1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Cientistas chineses levaram um musgo do deserto ao limite absoluto da vida, submeteram a condições semelhantes às de Marte, congelaram a -80°C por 5 anos, expuseram a -196°C por 30 dias em nitrogênio líquido e a planta voltou a crescer mesmo após perder mais de 98% da água
Faça um comentário 9 min de leitura

Cientistas chineses levaram um musgo do deserto ao limite absoluto da vida, submeteram a condições semelhantes às de Marte, congelaram a -80°C por 5 anos, expuseram a -196°C por 30 dias em nitrogênio líquido e a planta voltou a crescer mesmo após perder mais de 98% da água

Imagem de perfil do autor Valdemar Medeiros
Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 21/04/2026 às 17:44 Atualizado em 21/04/2026 às 17:49
Assista o vídeoMusgo do deserto resistiu a -196°C, perdeu mais de 98% da água e ainda se regenerou após testes com condições semelhantes às de Marte.
Musgo do deserto resistiu a -196°C, perdeu mais de 98% da água e ainda se regenerou após testes
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Musgo do deserto resistiu a -196°C, perdeu mais de 98% da água e ainda se regenerou após testes com condições semelhantes às de Marte.

Em julho de 2024, pesquisadores chineses publicaram na revista The Innovation um estudo que colocou uma planta terrestre diante de alguns dos ambientes mais hostis já simulados em laboratório. O organismo testado foi o musgo Syntrichia caninervis, uma espécie comum em ambientes desérticos e frios, que conseguiu sobreviver após congelamento a -80°C por até cinco anos, exposição a -196°C por 30 dias em nitrogênio líquido e testes em um ambiente que imitava características importantes de Marte. O resultado chamou atenção porque o musgo não apenas resistiu, mas também voltou a crescer quando retornou a condições favoráveis. 

O dado mais forte do trabalho é que a planta manteve capacidade regenerativa mesmo após perder mais de 98% da água celular, suportar doses elevadas de radiação gama e passar por uma combinação de baixa pressão, atmosfera dominada por dióxido de carbono, frio intenso e radiação ultravioleta, todos fatores usados para simular o ambiente marciano.

Os autores do estudo defendem que esse tipo de resistência coloca o Syntrichia caninervis entre os candidatos mais promissores para pesquisas sobre biologia extrema e futuros sistemas biológicos de suporte à exploração espacial. 

O que é o musgo Syntrichia caninervis e por que essa espécie chamou atenção da astrobiologia e da ciência de ambientes extremos

Syntrichia caninervis é um musgo associado a crostas biológicas do solo em regiões áridas e semiáridas. Ele ocorre em desertos frios, áreas montanhosas e outros ambientes de forte estresse hídrico, onde poucos vegetais conseguem manter atividade biológica regular.

Essa espécie já era conhecida por sua tolerância à seca, mas o estudo chinês buscou avaliar até onde essa resistência realmente poderia ir quando combinada com frio extremo, radiação e condições semelhantes às encontradas fora da Terra. 

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

A relevância científica está no fato de que a maioria dos trabalhos anteriores sobre sobrevivência em condições espaciais ou marcianas se concentrou em microrganismos, algas e líquens. Plantas terrestres multicelulares, especialmente briófitas como os musgos, raramente haviam demonstrado desempenho tão robusto em testes tão severos.

Isso amplia o interesse pelo grupo, porque um organismo fotossintetizante e relativamente simples pode ter aplicações mais diretas em futuras estratégias de bioengenharia extraterrestre do que muitos microrganismos isolados. 

Como os pesquisadores chineses testaram o musgo com perda de água, frio extremo, radiação gama e atmosfera semelhante à de Marte

Segundo o artigo, os pesquisadores submeteram o musgo a uma sequência de ensaios que incluíram dessecação, congelamento prolongado, imersão em nitrogênio líquido, exposição à radiação gama e testes em uma instalação de simulação atmosférica planetária.

A lógica do desenho experimental foi importante: não se tratava apenas de ver se a planta suportava um único fator de estresse, mas sim se conseguiria manter viabilidade após múltiplos choques físicos e ambientais que, em conjunto, reproduzem cenários considerados letais para a maior parte da vegetação terrestre. 

