Fenda invisível na superfície revela como o fundo do oceano pode alimentar peixes, aves, baleias e esponjas em uma das regiões mais frias do planeta
No meio do Mar de Bering, entre o Alasca e a Sibéria, existe uma formação que não aparece para quem olha a água da superfície. O Cânion Zhemchug corta o fundo do oceano por cerca de 160 quilômetros e chega a aproximadamente 2.600 metros de relevo vertical.
A dimensão chama atenção porque esse abismo submarino é mais profundo que o Grand Canyon, nos Estados Unidos. Mas o ponto mais importante não está apenas no tamanho, a fenda ajuda a movimentar águas frias e ricas em nutrientes, criando um ambiente favorável para o desenvolvimento do ecossistema marinho.
O cânion funciona como uma espécie de corredor natural no Mar de Bering. A formação concentra nutrientes, influencia correntes e ajuda a sustentar organismos que vão de pequenos seres marinhos a mamíferos e aves.
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É uma paisagem invisível aos olhos humanos, mas decisiva para entender por que áreas aparentemente frias e hostis podem se transformar em zonas de alta produtividade no oceano.
O cânion submarino escondido no Mar de Bering
O Cânion Zhemchug fica na região central do Mar de Bering, em uma área marcada por águas geladas, forte atividade pesqueira e grande importância ecológica. A formação recebeu esse nome por causa de um navio de pesquisa russo chamado Zhemchug, palavra associada a “pérola”.
De acordo com o Marine Regions, banco internacional ligado à nomenclatura de feições submarinas, o Zhemchug foi descoberto e explorado por uma embarcação russa em 1959. O registro também situa o cânion como uma feição do Mar de Bering, com coordenadas reconhecidas em bases batimétricas.
A maior parte das pessoas nunca verá esse relevo. Da superfície, o mar parece apenas uma imensa massa de água fria. O desenho real só aparece por meio de sonares, levantamentos batimétricos e mapas do fundo oceânico.
Essa invisibilidade ajuda a explicar por que formações submarinas gigantes ainda surpreendem o público. Enquanto montanhas, desertos e cânions terrestres chamam atenção pela paisagem aberta, estruturas como o Zhemchug ficam escondidas sob quilômetros de água.
Por que essa fenda supera o Grand Canyon em profundidade

O Grand Canyon, no Arizona, é um dos desfiladeiros mais famosos do planeta e atinge cerca de 1.857 metros de profundidade. O Zhemchug, por sua vez, chega a aproximadamente 2.600 metros de relevo vertical, o que o coloca em uma escala impressionante dentro da geologia submarina.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, os cânions Bering, Pribilof e Zhemchug cortam a margem continental do sudeste do Mar de Bering. O órgão também destaca que o Zhemchug pode estar entre os maiores vales submarinos conhecidos, com volume estimado em 8.500 km³ em estudo clássico publicado em 1970.
Esse dado reforça a importância de tratar o tema com cuidado. Algumas publicações mencionam estimativas diferentes para volume, mas o consenso é que o Zhemchug está entre as maiores formações submarinas do tipo e supera o Grand Canyon em profundidade vertical.
Mais do que uma curiosidade geográfica, o tamanho da fenda mostra como o fundo do mar guarda paisagens tão grandiosas quanto as que existem em terra firme.
Como o relevo gelado vira alimento para a vida marinha
A principal função ecológica do Cânion Zhemchug está na forma como ele interfere na circulação da água. Em regiões assim, o relevo submarino pode alterar correntes, direcionar massas de água e favorecer a subida de nutrientes das partes mais profundas para camadas mais rasas.
Esse processo é conhecido como ressurgência. Quando águas profundas sobem, elas carregam nutrientes que alimentam organismos microscópicos. Esses organismos servem de base para uma cadeia alimentar que envolve peixes, lulas, aves e mamíferos marinhos.
Em estudo publicado na revista científica PLOS One, pesquisadores descreveram Zhemchug e Pribilof como dois dos maiores cânions do mundo, inseridos em uma área produtiva chamada de Green Belt. A região combina correntes e ressurgência, sustentando peixes, lulas, aves e mamíferos marinhos.
Isso ajuda a explicar por que o Mar de Bering, apesar do frio, é uma das áreas biologicamente importantes do Pacífico Norte. O que parece um ambiente vazio na superfície pode esconder um sistema ativo, alimentado pelo encontro entre geologia e oceanografia.
A lógica é simples: quando o fundo do mar cria corredores para a água circular, a vida encontra pontos de concentração. O cânion funciona como uma estrutura física que ajuda a distribuir alimento em uma região extensa.
Corais frios, esponjas e animais protegidos aparecem nesse corredor
A vida no Zhemchug não depende de paisagens coloridas como os recifes tropicais. Ali, o ambiente é frio, escuro e profundo, mas ainda assim abriga organismos adaptados a condições extremas.
De acordo com a NOAA Fisheries, pesquisas no Mar de Bering analisaram corais, esponjas, caranguejos e peixes em cânions como Zhemchug e Pribilof. O levantamento mostrou que esses ambientes são relevantes para entender habitats sensíveis e possíveis impactos da atividade humana, especialmente da pesca de fundo.
Entre os organismos associados a essas áreas estão esponjas, corais de águas frias, peixes, crustáceos e animais que usam as bordas do cânion como zona de alimentação. Em alguns pontos, as esponjas aparecem com maior densidade, criando estruturas que podem servir de abrigo para outras espécies.
O Geophysical Institute da Universidade do Alasca também registrou relatos de exploração tripulada no Zhemchug, com observação de peixes, corais, caranguejos, esponjas e agregações de zooplâncton em profundidade. Esses registros ajudam a mostrar que a coluna d’água pode ser biologicamente ativa muito abaixo da superfície.
Além disso, estudos sobre aves marinhas indicam que o albatroz-de-cauda-curta, espécie ameaçada, já foi associado a áreas de margem de cânions no Mar de Bering. Isso não significa que o Zhemchug seja o único ponto vital para esses animais, mas reforça a importância da região como parte de um corredor ecológico maior.
A origem do abismo está ligada a rios antigos, gelo e sedimentos
A formação do Zhemchug não aconteceu de uma vez. A origem está ligada à história geológica da plataforma continental do Mar de Bering e a períodos glaciais em que o nível do mar era mais baixo.
Durante esses períodos, rios como o Yukon teriam transportado grande volume de sedimentos para a borda da plataforma. Com o tempo, parte desse material ficou instável e desceu pelo talude continental, escavando o relevo em direção à Bacia Aleutiana.
Essas descidas de lama, areia e água densa são chamadas de correntes de turbidez. Elas funcionam como avalanches submarinas, capazes de remodelar o fundo oceânico ao longo de milhares ou milhões de anos.
O resultado é uma paisagem profunda, cortada e alongada, que hoje influencia a circulação de água e a distribuição de nutrientes. Ou seja, um processo geológico antigo ainda afeta a vida marinha atual.
O que você acha dessa disputa: áreas profundas como o Cânion Zhemchug deveriam ter proteção mais rígida, mesmo que isso afete parte da pesca, ou o uso econômico do Mar de Bering deve continuar com regras atuais? Deixe sua opinião nos comentários.

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