A leitura completa de um pergaminho de Herculano abriu uma nova fase na arqueologia digital. Pesquisadores usaram raios X, inteligência artificial e “desenrolamento virtual” para recuperar textos gregos preservados desde a erupção de 79 d.C., incluindo trechos ligados à filosofia antiga, ética e comportamento humano.
Um pergaminho carbonizado de Herculano, fechado desde a erupção do Monte Vesúvio no ano 79 d.C., foi lido de ponta a ponta sem ser aberto fisicamente. O avanço foi anunciado em 25 de junho de 2026 pelo Vesuvius Challenge, projeto internacional que reúne pesquisadores, engenheiros, papirologistas e especialistas em inteligência artificial.
O material é conhecido como PHerc. 1667. Por fora, parece um bloco preto e frágil de carvão. Por dentro, guardava cerca de 1,4 metro de superfície escrita, com colunas de texto grego que não podiam ser acessadas sem risco de destruição.
A diferença agora está no método. Em vez de tocar no papiro, os cientistas usaram tomografia de alta resolução, reconstrução digital das camadas enroladas e modelos de aprendizado de máquina capazes de detectar sinais quase invisíveis de tinta no material carbonizado.
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Segundo o Vesuvius Challenge, esta é a primeira vez que um papiro de Herculano é desenrolado digitalmente e lido em sequência, de uma extremidade à outra, para estudo acadêmico contínuo.
O pergaminho não foi aberto porque qualquer tentativa física poderia destruir o texto
Os papiros de Herculano sobreviveram por um motivo incomum. O calor da erupção carbonizou os rolos, mas também ajudou a preservar parte do material dentro de uma massa compacta. O problema é que essa preservação veio com uma armadilha: tentar desenrolar o papiro pode quebrar as camadas e apagar justamente o que restou.
Durante mais de dois séculos, estudiosos tentaram abrir fragmentos com métodos mecânicos. Alguns textos foram recuperados, mas parte do material se perdeu no processo. No caso do PHerc. 1667, tentativas anteriores no século XIX, em 1969 e nos anos 1980 deixaram apenas o núcleo interno preservado.
A nova leitura muda essa lógica. O pergaminho continua fechado, mas suas camadas internas foram mapeadas em 3D. Depois, algoritmos transformaram a estrutura enrolada em uma superfície plana, como se o rolo tivesse sido aberto em uma mesa, só que dentro do computador.
Essa etapa não entrega o texto pronto. A inteligência artificial ajuda a separar áreas com tinta e sem tinta, mas a leitura final ainda passa por especialistas em papirologia, grego antigo e filosofia. É nesse ponto que a tecnologia sai do laboratório e entra no trabalho histórico.
O que apareceu no texto revela uma biblioteca maior do que se imaginava
Entre os materiais apresentados está a recuperação de mais de 70 colunas de texto de outro papiro, o PHerc. 172, preservado na Bodleian Library, da Universidade de Oxford. A leitura foi associada a Sobre os Vícios, Livro 1, obra atribuída ao filósofo epicurista Filodemo.

Também foi identificado no PHerc. 139 um título ligado a Sobre os Deuses, Livro 8, igualmente de Filodemo. Esse detalhe pesa para os estudiosos porque indica que a obra era mais extensa do que se sabia, já que até então apenas o primeiro livro era conhecido com segurança.
De acordo com a Universidade de Kentucky, que tem papel central no projeto, as descobertas permitem acompanhar argumentos em sequência, comparar colunas e preparar novas edições críticas dos textos antigos. A instituição também informou que os escaneamentos envolveram instalações como a Diamond Light Source, no Reino Unido, e o European Synchrotron Radiation Facility, na França.
Esse ponto ajuda a explicar por que o avanço não é apenas uma curiosidade arqueológica. O que está em jogo é a recuperação de uma biblioteca greco-romana praticamente congelada pela erupção. A Villa dos Papiros, em Herculano, preservou centenas de rolos que podem conter obras conhecidas apenas por citações, além de livros que nunca chegaram à Idade Média.
A IA procurou tinta de carbono em papiro carbonizado, uma tarefa quase invisível ao olho humano
A dificuldade técnica está no material. A tinta dos pergaminhos era à base de carbono, e o papiro também virou carbono após a erupção. Em uma imagem comum de raio X, a diferença entre letra e folha queimada fica quase apagada.
Para contornar isso, os pesquisadores analisaram deformações microscópicas na superfície do papiro. A tinta deixa marcas e alterações sutis nas fibras. Modelos de aprendizado de máquina foram treinados para reconhecer esses padrões e indicar onde havia escrita.
O estudo divulgado em pré-publicação no arXiv descreve a leitura completa do PHerc. 1667 com microtomografia de contraste de fase, desenrolamento computacional e revisão papirológica. O trabalho também afirma que o método deixa de ser uma demonstração isolada e passa a formar uma base escalável para recuperar outros rolos ainda fechados.
Na prática, a IA não “traduz” sozinha o pergaminho. Ela aponta sinais que o olho humano não consegue separar com segurança. Depois disso, especialistas precisam confirmar letras, reconstruir palavras danificadas e comparar o conteúdo com vocabulário, estilo e autores da filosofia helenística.
Mais de 600 pergaminhos ainda podem estar esperando leitura
A escala do acervo explica a expectativa. A Reuters informou que cerca de 45 papiros e fragmentos já foram escaneados, mas mais de 600 rolos fechados ainda aguardam leitura virtual. O Vesuvius Challenge também colocou dados, códigos e modelos online e oferece US$ 1 milhão para a primeira equipe que conseguir ler integralmente outro pergaminho.
O interesse não é apenas acadêmico. Cada rolo pode acrescentar páginas inteiras a áreas em que a Antiguidade chegou até hoje de forma incompleta. Filosofia epicurista, estoicismo, debates sobre ética, religião, arte e comportamento humano aparecem entre os temas já identificados.
Há ainda outro fator. Partes da Villa dos Papiros continuam sem escavação completa, o que mantém aberta a possibilidade de novos achados. Se a tecnologia avançar antes de qualquer intervenção física, futuros pergaminhos podem ser preservados desde o início para leitura digital.
A descoberta também pressiona uma mudança no modo como museus e bibliotecas lidam com artefatos frágeis. Em vez de escolher entre conservar ou abrir, a arqueologia digital passa a trabalhar com camadas invisíveis, arquivos 3D e leitura assistida por modelos computacionais.
O achado mostra como ciência de dados entrou no centro da arqueologia
O caso de Herculano mostra uma virada prática. Um problema que por décadas parecia limitado a laboratórios de conservação agora depende de computação, armazenamento de dados, aceleradores de partículas, raios X de alta energia e equipes internacionais trabalhando sobre os mesmos arquivos.
A leitura do pergaminho carbonizado não encerra a história. Ela cria uma fila de novos textos para revisão, tradução e comparação. Também abre disputa entre equipes que tentam melhorar os algoritmos e reduzir o tempo necessário para transformar um rolo escaneado em páginas legíveis.
O que antes parecia um pedaço de carvão guardado em uma coleção arqueológica agora começa a funcionar como livro novamente. Quase 2 mil anos depois da erupção que destruiu Herculano e Pompeia, a combinação de inteligência artificial e escaneamento de alta resolução devolveu ao texto antigo uma condição básica: ser lido.
Você acha que a inteligência artificial deve ser usada para recuperar outros documentos antigos que não podem ser abertos sem risco de destruição? Deixe sua opinião nos comentários e diga quais descobertas históricas ainda poderiam mudar o que sabemos sobre o passado.

