Cidade histórica no Saara enfrenta avanço contínuo das dunas, risco de desaparecimento e ameaça a manuscritos raros preservados por séculos, enquanto mudanças climáticas e êxodo populacional agravam cenário e colocam em xeque a sobrevivência de um dos mais importantes centros culturais islâmicos.
Uma antiga cidade no deserto do Saara, na Mauritânia, enfrenta o avanço constante de dunas que já encobrem ruas e ameaçam estruturas históricas, colocando em risco um dos mais importantes legados culturais do mundo islâmico preservados ao longo de quase mil anos.
Origem histórica e importância cultural de Chinguetti
Fundada entre os séculos XI e XII, Chinguetti surgiu como um ponto estratégico nas rotas comerciais transaarianas, conectando caravanas que transportavam ouro, sal e outros produtos valiosos através do deserto, consolidando-se também como um centro de aprendizado religioso e científico.
Com o passar dos séculos, o papel econômico da cidade perdeu força, mas seu valor histórico e intelectual permaneceu evidente, especialmente devido à preservação de bibliotecas familiares que guardam manuscritos raros e documentos fundamentais para a compreensão da cultura islâmica medieval.
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Avanço das dunas ameaça estruturas históricas
Atualmente, o avanço das dunas representa uma ameaça concreta e visível, já que montes de areia invadem bairros inteiros e alcançam alturas superiores às construções, exigindo que moradores removam diariamente grandes quantidades de areia para manter acessos básicos utilizáveis.

Além da pressão física exercida pela areia, o desgaste das edificações tradicionais, construídas com materiais adaptados ao clima árido, torna-se mais acelerado diante das mudanças ambientais recentes, dificultando a conservação de um conjunto urbano que resiste há séculos em condições adversas.
Manuscritos raros enfrentam deterioração acelerada
Entre os bens mais valiosos de Chinguetti estão milhares de manuscritos antigos, alguns com mais de 700 anos, que abordam temas como astronomia, matemática, direito islâmico e teologia, formando um acervo considerado essencial para estudiosos da história intelectual islâmica.
Esses documentos, frequentemente escritos em pergaminho ou em peles de animais, exigem condições específicas de armazenamento, mas enfrentam temperaturas que frequentemente ultrapassam os 40 graus Celsius, além da poeira constante e da baixa umidade, fatores que aceleram sua deterioração.
Sem acesso amplo a tecnologias modernas de preservação, a responsabilidade pela conservação recai principalmente sobre famílias locais, que mantêm os manuscritos protegidos em caixas e ambientes escuros, adotando práticas tradicionais para minimizar os danos causados pelo clima extremo.
Êxodo populacional agrava preservação do patrimônio
Outro fator que agrava o cenário é o declínio populacional contínuo da cidade, impulsionado pela falta de oportunidades econômicas e pelas condições ambientais cada vez mais difíceis, levando principalmente os jovens a migrar para centros urbanos em busca de melhores perspectivas de vida.
Esse processo reduz significativamente a capacidade local de preservar tanto as estruturas históricas quanto o acervo documental, deixando uma população mais envelhecida responsável por manter um patrimônio de relevância internacional praticamente sem apoio suficiente.
Patrimônio da UNESCO sob ameaça crescente
Desde 1996, Chinguetti integra a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, reconhecimento que destaca sua importância cultural e histórica, mas que, na prática, não tem sido suficiente para conter os impactos crescentes da desertificação e das mudanças climáticas na região.
Nos últimos anos, a intensificação das tempestades de areia e a redução da vegetação nativa contribuíram para acelerar o deslocamento das dunas, eliminando barreiras naturais que antes ajudavam a estabilizar o solo e proteger a cidade contra o avanço do deserto.
Iniciativas locais e internacionais tentam conter esse processo por meio do plantio de barreiras vegetais ao redor da cidade, estratégia que busca reduzir a mobilidade da areia e proteger áreas habitadas, embora enfrente limitações impostas pela escassez de água.
As secas prolongadas dificultam a manutenção dessas ações, tornando incerto o sucesso das tentativas de contenção, especialmente em um cenário de mudanças climáticas que tende a agravar as condições ambientais já severas da região.
Enquanto isso, partes da cidade antiga continuam sendo gradualmente soterradas, em um processo lento, porém persistente, que compromete não apenas construções históricas, mas também a memória coletiva associada a esse importante centro de conhecimento.
Especialistas alertam que, sem intervenções mais eficazes e sustentáveis, áreas inteiras podem desaparecer nas próximas décadas, reduzindo significativamente a presença física de um dos mais emblemáticos centros culturais do Saara.
A preservação de Chinguetti depende de uma combinação de esforços locais e apoio internacional mais estruturado, capaz de enfrentar simultaneamente os desafios ambientais, sociais e econômicos que colocam em risco sua continuidade histórica.

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