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Cientistas descobrem como uma corrente oceânica gigantesca surgiu há 34 milhões de anos e passou a mover 100 vezes mais água do que todos os rios do planeta, mudando o clima da Terra e ajudando a congelar a Antártica

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 11/04/2026 às 17:30
Atualizado em 11/04/2026 às 21:58
Simulação mostra como a corrente oceânica antártica surgiu há 34 milhões de anos e mudou o clima global.
Simulação mostra como a corrente oceânica antártica surgiu há 34 milhões de anos e mudou o clima global.
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Estudo reconstruiu a Terra de 33,5 milhões de anos atrás e indicou que a corrente oceânica mais poderosa do planeta só se formou por completo quando a Austrália se alinhou aos ventos de oeste, alterando a circulação marinha, ampliando a absorção de carbono e ajudando a resfriar a Antártica

origem da corrente oceânica mais poderosa do planeta começou a ser esclarecida por uma nova reconstrução virtual que aponta para um fator decisivo além da abertura de passagens marítimas ao redor da Antártica. O estudo indica que a Corrente Circumpolar Antártica só ganhou força quando a Austrália se deslocou para o norte o suficiente para se alinhar aos ventos de oeste, condição que permitiu o desenvolvimento completo do fluxo responsável por transportar cem vezes mais água do que todos os rios do mundo juntos.

A Corrente Circumpolar Antártica é descrita como a maior corrente oceânica do planeta e funciona como um sistema que ajuda a manter o polo sul em frio permanente.

A nova simulação contesta a ideia de que o resfriamento profundo da região começou automaticamente quando a América do Sul e a Austrália se separaram da Antártica pelo movimento das placas tectônicas.

Em vez disso, os resultados mostram que as passagens oceânicas recém-abertas permaneceram inativas por um longo período.

O acionamento efetivo da corrente só ocorreu quando a posição da Austrália passou a coincidir com a faixa dos ventos predominantes de oeste, que impulsionaram a circulação ao redor do continente antártico.

Transição climática e abertura das passagens

A reconstituição se concentra em um intervalo de cerca de 34 milhões de anos atrás, quando a Terra atravessava uma mudança importante entre o Eoceno e o Oligoceno. O primeiro era marcado por alta concentração de gases de efeito estufa e pouca presença de gelo permanente, enquanto o segundo consolidou um cenário mais frio.

Nesse período, o movimento lento das placas tectônicas ampliou e aprofundou as ligações de água entre a Antártica, a América do Sul e a Austrália. As duas passagens centrais desse processo foram a Passagem de Drake e o Estreito da Tasmânia, considerados elementos essenciais para a reorganização da circulação marinha no sul do planeta.

Havia a expectativa de que a simples abertura dessas fendas tivesse destravado o Oceano Antártico e iniciado um congelamento duradouro. As evidências geológicas, porém, mostravam um quadro diferente, com a corrente circumpolar ainda lenta e incompleta mesmo após a separação dos mares.

Para enfrentar essa contradição, os pesquisadores recorreram a um modelo climático de alta resolução alimentado com dados que reproduzem a geografia da Terra de 33,5 milhões de anos atrás. O trabalho também incorporou um modelo detalhado da camada de gelo antártica em sua fase inicial, com base em estudo publicado na revista Science em 2024.

O coautor Gerrit Lohmann, modelador do sistema terrestre no Instituto Alfred Wegener, afirmou que o estudo publicado na PNAS mostra pela primeira vez a utilidade de simulações acopladas e de resolução relativamente alta para investigar o clima do passado remoto. Para ele, apesar da exigência computacional, esse tipo de abordagem oferece novas perspectivas sobre a interação entre gelo, atmosfera, superfície terrestre e oceano.

O papel decisivo do vento na corrente oceânica

As simulações apontaram para um componente que já vinha sendo sugerido em trabalhos anteriores, mas agora aparece com mais clareza: o vento. No início do processo, os ventos de oeste sopravam ao norte demais para empurrar a água pela recém-formada Passagem da Tasmânia, o que impedia a formação de uma corrente oceânica contínua em torno da Antártica.

Hanna Knahl, modeladora climática e autora principal do estudo, afirmou que as simulações confirmam claramente a importância desse alinhamento atmosférico. Ela disse que a corrente só pôde se desenvolver por completo quando a Austrália se afastou da Antártica e os fortes ventos de oeste passaram a soprar diretamente pela Passagem da Tasmânia.

Antes desse reposicionamento continental, o comportamento das águas era irregular. Em vez de formar um circuito contínuo, a circulação inicial se fragmentava, com fluxos intensos nos setores Atlântico e Índico e desvio para o norte depois da passagem pelo Estreito da Tasmânia.

Nesse cenário, o setor do Pacífico permanecia relativamente calmo e fortemente estratificado. A ausência de continuidade ao redor da Antártica ajuda a explicar por que a corrente circumpolar não surgiu imediatamente após a abertura das passagens marítimas.

Quando os continentes migraram para posições que favoreceram o encontro entre as passagens oceânicas e os ventos predominantes de oeste, a corrente ganhou força. Esse reposicionamento permitiu que a circulação se organizasse em escala total e passasse a atuar como um mecanismo decisivo no isolamento térmico da Antártica.

Efeitos no clima e no carbono

Com o fortalecimento da Corrente Circumpolar Antártica, aumentou a possibilidade de isolamento térmico do continente antártico. Os autores também sustentam que a mudança na circulação pode ter ampliado a absorção de carbono pelos oceanos, com efeitos mais amplos sobre o clima terrestre.

Johann Klages, geocientista e coautor do estudo, afirmou que a formação da corrente impulsionou fortemente a absorção de carbono pelo oceano. Para ele, a consequente redução da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera teve potencial para iniciar o clima mais frio da chamada Era Glacial do Cenozoico, ainda marcada por calotas polares permanentemente cobertas de gelo e alternância entre períodos quentes e frios.

O estudo também destaca o contexto atmosférico daquele momento. No início do Máximo Glacial do Oligoceno, o dióxido de carbono estava em torno de 600 partes por milhão, após cair de aproximadamente 1.000 ppm no fim do Eoceno.

Esse quadro é tratado como referência importante para compreender estados climáticos da Terra com alta concentração de CO2. O objetivo não é reproduzir diretamente o passado no presente, mas refinar modelos capazes de interpretar com mais precisão como grandes mudanças na circulação oceânica e na composição da atmosfera afetam o sistema climático.

Knahl afirmou que prever o possível clima futuro exige analisar o passado com simulações e dados que permitam entender a Terra em estados mais quentes e mais ricos em CO2 do que os atuais. Ao mesmo tempo, ela ressaltou que o clima do passado não pode ser projetado diretamente para o futuro e que a corrente circumpolar em sua infância influenciou o clima de forma muito diferente da Corrente Circumpolar Antártica plenamente desenvolvida.

Os pesquisadores consideram que o clima terrestre é comandado por variáveis altamente sensíveis que hoje mudam em velocidade recorde. Nesse contexto, definir com precisão as condições históricas que moldaram o mundo atual é parte central do esforço para interpretar as transformações recentes no Oceano Austral e no funcionamento de uma corrente oceânica que ajudou a reconfigurar o planeta.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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