Estudo publicado na revista PNAS em 20 de janeiro aponta que restaurar manguezais diante de diques costeiros pode proteger mais de 140 mil pessoas de inundações por ano e evitar até US$ 800 milhões em prejuízos globais causados por enchentes e tempestades
Plantar árvores no mar por meio da restauração de manguezais diante de defesas costeiras como diques poderia proteger mais de 140 mil pessoas de inundações e evitar até US$ 800 milhões em prejuízos anuais em todo o mundo, segundo estudo publicado em 20 de janeiro.
A proposta de plantar árvores no mar surge como uma estratégia para reduzir os impactos de tempestades costeiras e ondas intensas. A pesquisa avaliou como manguezais restaurados em frente a infraestruturas já existentes poderiam diminuir danos provocados por enchentes.
Os resultados indicam que essa combinação entre vegetação costeira e estruturas construídas pelo homem pode funcionar como uma forma eficaz de proteção. Ao mesmo tempo, a medida também pode contribuir para remover dióxido de carbono da atmosfera.
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Além do potencial climático, a análise aponta ganhos econômicos significativos quando manguezais restaurados são integrados a sistemas de proteção costeira. Os benefícios variam conforme a região, mas podem representar economias relevantes em danos evitados.
Manguezais mostram capacidade de reduzir danos de tempestades
O interesse em plantar árvores no mar está ligado ao comportamento dos manguezais diante de eventos climáticos extremos. Esses ecossistemas ficam na zona entre-marés, na faixa entre o oceano e o continente, e suas árvores conseguem sobreviver em água salgada.
Os manguezais são comuns em regiões tropicais e subtropicais e possuem um sistema denso de raízes aéreas. Esse emaranhado atua como uma barreira natural capaz de absorver a energia das ondas durante tempestades.
Um exemplo citado envolve o furacão Ian, que atingiu o sudoeste da Flórida em 2022. As ondas geradas pela tempestade chegaram a atingir 5,5 metros e devastaram comunidades costeiras e infraestrutura.
O furacão matou 158 pessoas e provocou prejuízos estimados em US$ 110 bilhões no estado. Autoridades afirmaram que a maré de tempestade, fenômeno que empurra grandes volumes de água para o litoral, foi a principal causa das mortes.
Em áreas da Flórida onde existiam manguezais, os danos foram cerca de 30% menores. Essa diferença representou aproximadamente US$ 13 bilhões em prejuízos evitados durante o desastre.
Segundo Daniel Friess, cientista ambiental da Universidade de Tulane, os manguezais funcionam como uma esponja para as ondas. Ele explica que o denso sistema de raízes aéreas é especialmente eficiente para dissipar a energia das ondas.
Pesquisa avaliou impacto global da restauração de manguezais
O estudo que analisa a possibilidade de plantar árvores no mar foi publicado em 20 de janeiro na revista científica PNAS. A pesquisa buscou entender onde a restauração de manguezais poderia gerar maior impacto na proteção contra inundações.
Para isso, os cientistas modelaram cenários em que manguezais restaurados seriam combinados com defesas contra enchentes já existentes. Essas defesas incluem estruturas como diques ou muros de contenção construídos ao longo do oceano ou de rios.
Os diques são estruturas projetadas para impedir que a água ultrapasse determinadas áreas e avance sobre o território continental. A análise considerou como esses sistemas funcionariam quando associados a manguezais.
Os pesquisadores utilizaram uma ferramenta que identifica áreas onde os manguezais foram perdidos com base em dados de satélite. O método também avalia se as condições hidrológicas atuais permitem que esses ecossistemas sejam restaurados.
Segundo Timothy Tiggeloven, especialista em adaptação climática da Universidade Livre de Amsterdã e autor principal do estudo, os dados foram combinados com outras variáveis. Entre elas estavam risco de inundações, cenários climáticos futuros, mudanças no PIB, crescimento populacional e elevação do nível do mar.
Com base nessas simulações, os pesquisadores estimaram os impactos potenciais da restauração de manguezais em diversas regiões do planeta.
Economia global pode chegar a US$ 800 milhões por ano
Os resultados indicam que sistemas combinando diques e manguezais poderiam gerar economia global de até US$ 800 milhões por ano em danos evitados por enchentes. Além disso, cerca de 140 mil pessoas poderiam ser protegidas anualmente contra inundações.
Em cenários climáticos relacionados ao aumento das emissões de carbono, esses benefícios podem crescer ainda mais. Isso ocorre porque tempestades e eventos extremos tendem a se intensificar com as mudanças climáticas.
A análise de custo-benefício mostrou que cada dólar investido nesses sistemas poderia gerar ou economizar cerca de US$ 6. Em um cenário de altas emissões, isso poderia representar até US$ 125 bilhões acumulados até o ano de 2100.