Nos testes de ambiente semelhante ao de Marte, os pesquisadores usaram condições com 95% de dióxido de carbono, pressão atmosférica baixa, temperaturas oscilando aproximadamente de -60°C a 20°C e níveis altos de radiação ultravioleta.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Essa combinação não reproduz Marte em todos os detalhes, mas sim um conjunto relevante de pressões ambientais capazes de medir se a planta consegue manter integridade biológica após um cenário marciano simulado.

Isso é importante porque evita exageros: o estudo sugere potencial para futuras pesquisas, mas não prova que o musgo poderia colonizar Marte sozinho, sem suporte adicional. 

Perda de mais de 98% da água mostra que o musgo do deserto entra em estado extremo de tolerância sem morrer

Um dos pontos centrais do estudo foi a capacidade do Syntrichia caninervis de sobreviver à dessecação extrema. De acordo com os pesquisadores, a planta conseguiu perder mais de 98% da água celular e ainda assim se recuperar rapidamente quando reidratada.

Esse tipo de comportamento está ligado a mecanismos fisiológicos raros, nos quais o metabolismo entra em estado mínimo e estruturas celulares são protegidas contra colapso durante a secagem. 

Esse resultado é especialmente relevante porque a perda de água costuma ser um dos fatores mais destrutivos para tecidos vegetais. Em organismos menos resistentes, a dessecação intensa compromete membranas, proteínas e processos bioquímicos essenciais.

No musgo estudado, porém, a retomada da cor verde e da atividade fisiológica ocorreu de forma rápida após a reidratação, reforçando a ideia de que ele possui um sistema biológico altamente eficiente para “pausar” e reativar funções vitais. 

Congelamento a -80°C por cinco anos e exposição a -196°C por 30 dias colocaram a planta em um patamar raro de resistência biológica

Os testes térmicos são talvez a parte mais impactante da pauta. O estudo relata que amostras intactas do musgo resistiram a -80°C por até cinco anos em freezer de ultra baixa temperatura e também suportaram -196°C por 30 dias em tanque de nitrogênio líquido.

Depois desses períodos, a planta foi devolvida a condições normais de crescimento e conseguiu regenerar novos ramos. 

Esse achado é extraordinário porque temperaturas de -196°C se aproximam de condições criogênicas usadas em conservação laboratorial. Em plantas comuns, esse nível de frio destruiria tecidos devido à formação de cristais de gelo e ao colapso estrutural das células.

O desempenho do Syntrichia caninervis sugere que a dessecação prévia, somada a mecanismos bioquímicos próprios, reduz drasticamente os danos associados ao congelamento profundo. 

Exposição à radiação gama reforça que o musgo sobrevive não apenas ao frio, mas também a danos severos em nível celular

O trabalho também mostra que o musgo resistiu a doses intensas de radiação gama. O resumo divulgado em fontes associadas ao estudo informa que cerca de 500 Gy chegaram a estimular novo crescimento, enquanto doses mais elevadas ainda permitiram sobrevivência e posterior regeneração sob condições adequadas.

Radiação ionizante é um fator crítico em qualquer discussão sobre Marte ou espaço profundo, porque ela pode danificar DNA, proteínas e membranas celulares. 

Esse ponto amplia muito a força da pauta, porque elimina a leitura simplista de que o musgo apenas “aguenta frio”.

O experimento sugere uma tolerância multifatorial, na qual a planta suporta seca extrema, frio profundo, baixa pressão, radiação UV e também radiação ionizante em níveis que excedem amplamente o que plantas agrícolas comuns conseguiriam suportar. Para a astrobiologia, isso é mais valioso do que um único recorde isolado. 

Simulação de ambiente marciano não prova colonização de Marte, mas mostra um candidato raro para pesquisas de suporte biológico fora da Terra

É importante fazer um ajuste factual para manter a pauta rigorosa. O estudo não demonstra que o musgo já está pronto para “terraformar Marte” nem que seria capaz de crescer livremente na superfície marciana real sem qualquer proteção.

O que os autores mostraram foi que a planta sobreviveu e manteve capacidade regenerativa após exposição a um ambiente laboratorial que imitava alguns dos principais estresses marcianos. 

Ainda assim, o avanço é forte. Na prática, o Syntrichia caninervis passou a ser tratado como um organismo-modelo promissor para estudos sobre produção biológica em habitats extraterrestres, ecossistemas fechados e estratégias de revegetação em ambientes de estresse extremo.

