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Cientistas descobrem em Fiji que um pedaço de terra cercado por manguezais é na verdade um monte gigante de conchas descartadas por habitantes antigos há mais de 1.200 anos

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 04/04/2026 às 18:00 Atualizado em 04/04/2026 às 18:02
Cientistas descobrem ilha em Fiji feita de conchas descartadas há 1.200 anos. Cercada por manguezais, é o primeiro sambaqui encontrado no Pacífico Sul.
Cientistas descobrem ilha em Fiji feita de conchas descartadas há 1.200 anos. Cercada por manguezais, é o primeiro sambaqui encontrado no Pacífico Sul.
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A ilha de 3 mil metros quadrados cercada por manguezais perto de Culasawani, em Fiji, é composta por 70% a 90% de conchas de moluscos comestíveis descartados por habitantes antigos por volta de 760 d.C., segundo estudo publicado na revista Geoarchaeology, e representa o primeiro sambaqui registrado nessa região do Pacífico.

No sudoeste do Oceano Pacífico, perto da costa de Vanua Levu, a segunda maior ilha de Fiji, existe um pedaço de terra de 3 mil metros quadrados que se eleva apenas 60 centímetros acima do nível do mar na maré alta. Cercada por manguezais, essa ilha parece, à primeira vista, completamente comum. Até que se descubra que entre 70% e 90% da sua composição é feita de conchas descartadas por seres humanos há mais de 1.200 anos. A ilha é, na prática, um monte gigante de restos de comida antiga.

O estudo, publicado na revista científica Geoarchaeology, foi conduzido por pesquisadores de Fiji e da Austrália liderados por Patrick D. Nunn, da University of the Sunshine Coast. A equipe concluiu que a ilha é, provavelmente, um “sambaqui”, o termo arqueológico para um depósito de restos de moluscos acumulados por ação humana. Se a conclusão estiver correta, essa ilha perto de Culasawani é o primeiro sambaqui já encontrado no Pacífico Sul a leste de Papua Nova Guiné. E a história de como ela se formou revela muito sobre como os primeiros habitantes de Fiji viviam, comiam e transformavam a paisagem ao redor.

Como cientistas descobriram que a ilha é feita de restos de comida

(A) Mapa detalhado da ilha de conchas de Culasawani, mostrando a localização das quatro trincheiras de teste de 1 × 1 m, o riacho e o continente adjacente. (B) Vista geral da superfície da ilha de conchas de Culasawani; o detalhe mostra um fragmento de cerâmica de 2 cm de comprimento dentro do sambaqui (lateral de um monte de caranguejos). (C) Trincheira 1 com membros da equipe de pesquisa.
Imagem: revista científica Geoarchaeology

Dois dos autores do estudo avistaram a ilha pela primeira vez em janeiro de 2017, durante levantamentos geoarqueológicos ao longo da costa norte de Vanua Levu. O que chamou a atenção foram os caranguejos.

Caranguejos escavadores traziam material do subsolo, de profundidades entre 30 e 50 centímetros, para a superfície, e esse material era quase inteiramente composto por conchas de moluscos comestíveis. A análise confirmou que a ilha inteira, e não apenas a superfície, era formada por restos de conchas em uma matriz de areia e argila.

Duas equipes de pesquisadores retornaram ao local, a primeira em fevereiro de 2024 e a segunda em julho do mesmo ano. Foram abertas quatro trincheiras de 1 metro por 1 metro e coletadas 10 amostras de conchas do gênero Anadara para datação por radiocarbono.

Os resultados apontaram uma idade mediana de 1.190 anos, o que coloca a formação da ilha por volta de 760 d.C., com alcance entre 420 e 1.040 d.C. Além das conchas, foram encontrados pequenos fragmentos de cerâmica sem decoração, indicando a presença de cerâmica fijiana pré-moderna. Nenhum vestígio de ossos de peixe ou ferramentas de pedra foi identificado.

