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Era mãe e dona de casa, virou bioconstrutora e ergueu sozinha o primeiro domo de superadobe com 24 toneladas de terra em Neuquén; hoje viaja a Argentina ensinando a “pedreira da terra”

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 29/06/2026 às 21:51 Atualizado em 29/06/2026 às 21:54
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Mãe e dona de casa virou bioconstrutora, ergueu um domo de superadobe de 24 toneladas de terra e hoje ensina a bioconstrução pela Argentina.
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Lorena Zabala era mãe e dona de casa até descobrir a bioconstrução em Neuquén, na Argentina. Com as próprias mãos, ela ergueu um domo de superadobe de 24 toneladas de terra, sem ferro nem viga, e hoje viaja o país ensinando a técnica, conhecida como a “pedreira da terra”.

Uma mulher sem formação em obras provou que dá para erguer uma casa só com terra. Na Argentina, Lorena Zabala trocou a rotina de dona de casa pela bioconstrução e levantou, com as próprias mãos, um domo feito pela técnica do superadobe. A história foi contada pelo jornal argentino Río Negro.

O resultado é uma cúpula resistente erguida quase sem material industrial. O domo usou cerca de 24 toneladas de terra, sem ferro, viga ou estrutura metálica, apenas sacos preenchidos com solo e empilhados em camadas. É um exemplo concreto de como o superadobe transforma o chão sob os pés em moradia.

Mais do que construir a própria obra, Lorena virou referência e professora. Apelidada de “pedreira da terra”, ela hoje viaja por diferentes províncias da Argentina dando cursos de bioconstrução, ensinando outras pessoas a levantar os próprios domos. A seguir, veja quem é ela e como a técnica funciona.

Quem é Lorena Zabala, a “pedreira da terra”

Lorena Zabala en plena construcción de su domo. Foto: gentileza.
Lorena Zabala en plena construcción de su domo.

A trajetória dela começou longe do mundo da construção. Lorena Deolinda Zabala nasceu em La Rioja e vive há 22 anos em Neuquén, na Argentina. Por muito tempo, dedicou-se a ser mãe e dona de casa, sem qualquer ligação profissional com obras ou arquitetura, até se interessar pela bioconstrução.

O contato com o superadobe veio da curiosidade e da pesquisa. A partir de 2018, ela começou a buscar informações sobre a técnica, ainda escassa na Argentina na época. Em janeiro de 2020, participou de um curso na cidade de Rosário, conduzido por especialistas da Colômbia, que a apresentaram de vez ao universo dos domos de terra.

A partir dali, o aprendizado virou um caminho sem volta. Lorena mergulhou no estudo da bioconstrução, juntando teoria e prática até se sentir capaz de erguer a própria obra. O apelido de “pedreira da terra” resume bem essa virada: uma mulher que aprendeu, na raça, a construir com o material mais simples que existe.

Hoje, ela transformou esse conhecimento em ofício e missão. Em vez de guardar o que aprendeu, Lorena passou a difundir a técnica do superadobe, levando a ideia para quem sonha em ter a casa própria sem depender de tijolo e cimento. A história dela mostra como uma habilidade nova pode mudar completamente a rota de vida de alguém.

O primeiro domo de superadobe: 24 toneladas de terra

Mãe e dona de casa virou bioconstrutora, ergueu um domo de superadobe de 24 toneladas de terra e hoje ensina a bioconstrução pela Argentina.
Mãe e dona de casa virou bioconstrutora, ergueu um domo de superadobe de 24 toneladas de terra e hoje ensina a bioconstrução pela Argentina.

A obra que marcou a virada foi erguida em 2023. Depois de anos de estudo e de atrasos causados pela pandemia, Lorena finalmente construiu seu primeiro domo de superadobe, não em Neuquén, onde mora, mas em La Rioja, sua província natal, a centenas de quilômetros de distância. Foi ali que a teoria virou uma cúpula de verdade.

Os números da construção impressionam pela simplicidade. O domo tem cerca de 5 metros de diâmetro e 20 metros quadrados de área, erguidos com aproximadamente 24 toneladas de terra. Todo esse peso se sustenta sem o uso de ferro, viga ou qualquer estrutura metálica, algo impensável na construção convencional.

O segredo está na forma e na técnica. A cúpula do superadobe distribui o peso de maneira tão eficiente que dispensa colunas e vigas, apoiando-se na própria geometria. As paredes grossas de terra fazem o resto, garantindo solidez a uma obra feita basicamente de solo, sacos e trabalho manual.

Erguer sozinha uma estrutura dessas tem um peso simbólico enorme. Provar que uma única pessoa, sem formação técnica, consegue levantar um domo de 24 toneladas de terra desmonta a ideia de que construir exige sempre grandes equipes e materiais caros. Foi essa prova viva que abriu para Lorena o caminho de ensinar os outros.