Os ganhos, entretanto, não são distribuídos igualmente entre todas as regiões do mundo. Alguns países e áreas costeiras apresentam maior potencial de benefício com a restauração de manguezais.
Os países do Sudeste Asiático aparecem como os mais beneficiados pela estratégia de plantar árvores no mar. A estimativa é de economia de cerca de US$ 270 milhões por ano e proteção direta para aproximadamente 70 mil pessoas.
A África Ocidental surge em segundo lugar no ranking regional. A análise indica que a região poderia economizar cerca de US$ 221 milhões anualmente e proteger aproximadamente 38 mil pessoas contra inundações.
Em nível nacional, Nigéria, Índia e Indonésia aparecem como os países com maior potencial de benefício. A restauração de manguezais diante de defesas costeiras nesses territórios poderia gerar impactos significativos.
Manguezais também podem ajudar a reduzir carbono na atmosfera
Além da proteção costeira, plantar árvores no mar por meio da recuperação de manguezais também pode ter impacto climático relevante. Esses ecossistemas são capazes de armazenar grandes quantidades de carbono.
Um estudo publicado em 2025 estimou que restaurar 1,1 milhão de hectares de manguezais ao redor do mundo poderia remover cerca de 0,93 gigatoneladas de dióxido de carbono da atmosfera. Esse volume corresponde a quase três vezes as emissões de carros nos Estados Unidos.
O custo estimado para restaurar essa área de manguezais seria de aproximadamente US$ 10,73 bilhões. A estimativa indica que a restauração poderia gerar benefícios ambientais relevantes em escala global.
Apesar dessas vantagens, os manguezais enfrentam ameaças significativas. Uma avaliação de 2024 da União Internacional para a Conservação da Natureza aponta que mais da metade dos ecossistemas de mangue do planeta pode entrar em colapso até 2050.
Entre as principais causas estão a substituição dessas áreas por agricultura e aquicultura. A expansão dessas atividades tem reduzido a extensão dos manguezais em várias regiões do mundo.
Estratégias híbridas combinam natureza e infraestrutura
A estratégia de plantar árvores no mar junto a diques faz parte de um conjunto de abordagens chamadas de infraestrutura cinza-verde. Essas soluções combinam elementos naturais com obras de engenharia.
Jonah Busch, economista ambiental e ex-pesquisador sênior do Centro para o Desenvolvimento Global, elogiou o estudo por integrar diferentes áreas de análise. Segundo ele, a pesquisa combina avaliação biofísica, engenharia e economia.
Busch destacou, porém, que gostaria de ter visto uma análise detalhada dos benefícios financeiros dos manguezais isoladamente. Ele observa que o estudo assume a existência prévia de diques nas áreas analisadas.
Os próprios autores reconheceram essa limitação. A pesquisa se baseia em um banco de dados de proteção contra inundações que lista infraestrutura existente, mas não verifica se os diques ainda estão em boas condições ou sequer permanecem de pé.
Segundo Thomas Westhoff, responsável por soluções baseadas na natureza na organização Wetlands International, abordagens híbridas podem ser eficazes na gestão costeira. Isso é particularmente relevante em litorais densamente urbanizados.
Ele afirma, no entanto, que não existe uma solução única aplicável a todos os lugares. Em algumas regiões, os diques simplesmente não existem ou não são viáveis.
Mesmo assim, Westhoff ressalta que manguezais saudáveis podem oferecer proteção suficiente para comunidades costeiras à medida que o clima continua mudando.
Restauração de manguezais enfrenta desafios globais
Apesar do potencial da estratégia de plantar árvores no mar, a restauração de manguezais enfrenta dificuldades significativas. Muitos projetos ao redor do mundo não conseguem alcançar os resultados esperados.
Segundo o estudo, até 80% das iniciativas de restauração de manguezais acabam fracassando. Os motivos incluem erros na escolha das áreas de plantio ou na seleção das espécies utilizadas.
Timothy Tiggeloven afirma que restaurar manguezais é uma ideia positiva, mas difícil de implementar. O sucesso depende de condições ambientais adequadas e de planejamento cuidadoso.
Outro fator considerado essencial é o envolvimento das comunidades locais. Thomas Westhoff destaca que projetos tendem a ter melhores resultados quando as populações se beneficiam diretamente do ecossistema restaurado.
Esses benefícios podem incluir colheita sustentável de recursos ou atividades de ecoturismo. Quando as comunidades percebem ganhos concretos, elas tendem a proteger os manguezais no longo prazo.
Também existe uma disputa econômica pelo uso dessas áreas costeiras. Segundo Jonah Busch, manguezais precisam competir com atividades que podem gerar retorno financeiro mais rápido, como agricultura ou aquicultura.
Nesse contexto, o novo estudo ganha relevância ao demonstrar o valor econômico da proteção natural oferecida pelos manguezais. A análise indica que plantar árvores no mar pode representar uma forma de reduzir prejuízos causados por tempestades e inundações.

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