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Cicatriz marrom rasgando o azul do oceano vista do espaço avança por mais de 8 mil km no Atlântico, chega à rota do Norte do Brasil e acende alerta sobre sargaço nas praias

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 20/06/2026 às 10:30
Atualizado em 20/06/2026 às 10:32
Sargaço no Atlântico avança em direção ao litoral Norte do Brasil e preocupa pesquisadores e comunidades costeiras
Sargaço no Atlântico avança em direção ao litoral Norte do Brasil e preocupa pesquisadores e comunidades costeiras.
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Faixa gigante de algas que cruza o Atlântico já preocupa cientistas, pescadores e destinos turísticos porque o problema começa longe da areia, mas aparece quando a massa marrom encosta na costa

Vista por satélites, a mancha parece uma cicatriz marrom atravessando o azul do Atlântico. O nome científico do fenômeno é Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico, uma faixa de algas flutuantes que pode se estender por milhares de quilômetros entre a África, o Caribe, o Golfo do México e a costa das Américas.

O assunto voltou a chamar atenção porque parte desse material entra na rota do litoral Norte do Brasil, especialmente na região influenciada pela foz do Amazonas e por correntes que empurram massas de água ao longo da costa. O que parece apenas uma paisagem curiosa vista do espaço pode virar um problema real quando chega às praias.

A faixa marrom já desperta preocupação por atingir áreas do Norte brasileiro. O alerta ganha peso porque o sargaço não é apenas uma sujeira na areia, mas um fenômeno oceânico ligado a correntes marítimas, nutrientes, vento, temperatura e mudanças ambientais.

O ponto central é que o sargaço não deve ser tratado como vilão em qualquer situação. No alto-mar, ele faz parte da vida marinha. Na praia, quando chega em excesso e apodrece, vira dor de cabeça para turismo, pesca, saúde pública e limpeza urbana.

A alga que ajuda a vida marinha no oceano aberto muda de papel quando encalha na areia

Faixa gigante de sargaço avança pelo Atlântico e chega à rota das praias do Norte do Brasil
Faixa gigante de sargaço avança pelo Atlântico e chega à rota das praias do Norte do Brasil.

O sargaço é uma alga marrom que flutua porque possui pequenas estruturas cheias de ar, parecidas com bolhas naturais. O grupo inclui espécies que servem de abrigo, alimento e área de reprodução para tartarugas, peixes, caranguejos, camarões e aves marinhas.

Em mar aberto, esses tapetes flutuantes funcionam quase como ilhas biológicas. Muitos organismos usam a massa de algas para se proteger de predadores, buscar alimento e atravessar longas distâncias pelo oceano.

O problema começa quando a quantidade foge do padrão e grandes blocos são empurrados para a costa. Nesse cenário, o sargaço escurece a água, ocupa a faixa de areia, dificulta o banho de mar e altera a rotina de praias que dependem do turismo.

Quando se decompõe, a alga libera gases de odor forte, especialmente o sulfeto de hidrogênio, conhecido pelo cheiro parecido com ovo podre, que podem afetar ecossistemas costeiros, turismo e saúde pública.

O cinturão marrom cresceu desde 2011 e virou um sinal visível de mudança no Atlântico

Pesquisas publicadas na revista Science em 2019 ajudaram a consolidar o termo Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico. Desde 2011, imagens de satélite passaram a mostrar grandes acumulações recorrentes da alga em áreas tropicais do Atlântico.

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O cinturão marrom cresceu desde 2011 e virou um sinal visível de mudança no Atlântico (Crédito: NASA’s Scientific Visualization Studio)

O cinturão já ultrapassou 20 milhões de toneladas em picos mensais desde 2018 e pode se estender por mais de 8 mil quilômetros em alguns períodos. Em 2025, a massa estimada superou 30 milhões de toneladas, reforçando a escala do fenômeno.

Esse crescimento não significa que existe uma única causa simples. A explicação mais aceita envolve uma combinação de fatores, como nutrientes vindos de rios, ressurgência de águas profundas, variações de salinidade, ventos, correntes oceânicas e processos biológicos dentro dos próprios tapetes de sargaço.