O que é o superadobe e por que ela escolheu

Mãe e dona de casa virou bioconstrutora, ergueu um domo de superadobe de 24 toneladas de terra e hoje ensina a bioconstrução pela Argentina.
Mãe e dona de casa virou bioconstrutora, ergueu um domo de superadobe de 24 toneladas de terra e hoje ensina a bioconstrução pela Argentina.

superadobe é uma técnica de bioconstrução baseada em sacos de terra. Em vez de tijolos, usam-se longos sacos ou tubos de tecido preenchidos com solo úmido, empilhados em camadas e travados entre si com arame farpado. Conforme as fileiras sobem e se fecham, vai surgindo a forma arredondada de um domo.

A técnica tem origem reconhecida na arquitetura mundial. Ela foi desenvolvida pelo arquiteto iraniano Nader Khalili e chegou a ser estudada por instituições como a NASA, por unir simplicidade e resistência. Estruturas de superadobe são conhecidas por suportar bem terremotos, tempestades e até fogo, graças às paredes espessas de terra.

Para Lorena, a escolha fez todo o sentido. Ela enxergou no superadobe uma forma acessível e eficiente de construir, usando um material que está literalmente debaixo dos pés. “Com a terra, o material mais abundante do mundo debaixo dos nossos pés, podemos construir casas, lares totalmente eficientes e saudáveis. Casas vivas”, disse, segundo o Río Negro.

Essa visão une praticidade e propósito. Em vez de depender de uma indústria pesada de materiais, o superadobe aposta no que é local, barato e natural. Para uma bioconstrutora como Lorena, isso significa colocar a possibilidade de ter uma casa ao alcance de muito mais gente, sem abrir mão de conforto e segurança.

Por que construir com terra? As vantagens do domo

A primeira vantagem é o custo do material. Como a base do domo é a própria terra do terreno ou da região, gasta-se muito menos do que com tijolo, cimento e aço. Para muita gente, é justamente essa economia que torna o superadobe uma alternativa real diante dos preços altos da construção tradicional.

O conforto térmico é outro ponto forte. As paredes grossas de terra seguram a temperatura, mantendo o interior do domo mais fresco no calor e mais quente no frio, o que reduz a necessidade de aparelhos de climatização. Em regiões de clima extremo, esse comportamento natural faz uma diferença enorme no dia a dia.

A resistência impressiona quem desconhece a técnica. Apesar de parecer frágil, uma estrutura de superadobe bem feita é extremamente sólida e durável, capaz de enfrentar abalos e intempéries que derrubariam construções comuns. Não à toa, a técnica é estudada para áreas de risco e situações de emergência.

Há ainda o apelo ambiental da bioconstrução. Usar terra crua, sem queima e quase sem material industrial, reduz o impacto ecológico da obra e aproveita um recurso renovável e abundante. Para quem busca uma casa mais sustentável, o domo de superadobe une baixo custo, durabilidade e respeito ao meio ambiente.

Construir com terra, porém, exige técnica e cuidado. Um domo de superadobe precisa de boa fundação, proteção contra a umidade e um acabamento que sele as paredes, sob risco de trincas e infiltrações. Quando esses detalhes são respeitados, a obra dura décadas; quando são ignorados, o barro pode virar dor de cabeça.

De dona de casa a bioconstrutora: a virada

A mudança de vida de Lorena foi construída passo a passo. Não houve um golpe de sorte, e sim anos de estudo, cursos e tentativas até dominar o superadobe. Da primeira pesquisa, em 2018, até o domo pronto, em 2023, foi um percurso longo, marcado por dedicação e pela paciência típica da bioconstrução.

Ela mesma resume o período como um investimento, não como tempo perdido. “Não perdi tempo; estive investindo em conhecimento por amor à terra”, afirmou Lorena ao Río Negro. A frase mostra como ela encara a própria trajetória: cada curso e cada tentativa foram degraus rumo ao domínio da técnica.

O resultado prático foi a criação de um negócio próprio. Lorena fundou o “El Campo La Deolinda”, seu empreendimento de bioarquitetura, voltado à construção de domos sustentáveis e projetos de glamping com enfoque bioclimático. Foi assim que o aprendizado virou também uma fonte de renda e uma marca pessoal.

Esse caminho transformou a antiga dona de casa em uma profissional requisitada. Hoje, Lorena é procurada por quem quer aprender a técnica ou construir o próprio domo, e seu nome circula no meio da bioconstrução na Argentina. A virada profissional dela é, acima de tudo, um exemplo concreto de reinvenção pelo conhecimento.

“El Campo La Deolinda” e o “Paraíso de Domos”

Os projetos de Lorena mostram que a ideia foi muito além de uma casa. Além do “El Campo La Deolinda”, ela toca um empreendimento batizado de “Paraíso de Domos”, desenvolvido em uma propriedade de cerca de 79 hectares. A proposta é criar um conjunto de domos de superadobe em meio à natureza.

Esses espaços combinam moradia, turismo e demonstração da técnica. Com enfoque bioclimático e uso de energias limpas, os domos servem tanto para morar quanto para receber visitantes interessados em bioconstrução e em experiências de glamping. É uma forma de mostrar, na prática, que dá para viver bem em casas de terra.

