Fenômeno registrado em diferentes países latino-americanos transforma paisagens, pressiona comunidades costeiras e expõe como a combinação entre mar, ocupação humana e eventos extremos altera áreas antes consideradas estáveis.
A erosão costeira voltou a ganhar relevância no debate público após alertas internacionais divulgados em 2024 sobre a elevação do nível do mar e episódios recentes registrados no litoral brasileiro, como o reconhecimento de calamidade pública em Baía da Traição, na Paraíba, no fim de 2024, e a conclusão da obra de engorda da Praia de Ponta Negra, em Natal, em janeiro de 2025.
O tema também foi abordado em 01 de outubro de 2025 pelo Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, em entrevista com o geógrafo Wagner Ribeiro, professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo.
A erosão costeira afeta diferentes pontos da América Latina e já provoca perda de áreas urbanas, deslocamento de moradores e impactos em atividades econômicas ligadas ao mar.
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No Brasil, Atafona, distrito de São João da Barra, no norte do Rio de Janeiro, é um dos casos citados por pesquisadores e órgãos ambientais quando o tema é o avanço do oceano sobre áreas ocupadas.
O processo é registrado há décadas no distrito fluminense e já destruiu mais de 500 casas e até um prédio em uma faixa de cerca de dois quilômetros, segundo a reportagem da Rádio Brasil de Fato.
O fenômeno não ocorre apenas no litoral fluminense.
Trechos do Chile, da Argentina, do Uruguai, do Caribe, da Colômbia, do Peru e do sul do Brasil enfrentam processos semelhantes, embora com ritmos, causas e níveis de gravidade diferentes.
De acordo com especialistas, a erosão costeira resulta da interação entre a dinâmica natural das praias, a elevação do nível do mar, eventos extremos e intervenções humanas que alteram a circulação de sedimentos.
O geógrafo Wagner Ribeiro explica que a linha de costa depende do equilíbrio entre mar, vento, correntes, marés e sedimentos.
Em entrevista ao Conexão BdF, ele afirmou que obras e ocupações podem modificar a forma como a areia circula e se deposita no litoral.
“Quando intervimos nesse tipo de dinâmica, as consequências certamente virão. Você pode alterar, por exemplo, o fluxo de maré e a forma de deposição de sedimentos”, disse o professor.
Como a erosão costeira altera o litoral
A praia não é uma faixa fixa de areia.
Segundo pesquisadores da área costeira, ela funciona como um ambiente em transformação constante, moldado pela ação das ondas, das correntes marinhas, dos ventos e dos rios que transportam sedimentos até a costa.
Quando esse ciclo perde equilíbrio, a areia pode deixar de ser reposta na mesma velocidade em que é retirada pelo mar.
O processo pode ocorrer por fatores naturais, mas tende a se agravar em áreas com ocupação desordenada, retirada de vegetação costeira, construção de portos, barragens, muros de contenção, avenidas à beira-mar e outras estruturas que interferem na circulação de sedimentos.
Em regiões urbanizadas, a erosão costuma atingir também casas, hotéis, ruas, equipamentos públicos e atividades econômicas instaladas próximas à faixa de praia.
Ribeiro destaca que uma das consequências mais relevantes é a entrada do mar em áreas que já foram ocupadas de forma permanente.
“Uma das mais sérias é justamente a penetração do mar em áreas, às vezes, consolidadas com ocupação humana. Você tem que, muitas vezes, abandonar as áreas, não pode mais viver ali porque o mar está chegando com uma grande intensidade”, afirmou.
Atafona e o avanço do mar no litoral do Rio de Janeiro
Em Atafona, a erosão costeira é registrada há décadas e aparece associada a fatores como a dinâmica do rio Paraíba do Sul, a redução no transporte de sedimentos e a ocupação da faixa litorânea.
O distrito passou a ser citado em estudos e reportagens por causa da destruição de imóveis, ruas e estruturas urbanas atingidas pelo avanço do mar.
Segundo o texto original, mais de 500 casas e até um prédio foram destruídos em uma área de cerca de dois quilômetros nos últimos anos.
A população local, estimada em aproximadamente 7 mil habitantes, tem forte relação com a pesca, o comércio e o turismo, atividades que dependem diretamente da estabilidade ambiental e econômica da região costeira.
As ruínas à beira-mar passaram a integrar a paisagem do distrito e evidenciam, segundo pesquisadores, a dificuldade de proteger áreas ocupadas quando a erosão avança de forma contínua.
Para os moradores, a perda de imóveis envolve também mudanças de rotina, deslocamento de famílias e redução da segurança em áreas próximas à água.
O relatório Mares revoltos em um mundo em aquecimento, divulgado pela Organização das Nações Unidas em 2024, aponta riscos crescentes associados à elevação do nível do mar.
De acordo com o texto original, áreas como Atafona podem perder cerca de 150 metros de faixa litorânea em 28 anos, dado que reforça a necessidade de acompanhamento técnico e planejamento costeiro.
Erosão costeira na América Latina
Na América Latina, a erosão costeira ocorre em contextos variados.
No Chile, eventos extremos atingiram a costa central nos últimos anos.
