Em Buriticupu, no interior do Maranhão, voçorocas gigantes avançam como cânions abertos pela chuva e pelo esgoto, já com quase 30 erosões e abismos de 80 metros. Sem obras de drenagem e saneamento, ruas inteiras somem, casas são engolidas e o risco é as maiores se unirem, rachando a cidade.
As voçorocas gigantes já mudaram o mapa urbano de Buriticupu, cidade do interior do Maranhão onde uma rua movimentada virou um abismo de 80 metros de profundidade, equivalente à altura de um prédio de 20 andares. A erosão abriu cortes tão grandes que bairros inteiros passaram a conviver com risco permanente, enquanto casas e trechos de vias foram engolidos.
O que acontece em Buriticupu expõe um problema que ultrapassa o Brasil. As voçorocas gigantes avançam em velocidade preocupante em diferentes regiões, destruindo moradias e infraestrutura na América Latina e na África e ameaçando áreas agrícolas em partes da China, da Europa e dos Estados Unidos, num cenário em que chuvas mais intensas tendem a acelerar a dinâmica da erosão.
Buriticupu na linha de frente: quase 30 erosões e risco de a cidade rachar

Buriticupu tem cerca de 70 mil habitantes, fica a 350 metros acima do nível do mar e convive com quase 30 grandes erosões. As duas maiores estão separadas por menos de 1 km, o que alimenta o temor local de que elas possam se aproximar e se encontrar, mudando a geografia do município de forma irreversível.
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A geóloga e professora da Universidade Federal do Maranhão Edilea Dutra Pereira descreve um cenário em que, sem intervenção, as erosões podem se unir no futuro e formar um curso d’água. Na prática, o recado é direto: as voçorocas gigantes não são um buraco isolado, são um sistema em expansão, com capacidade de redesenhar bairros e cortar conexões dentro da própria cidade.
Como nascem as voçorocas gigantes e por que a chuva vira combustível da erosão

