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Cientistas fazem descoberta inesperada na bacia do Congo: lagos e rios escuros estão liberando carbono com até 3.500 anos e levantam alerta sobre gigantesco reservatório natural

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 12/03/2026 às 18:26
Atualizado em 12/03/2026 às 18:27
Estudo revela que lagos e rios de águas negras na bacia do Congo liberam carbono ancestral de turfeiras com até 3.500 anos para a atmosfera.
Estudo revela que lagos e rios de águas negras na bacia do Congo liberam carbono ancestral de turfeiras com até 3.500 anos para a atmosfera.
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Estudo publicado na revista Nature Geoscience identificou que lagos e rios de águas negras na bacia do Congo estão liberando carbono ancestral proveniente de turfeiras com idade entre 2.170 e 3.500 anos, levantando dúvidas sobre a estabilidade de um dos maiores reservatórios naturais de carbono do planeta

Lagos e rios de águas negras na bacia do Congo estão liberando carbono ancestral para a atmosfera, segundo um estudo publicado em 23 de fevereiro na revista Nature Geoscience, indicando que parte desse carbono provém de turfa antiga armazenada há milhares de anos.

A descoberta contraria a suposição científica de que o carbono acumulado nas turfeiras da região permaneceria preso no subsolo.

Os resultados sugerem que algumas turfeiras tropicais podem deixar de funcionar como sumidouros e passar a atuar como fontes relevantes de carbono.

Estudo identifica liberação de carbono ancestral em águas negras da bacia do Congo

A pesquisa foi conduzida por Travis Drake, biogeoquímico de carbono do Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), junto com uma equipe que realizou três expedições científicas à bacia do Congo nos últimos quatro anos.

Os pesquisadores concentraram o trabalho na Cuvette Centrale, região de aproximadamente 145.000 quilômetros quadrados de florestas e pântanos localizada na República Democrática do Congo. O local abriga o maior complexo de turfeiras tropicais conhecido na Terra.

No coração e ao sul dessa área encontram-se dois grandes lagos de águas negras, o Lago Mai Ndombe e o Lago Tumba. Também atravessa a região o Rio Ruki, um importante rio de águas negras que segue em direção oeste-noroeste até desaguar no Rio Congo.

Lagos Mai Ndombe e Tumba e o Rio Ruki apresentam altos níveis de CO2 dissolvido

Lagos e rios de águas negras são caracterizados por concentrações elevadas de detritos vegetais em decomposição, conhecidos como carbono orgânico dissolvido. Esse material confere às águas a coloração escura característica observada nesses ambientes da bacia do Congo.

A presença desse carbono orgânico dissolvido, associada à entrada direta de dióxido de carbono proveniente dos pântanos e florestas ao redor, cria níveis supersaturados de CO2 nas águas do Lago Mai Ndombe, do Lago Tumba e do Rio Ruki.

Como consequência, esses corpos d’água liberam grandes quantidades de dióxido de carbono para a atmosfera. Até recentemente, entretanto, acreditava-se que esse CO2 não tinha origem na turfa antiga armazenada nos solos alagados da região.

Análise revela carbono de turfa com idade entre 2.170 e 3.500 anos

Os cientistas chegaram a conclusões diferentes após analisar amostras coletadas em diversas expedições à bacia do Congo. Medições foram realizadas no Lago Mai Ndombe em 2022 e 2024, enquanto o Lago Tumba e o Rio Ruki foram estudados em 2025.

Durante os trabalhos de campo, os pesquisadores coletaram sedimentos, gases de efeito estufa, carbono orgânico dissolvido e carbono inorgânico dissolvido. Esse último inclui CO2 dissolvido, íons bicarbonato e íons carbonato presentes na água.

Posteriormente, as amostras foram analisadas em laboratório com técnicas de espectrometria de alta precisão. O objetivo foi distinguir o carbono recente, proveniente de plantas, do carbono muito mais antigo armazenado nos solos de turfa.

O primeiro teste trouxe um resultado inesperado. Cerca de 40% do carbono inorgânico presente em uma amostra revelou origem milenar, o que levou os pesquisadores a ampliar a análise para as demais amostras coletadas.

Os resultados permaneceram consistentes em todo o Lago Mai Ndombe. Em seguida, a equipe retornou à Cuvette Centrale para coletar novas amostras no Lago Tumba e no Rio Ruki, onde também foram encontrados níveis elevados de carbono derivado de turfa antiga.

Micróbios podem estar decompondo carbono antigo das turfeiras da bacia do Congo

Os pesquisadores sugerem que microrganismos presentes na região podem estar decompondo o carbono antigo das turfeiras. Esse processo gera dióxido de carbono e metano que se infiltram nos lagos e rios antes de serem liberados na atmosfera.

A Cuvette Centrale possui enorme relevância global para o armazenamento de carbono. Estima-se que a área concentre cerca de um terço de todo o carbono armazenado em turfeiras tropicais no planeta.

Esse volume corresponde a aproximadamente 33 bilhões de toneladas de carbono, equivalente a cerca de 30 bilhões de toneladas métricas. Por isso, qualquer alteração nesse sistema pode ter implicações importantes para o equilíbrio climático.

Pesquisadores investigam se fenômeno é equilíbrio natural ou sinal de instabilidade

Os autores do estudo afirmam que ainda não está claro se a liberação de carbono ancestral na bacia do Congo representa apenas um processo natural ou o início de uma mudança maior no sistema de turfeiras da região.

Uma das hipóteses levantadas é que a perda de carbono antigo esteja relacionada à formação de novos depósitos de turfa. Nesse caso, o processo poderia representar um mecanismo natural de equilíbrio dentro do ecossistema.

Outra possibilidade considerada é que mudanças climáticas estejam desestabilizando depósitos de turfa que permaneceram enterrados por milhares de anos. Se esse cenário se confirmar, as turfeiras da bacia do Congo poderiam se aproximar de um ponto de inflexão ambiental.

Os pesquisadores também alertam que períodos futuros de seca podem acelerar esse mecanismo de liberação de carbono. Caso isso ocorra, os reservatórios de turfa poderiam deixar de atuar como sumidouros e passar a funcionar como fontes importantes de carbono atmosférico.

Nas próximas etapas da pesquisa, a equipe pretende analisar a água retida nas turfeiras da região. O objetivo é compreender de que forma os micróbios podem estar liberando carbono antigo nesses ambientes.

Os cientistas também querem determinar se esse processo ocorre em toda a Cuvette Centrale. A meta é quantificar as taxas de oxidação do carbono e avaliar se o fenômeno observado representa uma condição natural ou um sinal de instabilidade nesse grande reservatório de carbono.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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