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China renova registro de 425 unidades de carne bovina dos EUA e aprova outras 77, sinalizando reabertura do mercado após meses de suspensão. Austrália, Argentina e Canadá também podem sentir impacto com o redirecionamento das compras chinesas

Publicado em 18/05/2026 às 23:54
Atualizado em 18/05/2026 às 23:59
A China renovou o registro de 425 unidades de carne bovina dos EUA e aprovou outras 77 após meses de suspensão, como parte de um acordo de US$ 17 bilhões anuais em compras agrícolas. Brasil, Austrália e Argentina podem perder espaço.
A China renovou o registro de 425 unidades de carne bovina dos EUA e aprovou outras 77 após meses de suspensão, como parte de um acordo de US$ 17 bilhões anuais em compras agrícolas. Brasil, Austrália e Argentina podem perder espaço.
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A China concedeu extensão de registro por cinco anos a 425 unidades produtoras de carne bovina dos Estados Unidos e aprovou outras 77 novas, sinalizando a reabertura de um mercado que estava em grande parte suspenso desde o vencimento das licenças no ano passado. Segundo informações do G1, a medida faz parte de um acordo mais amplo entre Pequim e Washington que prevê a compra de pelo menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas americanos além da soja, elevando o comércio bilateral agrícola para a faixa de US$ 28 bilhões a US$ 30 bilhões anuais.

O compromisso foi firmado após a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim na semana passada, e o Ministério do Comércio chinês confirmou que os dois países concordaram em expandir o comércio agrícola e eliminar barreiras não tarifárias para carne bovina e aves. Na prática, a China precisará ampliar significativamente as compras de trigo, milho, sorgo, carne, algodão e madeira dos Estados Unidos para atingir a meta. O problema é que esse aumento não virá do crescimento da demanda chinesa, mas do redirecionamento de compras que hoje beneficiam fornecedores como Brasil, Austrália, Argentina, Canadá e França. Analistas alertam que atingir US$ 17 bilhões anuais excluindo soja exigiria que a China redirecionasse intencionalmente as importações “por motivos políticos e estratégicos, e não puramente comerciais”, segundo Cheang Kang Wei, vice-presidente da StoneX.

425 registros renovados e 77 novos: o que muda para a carne bovina

A renovação de 425 registros de unidades produtoras de carne bovina dos EUA por cinco anos e a aprovação de outras 77 novas representam a maior abertura do mercado chinês para a carne americana desde o início da guerra comercial. As licenças haviam vencido no ano passado e não foram renovadas durante o período de tensão entre os países, o que na prática impediu centenas de frigoríficos americanos de exportar para a China.

A China também introduziu, em dezembro passado, um sistema de cotas para importação de carne bovina com tarifa de 55% para volumes acima do limite estabelecido. A medida atinge todos os grandes fornecedores, incluindo os Estados Unidos, e visa proteger a indústria pecuária local chinesa. Porém, a renovação dos registros americanos e a eliminação de barreiras não tarifárias indicam que, dentro das cotas, a carne dos EUA terá acesso facilitado, potencialmente à custa de volumes que hoje vão para fornecedores como Austrália e Brasil.

O que o Brasil pode perder com o redirecionamento

O Brasil é o principal fornecedor de proteína animal para a China, posição consolidada ao longo da última década com exportações que incluem soja, carne bovina, aves e, mais recentemente, milho e sorgo. A soja brasileira detém 73,6% do mercado chinês em 2025, e o país também se tornou o maior fornecedor de milho para Pequim. O acordo entre China e Estados Unidos, porém, prevê a compra de pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano, o que pode reduzir a fatia brasileira.

Além da soja, a aprovação recente de importações de DDGS (grãos secos de destilaria) brasileiros pela China criou uma nova frente comercial que agora compete diretamente com o DDGS americano. Se a China ampliar as compras de grãos para ração dos Estados Unidos, como indica o acordo, o espaço para o produto brasileiro pode encolher antes mesmo de se consolidar. Para o agronegócio brasileiro, o acordo sino-americano é um lembrete de que a posição de maior fornecedor da China não é permanente: depende de preço, logística e, cada vez mais, de acordos geopolíticos entre as duas maiores economias do mundo.