Voçoroca é um tipo de degradação do solo gerada pela ação da água da chuva e de outras fontes, abrindo verdadeiros cânions. O processo é descrito como uma sequência em que, sem vegetação para amortecer o impacto das gotas e favorecer a infiltração, a água empurra partículas do solo, varre a superfície, cria canais, aprofunda ravinas e chega ao estágio de voçoroca.
Em Buriticupu, o risco cresce quando falta infraestrutura para impedir que a água da chuva alcance a borda das erosões e quando o saneamento é insuficiente, fazendo com que água de esgoto escorra para as voçorocas gigantes. Chuva e escoamento desordenado funcionam como motores contínuos, ampliando largura e profundidade das fendas.
Desmatamento e mudança do território: de floresta a solo exposto
O desmatamento aparece como fator decisivo para o surgimento e a aceleração das voçorocas gigantes. Buriticupu, em área de floresta amazônica, passou a ter aspecto mais árido e pedregoso, embora já tenha sido marcada por árvores como cedro, jatobá e ipê de diversas cores.
Nos anos 1990, a indústria madeireira se instalou na região e mais de 50 serrarias operavam 24 horas por dia. A perda de vegetação reduz a proteção natural do solo e aumenta o escoamento superficial durante chuvas, o que intensifica a erosão e amplia o risco de abertura de novas frentes.
Chuva extrema, Maranhão em emergência e a aceleração das voçorocas gigantes
A expansão das voçorocas gigantes é associada ao aumento da intensidade de chuvas e ao padrão de tempestades. O climatologista Juarez Mota Pinheiro, da Universidade Federal do Maranhão, relata que Buriticupu tem registrado mais tempestades do que no passado, num contexto em que eventos extremos alteram a velocidade com que a erosão evolui.
Nos primeiros meses de 2023, o Maranhão enfrentou uma das piores enchentes de sua história: mais de 60 cidades entraram em estado de emergência, milhares de pessoas ficaram desabrigadas e houve dezenas de mortes. Para pesquisadores que analisam o tema globalmente, a intensificação da chuva em 10% a 15% até o fim do século pode parecer pequena, mas muda o jogo quando episódios extremos se tornam mais frequentes.
Por que o problema é global e já tem status de crise em outros países
O Brasil é citado como o país mais afetado na América Latina, mas Argentina, Colômbia, Equador e México também enfrentam o fenômeno. Na África, países como Angola, República Democrática do Congo e Nigéria já tratam o tema como crise nacional, com impacto direto em moradias, vias e segurança urbana.
O risco não é apenas urbano. As voçorocas gigantes também ameaçam áreas agrícolas férteis em partes da China, da Europa e dos Estados Unidos. A erosão deixa de ser um problema local quando passa a comprometer produção, abastecimento e infraestrutura, especialmente onde o crescimento urbano avança sem controle e com perda de vegetação.
Kinshasa como alerta: centenas de voçorocas e tragédia em minutos
Na República Democrática do Congo, Kinshasa concentra centenas de voçorocas, incluindo uma com 2 km de extensão. O total de erosões do tipo na cidade chega a mais de 165 km, num centro urbano de 12 milhões de habitantes.
Em dezembro de 2022, numa noite de chuva forte, 60 pessoas morreram após casas serem engolidas por uma erosão gigantesca. Moradores descrevem que o desastre aconteceu em 30 a 40 minutos, com desaparecimento de moradias e transformação do bairro. O medo de sinais de chuva forte se tornou parte da rotina, mostrando como voçorocas gigantes podem virar risco imediato, não apenas uma ameaça lenta.
O que pode ser feito: drenagem, saneamento e obras caras para cidades pequenas
A resposta técnica passa por planejamento e obras capazes de evitar que a água chegue às bordas das erosões. Segundo o pesquisador Jean Poesen, cidades precisam de bons sistemas de drenagem e escoamento, além de saneamento básico, para impedir que água de chuva e de esgoto alimente as voçorocas gigantes.
O obstáculo é o custo. São obras complexas e caras, difíceis para o orçamento de municípios menores. Em Buriticupu, o Ministério Público do Maranhão cobra na Justiça a execução de termos de um Acordo Civil Público com compromisso de obras de prevenção e apoio a pessoas com casas atingidas. O prefeito João Carlos Teixeira da Silva afirma ter pedido ajuda financeira ao governo federal.
Em nota, o governo federal afirma que analisa a liberação de R$ 300 milhões para Buriticupu e que já foram repassados cerca de R$ 630 mil para obras de contenção, restauração de rodovias e demolição de casas. O Ministério do Meio Ambiente informou ter um programa para implementar “sistemas resilientes em cidades”, mas sem projetos no município no momento.
A vida na borda do abismo: casas engolidas, bairros esvaziados e medo cotidiano
A prefeitura não tem dados oficiais de mortes ligadas às voçorocas gigantes, mas há registro de ao menos 50 casas engolidas. Centenas de pessoas abandonaram residências, criando “quarteirões fantasmas” em Buriticupu, enquanto imóveis passam a ser classificados como de alto risco e famílias se mudam para outras áreas.
Moradores relatam prejuízos econômicos e sensação de insegurança constante. Um comerciante diz ter perdido 40% dos clientes porque muita gente tem medo de parar nas proximidades. Ele tentou plantar taboca, um tipo de bambu, para frear o avanço, mas reconhece que a escala do problema exige soluções maiores do que iniciativas individuais.
Buriticupu, no Maranhão, virou símbolo de como voçorocas gigantes podem reconfigurar uma cidade: um abismo de 80 metros substituiu ruas, quase 30 erosões cercam bairros, e a falta de drenagem e saneamento acelera o avanço. Com chuvas mais intensas, desmatamento histórico e obras caras que dependem de coordenação municipal, estadual e federal, o risco deixa de ser local e se conecta a um problema global que já destrói casas e infraestrutura em vários continentes.
Se a sua cidade tivesse voçorocas gigantes avançando a poucos quarteirões, você acha que a prioridade deveria ser drenagem imediata ou reassentamento rápido das famílias em área de risco?


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