Sambaqui ou depósito de tsunami? A investigação que decidiu a resposta

Quando os pesquisadores analisaram a ilha pela primeira vez, duas teorias concorrentes surgiram. A primeira: a ilha seria um sambaqui formado no local quando um grupo de colonizadores processou quantidades enormes de mariscos comestíveis ao longo de algumas centenas de anos.

A segunda: a ausência de camadas estratigráficas distintas e a espessura relativamente fina do depósito sugeriam que tudo aquilo poderia ser apenas um monte de conchas arrastado por ondas de tsunami.

Para testar a hipótese do tsunami, a equipe analisou as camadas de sedimento além dos limites da ilha. Um depósito formado por ondas se estenderia para o leste e ficaria progressivamente mais fino.

Mas nenhuma evidência desse padrão foi encontrada. A ausência de uma camada sedimentar decrescente, combinada com o fato de que todas as conchas pertenciam a espécies comumente consumidas por humanos, levou os pesquisadores a concluir que a ilha é de fato um grande sambaqui. Essa conclusão transforma o que parecia ser apenas mais uma ilha em Fiji em uma descoberta arqueológica inédita para toda a região do Pacífico Sul.

Quem viveu nessa ilha e como ela se formou

A datação por radiocarbono coloca a formação da ilha no período pós-Lapita. Os Lapita são a cultura arqueológica associada aos primeiros habitantes de Fiji, e durante essa época era comum que assentamentos fossem construídos sobre palafitas perto de costas abertas.

Os pesquisadores acreditam que a ilha de conchas se formou sob um assentamento sobre palafitas, onde os moradores processavam grandes quantidades de mariscos e jogavam as conchas diretamente na água rasa abaixo.

Com o passar dos séculos, o acúmulo vertical de conchas combinado com a queda relativa do nível do mar fez com que o depósito emergisse acima da água, formando a ilha que existe hoje. Quando o assentamento foi abandonado, os manguezais que cercam a ilha atual não existiam.

Essas florestas só cresceram depois, alimentadas por sedimentos liberados pelo desmatamento causado por humanos nas áreas mais interiores, criando a base perfeita para a colonização dos manguezais ao redor da ilha de conchas. Ou seja, não foi só a ilha que os humanos criaram: a paisagem inteira ao redor dela também é resultado indireto da atividade humana.

Por que essa ilha importa para a arqueologia do Pacífico

Fiji tem cerca de 330 ilhas. Mais uma ilha cercada por manguezais não parece, à primeira vista, algo extraordinário. Mas essa ilha em particular reescreve parte do que se sabia sobre a presença humana antiga na região.

Vanua Levu, apesar de ser a segunda maior ilha do arquipélago de Fiji, foi muito menos estudada por arqueólogos do que outras partes do país. A descoberta do sambaqui de Culasawani preenche uma lacuna importante nesse mapa.

Para os povos do Pacífico, frutos do mar foram uma fonte de alimento essencial por mais de 3 mil anos. Em algumas comunidades modernas de Fiji, moluscos ainda representam 15% da dieta.

Sambaquis nessa região são valiosos porque ajudam a reconstruir paisagens antigas, revelando como terra e mar foram moldados ao longo dos séculos.

Os autores do estudo destacaram que o aspecto mais importante da descoberta é a possibilidade de ter identificado uma ilha criada “fortuitamente pelo efeito combinado da queda relativa do nível do mar e do acúmulo vertical de conchas”. Uma ilha que nasceu, literalmente, do lixo de refeições humanas.

Uma ilha feita de restos de comida. O que você acha disso?

Os seres humanos construíram cidades, desmataram florestas, represaram rios e até impediram mares de cobrir países inteiros. Agora, sabemos que também criaram uma ilha inteira jogando conchas fora por séculos.

Essa ilha em Fiji é mais um lembrete de que o Homo sapiens transforma paisagens de formas que nem sempre são óbvias, e às vezes só aparecem 1.200 anos depois.

E você, já imaginou que restos de comida poderiam criar uma ilha? Sabia o que era um sambaqui antes de ler esta matéria? Conta nos comentários.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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