A aposta no glamping não é por acaso. Hospedagens sustentáveis em meio à natureza estão em alta, e os domos de superadobe combinam bem com esse público, que valoriza conforto, estética orgânica e baixo impacto. Para Lorena, é uma forma de unir renda, divulgação da bioconstrução e o contato direto do visitante com a casa de terra.

O modelo também funciona como vitrine viva do superadobe. Quem visita os projetos de Lorena vê de perto como uma cúpula de terra se comporta, sente o conforto térmico e entende as vantagens da técnica sem depender só de teoria. Esse contato direto costuma convencer mais do que qualquer explicação.

Por trás de tudo, há uma aposta econômica consciente. Ao unir bioconstrução, turismo e ensino, Lorena criou um negócio que sustenta o próprio trabalho e ainda espalha a técnica. O “Paraíso de Domos” é a prova de que construir com terra pode ser, ao mesmo tempo, sonho pessoal e empreendimento viável.

A pedreira da terra que ensina a Argentina inteira

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A faceta mais marcante de Lorena talvez seja a de professora. Em vez de guardar o conhecimento, ela viaja por diferentes províncias da Argentina dando oficinas de superadobe, ensinando do zero quem quer aprender a erguer o próprio domo. É essa generosidade que rendeu a ela o apelido de “pedreira da terra”.

Os cursos já alcançaram várias regiões do país. Lorena leva suas oficinas a lugares como San Juan, San Luis e Buenos Aires, formando turmas de pessoas comuns interessadas em bioconstrução. Muitos desses alunos sonham em construir uma casa barata e sustentável com as próprias mãos, como ela fez.

A procura pelas oficinas acompanha a crise da moradia. Com o preço da construção tradicional cada vez mais alto, muita gente vê em técnicas como o superadobe uma saída acessível para ter a casa própria. As turmas de Lorena reúnem desde famílias inteiras até jovens interessados em bioconstrução e em um modo de vida mais sustentável.

Ensinar a técnica tem um efeito multiplicador poderoso. Cada pessoa que aprende a trabalhar com superadobe pode repassar o conhecimento adiante e erguer novos domos, espalhando a bioconstrução por onde passa. Assim, o trabalho de Lorena vai muito além das obras que ela mesma assina.

Há também um recado de inclusão nessa história. Uma mulher que era dona de casa hoje comanda obras e dá aulas em um setor historicamente dominado por homens, mostrando que a construção com terra pode ser feita por qualquer pessoa disposta a aprender. A “pedreira da terra” virou, assim, símbolo de autonomia.

O que isso tem a ver com o Brasil

O Brasil tem terreno fértil para a bioconstrução, em todos os sentidos. Técnicas de construção com terra, como adobe, taipa e o próprio superadobe, já são usadas e ensinadas em diferentes regiões do país, em cursos, mutirões e projetos de moradia sustentável. A história de Lorena dialoga diretamente com esse movimento crescente por aqui.

O exemplo dela reforça ainda o debate sobre mulheres na construção. No Brasil, assim como na Argentina, cresce o número de mulheres que assumem obras, canteiros e técnicas como o superadobe, furando um setor tradicionalmente masculino. Ver uma “pedreira da terra” comandar domos ajuda a inspirar essa mudança.

Esse movimento já tem rosto por aqui. No Brasil, existem coletivos e cursos de bioconstrução liderados por mulheres, que ensinam adobe, superadobe e telhado verde em mutirões. A iniciativa aproxima a técnica de comunidades de baixa renda e, ao mesmo tempo, abre espaço para mais mulheres no canteiro, repetindo, em solo brasileiro, a trajetória da “pedreira da terra”.

Há também o apelo da resistência a desastres. Como estruturas de superadobe suportam bem terremotos, enchentes e ventos fortes, a técnica desperta interesse para áreas de risco, algo relevante em um país que sofre com enchentes e deslizamentos. Casas de terra bem projetadas podem ser parte da resposta em regiões vulneráveis.

Por fim, fica a lição sobre acesso à moradia. Em um Brasil com grande déficit habitacional, técnicas baratas e de baixo impacto, baseadas em terra local, oferecem um caminho possível para quem não consegue construir do jeito tradicional. O domo de superadobe mostra que conhecimento, mais do que dinheiro, pode ser a chave para ter onde morar.

E você, moraria em um domo de terra?

A trajetória de Lorena Zabala mostra como uma técnica simples pode mudar uma vida e inspirar muitas outras. De dona de casa a bioconstrutora, ela ergueu sozinha um domo de superadobe com 24 toneladas de terra, criou seu próprio negócio e hoje viaja a Argentina ensinando a “pedreira da terra”. Tudo isso usando o material mais abundante que existe: o chão sob os pés.

E você, moraria em uma casa de terra em forma de domo? Conta aqui nos comentários o que achou da técnica do superadobe e se acredita que a bioconstrução pode ganhar mais espaço nas cidades e no campo do Brasil.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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