davam aparência própria a cada trecho.
Os nove níveis se espalhavam pela propriedade e eram ligados por caminhos sinuosos. Por isso, o número descreve a organização do conjunto na encosta, e não uma casa convencional com nove andares empilhados.
Conchas, louças quebradas e tubos ganharam novas funções na casa
Beal recolhia conchas de abalone, um animal marinho, no oceano e buscava madeira nas encostas. Vizinhos forneciam pratos quebrados, enquanto o aterro oferecia outros objetos que poderiam entrar na construção ou na decoração.
O conjunto também recebeu vidro, sucata metálica e peças industriais descartadas. O reaproveitamento não significava que tudo exercia a mesma função: parte dos materiais compunha as estruturas, enquanto outros revestiam ou ornamentavam superfícies.
Algumas soluções combinavam usos diferentes. Os corrimãos também conduziam e espalhavam água para irrigação, unindo o apoio ao longo dos caminhos ao cuidado com a vegetação. Assim, até uma peça funcional podia participar da composição visual do lugar.
A moradia virou patrimônio e passou por tentativas de preservação
Com o avanço da idade, Beal encontrou dificuldades para manter a propriedade. O SPACES Archives, arquivo que documenta ambientes construídos por artistas, registra a criação da Art Beal Foundation em 1975, organização formada por voluntários para proteger o conjunto e permitir que ele continuasse morando ali.
O reconhecimento como marco histórico da Califórnia veio em 1981. Beal permaneceu na propriedade até 1989, quando passou a viver em uma instituição de cuidados para idosos, e morreu em 1992.
Em 1999, um casal comprou o imóvel e iniciou trabalhos de recuperação. As intervenções incluíram reforços em escadas, retirada de vegetação excessiva e reparos em muros e partes das fundações, cuidados necessários para conservar tanto as construções quanto os acessos.
Venda em 2022 encerrou as visitas e deixou o futuro incerto
A propriedade foi vendida em 2022 e passou a ser indicada como permanentemente fechada ao público. O conjunto continua visível a partir da estrada, mas essa possibilidade de observação externa não representa autorização para entrar no terreno.
Fotografias de agosto de 2024 mostravam as estruturas ainda de pé, embora o futuro do lugar permanecesse incerto. A classificação de patrimônio ameaçado aponta para a preocupação com sua preservação, sem estabelecer uma data de restauração ou de reabertura.
Nitt Witt Ridge conta com o reaproveitamento de objetos descartados e o trabalho necessário para ocupar um terreno inclinado. Preservar o conjunto envolve cuidar das peças incorporadas à decoração e das estruturas que sustentam caminhos e construções.
O destino dessa obra também envolve a memória de um trabalhador que dedicou décadas ao próprio lar. Você acha que uma construção como essa deveria receber apoio para ser preservada? Deixe sua opinião nos comentários.


