Na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, Saquarema virou símbolo do boom do petróleo: PIB per capita de R$ 722.441,52 em 2023, salto de 1.398% desde 2010. Royalties da Bacia de Santos bancam obras, mas o Censo 2022 mostra renda de R$ 2.310 e trabalho informal em quase metade
Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, no Sudeste, passou a aparecer no topo do país por causa do petróleo. Em 2023, o município registrou PIB per capita de R$ 722.441,52, o maior do Brasil, impulsionado por repasses vultosos de royalties ligados à exploração na Bacia de Santos, que transformaram o orçamento local e aceleraram obras.
O contraste é que a riqueza formal não se converteu, na mesma proporção, em renda e segurança econômica para a maioria. O Censo 2022 aponta rendimento médio mensal de R$ 2.310, enquanto um estudo econômico registra quase metade dos postos de trabalho na informalidade, cenário que amplia desigualdade, fragiliza direitos e alimenta o receio de um choque fiscal quando o dinheiro do petróleo perder força.
PIB per capita recorde e o salto de 1.398% entre 2010 e 2023

O marco que colocou Saquarema no centro do debate foi o PIB per capita de R$ 722.441,52 em 2023, líder nacional. O dado chama atenção pelo tamanho e pelo ritmo de crescimento: um estudo elaborado pelo economista Mauro Osório e pelo mestre em desenvolvimento regional Henrique Rabelo, do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro, aponta que o PIB per capita local saltou 1.398% entre 2010 e 2023.
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A diferença para o restante do país torna o caso ainda mais extremo. No mesmo intervalo, o crescimento foi de 6,2% no Estado do Rio de Janeiro e de 8,2% no Brasil. Na prática, Saquarema virou um exemplo de economia municipal que dispara por transferências associadas ao petróleo, sem que isso signifique, automaticamente, bem estar distribuído.
A mudança mais visível em Saquarema está ligada à entrada contínua de recursos. Os royalties do petróleo, com destinação obrigatória, passaram a encher os cofres da prefeitura e fizeram o município operar como grande canteiro de obras, com intervenções em diferentes áreas e pressão por expansão de serviços.
Esse ciclo acelera a urbanização e expõe gargalos típicos de crescimento rápido. Entre moradores, aparecem críticas ao crescimento acelerado de bairros periféricos, à precariedade do saneamento básico, à quantidade de ruas sem pavimentação e à falta de profissionais para colocar novas estruturas de saúde e educação em funcionamento pleno. Ao mesmo tempo, a obra física avança e eleva a expectativa de entrega de resultados permanentes.
Renda média de R$ 2.310 e informalidade: a riqueza não chega igual
Apesar do topo no ranking, o dinheiro não aparece de forma equivalente no cotidiano. O Censo 2022 aponta rendimento médio mensal de R$ 2.310, o que representa menos de R$ 28 mil por ano, abaixo das médias estadual e nacional. É um retrato de renda que não acompanha um PIB per capita na casa de centenas de milhares de reais.
O estudo econômico também aponta que quase metade dos postos de trabalho está na informalidade, o que fragiliza a estrutura social, reduz previsibilidade de renda, limita acesso a direitos e amplia vulnerabilidade em períodos de instabilidade. Em um município com orçamento inflado por royalties, esse descompasso aumenta o sentimento ambíguo: orgulho pelos números históricos e inquietação com o que acontece fora das estatísticas macroeconômicas.
A fragilidade do modelo aparece com nitidez nas contas públicas. Segundo dados da própria prefeitura, 79,37% das despesas executadas em 2024, que somaram R$ 2,49 bilhões, tiveram origem nos royalties do petróleo. Para 2025, a previsão é reduzir a dependência para 71,71%, o que evidencia preocupação com sustentabilidade, mas mantém uma exposição muito elevada.
O recado embutido nesses percentuais é direto: Saquarema financia a maior parte do seu gasto com royalties, e isso cria risco fiscal se houver queda de arrecadação, oscilação de repasses ou mudança estrutural no ciclo do petróleo. A ansiedade sobre um possível colapso quando o dinheiro secar nasce justamente dessa concentração de receitas em uma fonte que o município não controla integralmente.
Hospital acima da capacidade e concurso de 1.794 vagas para tentar fechar o buraco
Mesmo com investimentos, a pressão sobre serviços públicos segue presente. Um exemplo citado é o Hospital Municipal Porphírio Nunes de Azeredo, no distrito de Bacaxá, que passou por reformas e ganhou um anexo, mas continua operando acima da capacidade. Isso aponta para um desafio recorrente: ampliar estrutura física é apenas uma parte, porque operação plena depende de equipe, escala e continuidade de gestão.
Como resposta à carência de profissionais e ao crescimento populacional, a prefeitura anunciou intenção de abrir um concurso público com 1.794 vagas nas áreas de educação, saúde e segurança ainda neste semestre. A medida tenta atacar um gargalo central do ciclo de obras: sem gente para trabalhar, a infraestrutura nova não vira serviço consistente para a população.
Saquarema já ultrapassa 95 mil habitantes, segundo estimativas do IBGE para 2025. Mais moradores significam mais demanda por saneamento, pavimentação, escola, atendimento médico e segurança, justamente os pontos em que surgem críticas quando a cidade cresce rápido.
Nesse contexto, o petróleo entra como motor e como risco. Ele sustenta o salto do orçamento e de obras, mas também eleva o custo de manter serviços e de reduzir desigualdades, porque o município passa a ser cobrado como se a riqueza macroeconômica estivesse automaticamente no bolso de cada família, o que os dados de renda não confirmam.
Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, virou um retrato do Brasil movido a petróleo: lidera o PIB per capita com R$ 722.441,52 em 2023, viu o indicador crescer 1.398% entre 2010 e 2023, e executou R$ 2,49 bilhões em despesas em 2024, com 79,37% vindo de royalties. Ao mesmo tempo, convive com renda média de R$ 2.310, informalidade alta, pressão sobre serviços como o hospital de Bacaxá e a necessidade de 1.794 vagas para tentar sustentar a máquina pública.
Se você mora em Saquarema ou acompanha a região, o passo mais realista é monitorar mensalmente a dependência de royalties, cobrar planejamento de longo prazo e acompanhar a execução de obras e concursos, porque o risco maior não é o boom, e sim o que fica quando o ciclo do petróleo enfraquecer.
Na sua avaliação, Saquarema conseguirá transformar royalties do petróleo em empregos formais e serviços estáveis, ou o município vai sentir primeiro na renda e na qualidade de vida quando o caixa apertar?

Tá certo é isso mesmo trata-se do pré-sal que fica na bacia de Santos
Existe um equívoco da matéria falando sobre Saquarema como parte da Bacia de Santos, quando, na verdade, deveria ser dito: Bacia de Campos.