Isso significa que ele pode servir como peça inicial de pesquisa para futuras bases lunares ou marcianas, especialmente em sistemas protegidos ou parcialmente controlados. 

Por que musgos resistentes podem ser mais úteis do que plantas complexas em projetos de exploração espacial e habitats extraterrestres

Plantas complexas têm exigências altas de água, nutrientes, temperatura estável e proteção contra radiação. Musgos, por outro lado, possuem arquitetura simples, capacidade de entrar em estados de baixa atividade metabólica e notável tolerância a oscilações ambientais.

Isso faz deles candidatos interessantes para missões espaciais, porque podem exigir menos recursos em estágios iniciais de colonização biológica de ambientes inóspitos. 

Além disso, musgos participam da formação de crostas biológicas do solo, que ajudam a fixar partículas, reter umidade e modificar microambientes.

Em um contexto extraterrestre, ainda que altamente experimental, um organismo com esse perfil pode ser mais útil do que uma planta agrícola tradicional para os primeiros estágios de construção de sistemas vivos sustentáveis. Essa é uma das razões pelas quais o estudo foi visto como mais do que uma curiosidade de laboratório. 

O que diferencia esse estudo de outros experimentos com vida extrema, líquens, microrganismos e organismos testados fora da Terra

Antes desse trabalho, grande parte das pesquisas sobre resistência extrema havia focado em bactérias, tardígrados, fungos, líquens e outros organismos conhecidos por suportar vácuo, radiação ou dessecação.

O estudo com o Syntrichia caninervis ganhou destaque justamente por mostrar que uma planta terrestre relativamente simples também pode atingir um nível de resistência surpreendente em múltiplas frentes ao mesmo tempo. 

Isso não significa que o musgo seja “mais resistente que qualquer ser vivo da Terra”, porque essa comparação absoluta não foi estabelecida pelo artigo.

O ponto cientificamente sólido é outro: ele entrou para um grupo muito restrito de organismos capazes de manter vitalidade e regeneração depois de uma combinação severa de dessecação, criogenia, radiação e simulação marciana. Esse enquadramento é mais preciso e editorialmente mais forte do que exageros vagos. 

Impacto científico do musgo Syntrichia caninervis para astrobiologia, biotecnologia e estudos sobre os limites reais da vida

O valor do estudo não está apenas no apelo visual de “congelar uma planta e vê-la voltar a crescer”. Ele fornece dados concretos para três áreas muito relevantes. A primeira é a astrobiologia, porque ajuda a entender quais características tornam um organismo mais apto a suportar ambientes extraterrestres. A segunda é a criobiologia, por sugerir mecanismos de preservação celular que podem inspirar novas abordagens de conservação de material biológico.

A terceira é a biotecnologia de ambientes extremos, onde genes e processos associados à tolerância podem futuramente ser estudados para aplicações agrícolas ou ecológicas em regiões hostis da própria Terra. 

Também existe um valor estratégico na própria metodologia. Ao testar uma planta fotossintetizante em ambiente semelhante ao de Marte, os pesquisadores ampliam a discussão sobre como montar ecossistemas mínimos em bases futuras.

Não se trata de dizer que a solução já foi encontrada, mas de mostrar que a ciência começa a identificar organismos reais com capacidade de permanecer biologicamente úteis depois de agressões que antes pareciam inviáveis para vegetais multicelulares. 

O que esse experimento com musgo do deserto pode indicar sobre o futuro da vida em ambientes extremos dentro e fora da Terra

O estudo com Syntrichia caninervis empurra um pouco mais para frente o limite do que a ciência entende como tolerância biológica vegetal.

Quando uma planta consegue suportar -80°C por cinco anos-196°C por 30 dias, perda de mais de 98% da água, radiação intensa e ainda sobreviver a uma simulação de ambiente marciano, o debate deixa de ser apenas sobre resistência excepcional e passa a tocar na própria definição de viabilidade biológica em cenários extremos. 

Mais do que uma curiosidade de laboratório, esse resultado sugere que a fronteira entre vida “normal” e vida extrema talvez seja mais ampla do que parecia. Para a exploração espacial, isso abre espaço para novas pesquisas sobre organismos pioneiros.

Para a ciência terrestre, reforça o valor de estudar espécies de desertos, regiões frias e ecossistemas negligenciados, porque parte das respostas sobre o futuro da vida fora da Terra pode estar escondida justamente nos organismos mais discretos do nosso planeta. 

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x