O texto original cita ondas de até 11 metros registradas em 2015 e a ocorrência de cerca de 40 eventos extremos por ano desde então, com risco para praias como Reñaca e Algarrobo.
Na Argentina, áreas do sudeste da província de Buenos Aires já enfrentavam erosão crítica, mas o problema também passou a ser observado em outros trechos da costa, segundo o material de referência.
O Uruguai e o sul do Brasil aparecem no mesmo contexto por registrarem tempestades mais intensas, que podem acelerar a retirada de areia e aumentar danos em áreas costeiras vulneráveis.
Na Colômbia, o texto original informa que cerca de metade das praias enfrenta erosão, com trechos de La Guajira perdendo até quatro metros de costa por ano.
No Caribe, a sucessão de furacões contribui para o desgaste de áreas turísticas, enquanto, no Peru, grandes portos são apontados como fatores associados ao agravamento do problema em determinadas praias.
Embora cada país apresente características próprias, especialistas afirmam que a urbanização da faixa costeira aumenta a exposição a riscos.
Quando casas, hotéis, estradas e equipamentos públicos são construídos próximos à linha de praia, a margem de adaptação diminui e os danos tendem a atingir diretamente a população.
Pesca, turismo e moradia em áreas de risco
A erosão costeira costuma ser percebida primeiro pela redução da faixa de areia ou pela destruição de imóveis.
No entanto, seus efeitos também alcançam atividades econômicas que dependem da estabilidade do litoral e da previsibilidade das condições ambientais.
Para pescadores, mudanças na linha de costa podem alterar áreas de abrigo, pontos de embarque, circulação de barcos e presença de espécies.
Ribeiro afirma que a dinâmica dos cardumes também pode ser afetada.
“Quem vive de pesca, por exemplo, vai ver que aquele cardume que passava com frequência não está mais presente naquela áreas; ele desvia”, afirmou.
O turismo também pode ser impactado.
Praias mais estreitas, estruturas danificadas, riscos de desabamento e obras emergenciais mudam a circulação de moradores e visitantes.
Em cidades que dependem da temporada de verão, a perda da faixa de areia pode afetar restaurantes, pousadas, ambulantes e trabalhadores informais.
Além do impacto econômico, há efeitos sociais associados à permanência de famílias em áreas de risco.
Especialistas em planejamento urbano apontam que populações com menos recursos costumam enfrentar mais dificuldades para deixar imóveis ameaçados, reconstruir moradias ou acessar políticas públicas de reassentamento.
Planejamento costeiro no Brasil
No Brasil, diferentes pontos do litoral registram erosão em estágio avançado.
Em Baía da Traição, na Paraíba, o governo federal reconheceu estado de calamidade pública no fim de 2024 após danos associados ao avanço do mar.
A situação atingiu áreas urbanas, vias de acesso e comunidades locais.
Em Natal, no Rio Grande do Norte, a Praia de Ponta Negra passou por uma obra de engorda da faixa de areia, concluída no início de 2025.
A intervenção ampliou a faixa disponível em determinados trechos, mas também gerou debate público sobre impactos ambientais, manutenção da obra e efeitos sociais para trabalhadores que atuam na orla.
De acordo com especialistas, soluções isoladas podem ter alcance limitado quando não fazem parte de um planejamento costeiro mais amplo.
Muros, aterros hidráulicos e outras intervenções podem proteger pontos específicos, mas também precisam ser avaliados por causa de possíveis alterações na dinâmica de áreas vizinhas.
Ribeiro compara a situação brasileira com experiências internacionais.
Ele cita a Espanha como exemplo de país que já trabalhava, ainda nos anos 2000, com mapeamentos relacionados à elevação do nível do mar e à adaptação costeira.
“Em 2008, quando visitei a cidade de Sevilha, já havia um mapeamento projetando a elevação do nível do mar para as mudanças climáticas. Nós, infelizmente, não chegamos a esse nível de ação para o território brasileiro”, disse.
Monitoramento da erosão costeira e políticas públicas
Apesar da ausência de um planejamento nacional integrado citado pelo professor, iniciativas técnicas buscam acompanhar a evolução do problema em diferentes regiões.
No Rio Grande do Sul, o ProCostaRS, liderado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi criado com o objetivo de monitorar a erosão costeira e antecipar cenários de risco.
O sistema pretende reunir dados sobre eventos oceanográficos, meteorológicos e ambientais, além de subsidiar análises sobre vulnerabilidade costeira.
A proposta é oferecer informações técnicas para orientar gestores públicos na formulação de políticas de prevenção, obras de adaptação e medidas de proteção a comunidades expostas.
O acompanhamento contínuo é considerado importante por pesquisadores porque a erosão não ocorre da mesma forma em todos os trechos do litoral.
Em alguns pontos, a perda de areia é lenta e progressiva.
Em outros, tempestades, ressacas e intervenções humanas podem acelerar mudanças em intervalos menores.
A dinâmica entre terra e mar sempre fez parte da formação das praias.
A diferença, segundo especialistas, está no aumento da exposição de áreas urbanizadas e na necessidade de planejar o uso da costa com base em dados técnicos.


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