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Cientistas analisam 2.693 genomas e revelam que 64,1% dos cães modernos ainda carregam DNA de lobo de cruzamentos ocorridos há mil gerações

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 29/11/2025 às 08:16
Estudo aponta que a ancestralidade de lobo aparece em 64,1% dos cães modernos e influencia porte, comportamento
Estudo aponta que a ancestralidade de lobo aparece em 64,1% dos cães modernos e influencia porte, comportamento
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Pesquisas genômicas revelam que a ancestralidade de lobo permanece presente em cães modernos, incluindo raças pequenas, cães de aldeia e linhagens criadas para trabalho especializado

Estudos recentes mostram que cães e lobos podem gerar descendentes férteis, mas a ocorrência de cruzamentos entre eles é considerada incomum quando comparada a outras populações domésticas e silvestres. Investigações conduzidas por instituições dos Estados Unidos analisaram milhares de genomas de cães e lobos, antigos e modernos, e identificaram traços de ancestralidade compartilhada em grande parte das linhagens atuais.

Pesquisadores do American Museum of Natural History, do Smithsonian’s National Museum of Natural History e da Universidade da Califórnia Davis utilizaram métodos de inferência de ancestralidade e análises filogenômicas de alta precisão.

O conjunto de dados reuniu 2.693 genomas publicados, abrangendo lobos, cães de raça, cães de aldeia e outros canídeos que atravessam um intervalo temporal do fim do Pleistoceno aos dias atuais.

Evidências de mistura genética ocorrida há milhares de gerações

Os resultados indicaram que 64,1% dos cães de raça moderna possuem alguma porcentagem de ancestralidade de lobo no genoma nuclear, proveniente de episódios de miscigenação ocorridos há cerca de mil gerações.

Todos os genomas analisados de cães de aldeia, animais que circulam livremente próximos a assentamentos humanos, também apresentam sinais detectáveis dessa origem.

A descoberta contrasta com a percepção amplamente difundida de que a presença de DNA de lobo deveria ser mínima, ou mesmo inexistente, para que um cão mantivesse características consideradas típicas.

Pesquisadores afirmaram que, ao examinar trechos específicos dos genomas caninos modernos, é possível identificar segmentos que remontam a lobos.

Declarações apontam que essas linhagens revelam a capacidade dos genomas dos cães de acomodar componentes de lobo sem comprometer os atributos associados a animais domesticados. Essa constatação amplia o entendimento sobre a evolução dos cães desde que se separaram de uma população extinta de lobos cinzentos sob influência humana durante o fim do Pleistoceno, por volta de 20.000 anos atrás.

Raças com maiores índices de ancestralidade de lobo

Entre as raças analisadas, os cães-lobo tchecoslovacos e os Saarloos foram os que apresentaram as maiores proporções de ancestralidade, variando entre 23% e 40% do genoma. Ambos foram criados deliberadamente por meio de hibridização com lobos, o que explica o índice elevado observado nas análises.

Entre os cães de raça considerados menos híbridos, o grande sabujo anglo-francês tricolor registrou proporções entre 4,7% e 5,7%, enquanto o pastor Shiloh apresentou cerca de 2,7% de ancestralidade.

O pastor Shiloh surgiu nos Estados Unidos a partir de cruzamentos com cães-lobo e outros híbridos com o objetivo de gerar animais mais saudáveis e apropriados ao convívio familiar. Já a presença significativa de ancestralidade de lobo no grande sabujo anglo-francês tricolor ainda não possui explicação clara.

Outra raça com aparência associada a lobos, o Tamaskan, originado no Reino Unido nos anos 1980 pela seleção de huskies, malamutes e outros cães, apresentou aproximadamente 3,7% de ancestralidade.

Variações de ancestralidade entre funções e portes

O estudo identificou padrões relevantes entre as raças. Cães maiores e aqueles destinados a determinadas atividades apresentam índices mais elevados de ancestralidade de lobo. Exemplos incluem cães de trenó das regiões árticas, raças classificadas como pariah e cães de caça. Por outro lado, terriers, gundogs e hounds de faro registraram proporções médias menores.

Alguns cães de guarda de porte grande exibem níveis altos de ancestralidade, enquanto outros, como o mastim napolitano, o bullmastiff e o São Bernardo, não apresentaram traços detectáveis.

A ancestralidade de lobo também aparece em raças muito pequenas. O chihuahua, por exemplo, possui cerca de 0,2% de ancestralidade, índice que pesquisadores afirmaram estar alinhado com a diversidade observada no conjunto geral.

Associação entre comportamento e ancestralidade

O estudo comparou descrições de comportamento feitas por clubes de criadores para raças com níveis altos e baixos de ancestralidade de lobo. Raças com baixos índices foram associadas a termos como friendly, eager to please, easy to train, courageous, lively e affectionate.

Cães com maiores níveis foram descritos com expressões como suspicious of strangers, independent, dignified, alert, loyal, reserved e territorial. Outros qualificativos, como intelligent, obedient, good with children, dedicated, calm e cheerful foram citados com frequência semelhante nos dois grupos.

Os pesquisadores destacaram que essas descrições são avaliações enviesadas de comportamento e que não há evidências de que genes de lobo influenciem diretamente essas características. No entanto, as diferenças encontradas apontam caminhos futuros para o estudo da relação entre genética e comportamentos caninos.

Adaptações herdadas da ancestralidade de lobo

As análises também identificaram adaptações importantes obtidas pelos cães a partir de linhagens de lobo. Entre elas, destaca-se a maior presença de ancestralidade em genes relacionados ao olfato nos cães de aldeia, que dependem da capacidade de localizar restos de alimentos em ambientes humanos.

Outra adaptação identificada foi a distribuição de um gene semelhante ao de lobos tibetanos, associado à tolerância a baixos níveis de oxigênio em regiões de grande altitude, como o planalto tibetano e o Himalaia, presente em mastins tibetanos.

Pesquisadores afirmaram que os cães enfrentaram desafios evolutivos variados ao longo da convivência com humanos, como a sobrevivência em altitudes elevadas, a busca de alimento enquanto circulam livremente por vilarejos ou a proteção de rebanhos.

As análises indicaram que genes de lobo podem ter sido usados como parte de um conjunto de soluções evolutivas que contribuíram para o sucesso dos cães nessas condições.

Publicação dos resultados

Os achados foram divulgados no Proceedings of the National Academy of Sciences, reforçando o papel da análise genômica na compreensão da história evolutiva de cães e lobos e revelando que grande parte dos cães modernos conserva, em alguma medida, traços herdados de seus ancestrais selvagens.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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