Austrália e Argentina também na mira

O redirecionamento das compras chinesas para os Estados Unidos não afetaria apenas o Brasil. A Austrália, que foi o principal fornecedor de trigo da China em 2023 e de sorgo em 2025, pode enfrentar queda na demanda se esses produtos americanos ganharem espaço. As importações chinesas de cevada australiana também podem sofrer pressão, e as maiores compras de carne bovina dos EUA podem reduzir a demanda pela carne premium australiana no mercado chinês.

A Argentina, que é fornecedora relevante de sorgo para a China, e o Canadá e a França, que vendem trigo, também podem sentir o impacto. O mecanismo é simples: a demanda total da China por produtos agrícolas não muda significativamente de um ano para outro. Se Pequim se comprometeu a comprar US$ 17 bilhões a mais dos Estados Unidos, esse volume terá que vir de algum lugar, e os fornecedores atuais são os candidatos mais óbvios a perder espaço.

Soja, trigo e milho: como as compras devem se redistribuir

O acordo prevê que a China compre pelo menos 25 milhões de toneladas de soja americana por ano, além de ampliar as aquisições de trigo, milho, sorgo e carne. Operadores do mercado indicam que os preços da soja americana estão competitivos em relação aos brasileiros, o que facilita o cumprimento da meta sem distorções significativas. As estatais chinesas Cofco e Sinograin devem liderar as compras enquanto a tarifa adicional de 10% sobre produtos americanos se mantiver.

No caso do milho e do trigo, a China possui cotas de importação com tarifa reduzida de 1% para volumes de até 7,2 milhões e 9,64 milhões de toneladas, respectivamente. As compras que excedem essas cotas estão sujeitas a tarifas de até 65%, o que limita o volume total. Em 2025, as importações chinesas de milho americano caíram para US$ 5 milhões, contra US$ 561,5 milhões no ano anterior, e o trigo chegou a quase zero. O acordo busca reverter essa queda, mas as cotas tarifárias impõem um teto que pode dificultar o cumprimento da meta de US$ 17 bilhões anuais apenas com grãos.

Carne, pés de frango e o mercado que não existe nos EUA

Um aspecto peculiar do comércio agrícola entre China e Estados Unidos é que a China importa produtos americanos que não têm demanda no próprio mercado doméstico americano. Pés de frango, orelhas de porco e miúdos são produtos com pouca procura nos Estados Unidos, mas que representam mercado relevante na China, onde fazem parte da culinária cotidiana. Para frigoríficos americanos, exportar esses itens para a China transforma subprodutos de baixo valor interno em receita de exportação.

Com a eliminação de barreiras não tarifárias para carne bovina e aves, conforme anunciado pelo Ministério do Comércio chinês, esses fluxos devem se intensificar. A China é um dos maiores consumidores de proteína animal do mundo, e a abertura para mais frigoríficos americanos amplia a base de fornecimento. Para o Brasil, que também exporta pés de frango e miúdos para a China, a concorrência americana nesses nichos pode pressionar preços e volumes.

Um acordo que redistribui e um mundo que se ajusta

A China se comprometeu a comprar US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas dos EUA além da soja, renovou 425 registros de carne bovina e aprovou 77 novos, sinalizando a maior reabertura do mercado americano em anos. O total das importações agrícolas chinesas dos EUA pode chegar a US$ 30 bilhões anuais, acima dos US$ 8 bilhões do ano passado, e o redirecionamento das compras deve afetar fornecedores como Brasil, Austrália, Argentina e Canadá. Para o comércio agrícola global, o acordo entre Pequim e Washington é um rearranjo de forças que premia a proximidade política tanto quanto a competitividade de preço.

Você acha que o Brasil deveria se preocupar com o acordo agrícola entre China e Estados Unidos? Conte nos comentários se acredita que o redirecionamento das compras chinesas vai afetar o agronegócio brasileiro, como avalia a renovação de 425 registros de carne bovina americana e se o Brasil deveria diversificar seus mercados de exportação. Queremos ouvir a sua opinião.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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