A biomassa é influenciada por fontes de nitrogênio e fósforo, incluindo descargas de grandes rios como Amazonas, Congo e Mississippi, além de mistura vertical de águas profundas e poeira do Saara. Em outras palavras, o cinturão marrom é um fenômeno do oceano inteiro, não apenas de uma praia isolada.

A rota até o Brasil passa pela costa amazônica e por correntes que empurram a biomassa

A faixa de sargaço se forma e se desloca conforme ventos e correntes empurram as algas pela superfície. Parte dessa massa atravessa o Atlântico tropical em direção às Américas e pode ser desviada para o Caribe, Golfo do México e áreas próximas ao Norte da América do Sul.

Correntes e ventos associados à região equatorial ajudam a transportar o sargaço pelo Atlântico. A Corrente Norte do Brasil e sistemas ligados à Guiana também participam desse caminho, empurrando material flutuante ao longo da costa.

Por isso, o Brasil entra na discussão mesmo quando os boletins internacionais dão mais destaque ao Caribe e à Flórida. A costa amazônica está perto de uma das zonas de circulação que ajudam a reorganizar a biomassa no Atlântico ocidental.

O alerta não significa que todas as praias brasileiras serão tomadas por algas ao mesmo tempo. O fenômeno depende de vento, maré, corrente, volume de sargaço disponível e posição das massas no oceano.

Ainda assim, o histórico recente mostra que o risco não é teórico. Quando a alga chega em grande quantidade, o impacto aparece rápido na paisagem, no cheiro, na pesca, na limpeza pública e na percepção dos turistas.

Salinópolis mostrou como a maré marrom pode alterar a rotina de uma praia

Um exemplo concreto ocorreu na Praia do Atalaia, em Salinópolis, no Pará. Em 23 de março de 2025, a Agência Pará informou que a área foi tomada por grande quantidade de sargaço, o que levou o governo estadual e a prefeitura a iniciarem uma ação de remoção com maquinários.

A cena chamou atenção porque Atalaia é uma das praias mais conhecidas do litoral paraense. Quando o sargaço chega em excesso, o problema deixa de ser apenas ambiental e passa a atingir também comércio, hospedagem, barracas, pescadores e visitantes.

A plataforma Bori, em artigo assinado por pesquisadores em 26 de março de 2025, destacou que a chegada massiva de sargaço à costa amazônica se repetia após cerca de dez anos e poderia trazer prejuízos para pesca e turismo. O texto também chamou atenção para a falta de um sistema de predição eficiente no Brasil.

Esse é um ponto sensível. Países do Caribe já enfrentam temporadas em que governos precisam retirar toneladas de algas das praias, instalar barreiras e lidar com cancelamentos no turismo. No Norte do Brasil, a preocupação é antecipar o problema antes que ele se torne uma rotina cara e difícil de administrar.

Satélites indicam que 2026 pode ser mais um ano forte para o sargaço no Atlântico

O monitoramento mais recente reforça a atenção. O boletim de 31 de maio de 2026 do Laboratório de Oceanografia Óptica da Universidade do Sul da Flórida informou que a quantidade total de sargaço aumentou em maio em quase todas as regiões acompanhadas.

O mesmo boletim apontou valores recordes para o mês em várias áreas, exceto no Atlântico Oeste, e afirmou que 2026 caminha para ser mais um ano importante para o sargaço, com possibilidade de recorde no verão do Hemisfério Norte. A previsão é voltada principalmente ao Caribe, Golfo do México e costa sudeste da Flórida, mas ajuda a mostrar a intensidade geral da temporada no Atlântico.

Esse tipo de dado é importante porque o sargaço não respeita fronteiras. Uma massa que aparece longe do Brasil pode ser reorganizada por correntes, se fragmentar, seguir para outros destinos ou alimentar novas áreas de concentração.

Por isso, cientistas defendem mais monitoramento local. Sem imagens atualizadas, boias, modelagem de correntes e comunicação rápida com comunidades costeiras, praias e pescadores só percebem a dimensão do problema quando a alga já está na areia.

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Geovane Souza

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