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China plantou árvores para barrar o Deserto de Gobi, mas calculou mal: floresta sugou água, secou solo e aquíferos, mudou chuvas; na África, Grande Muralha Verde vira mosaico comunitário sustentável

Escrito por Carla Teles
Publicado em 05/02/2026 às 21:53
Atualizado em 05/02/2026 às 21:55
China plantou árvores para barrar o Deserto de Gobi, mas calculou mal floresta sugou água, secou solo e aquíferos, mudou chuvas; na África, Grande Muralha Verde vira mosaico
China plantou árvores contra o deserto de Gobi, gerou escassez de água; Grande Muralha Verde da China e Grande Muralha Verde da África mostram lições. Imagem: Xataka/Reprodução
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Quando a China plantou árvores em massa na Grande Muralha Verde da China para frear o deserto de Gobi, acabou gerando escassez de água e hoje é lição para a Grande Muralha Verde da África.

Quando a China plantou árvores em massa para barrar o avanço do Deserto de Gobi, a ideia era simples e poderosa: conter a areia, capturar carbono e transformar regiões áridas em corredores verdes. Só que o plano teve um efeito colateral incômodo. Em várias áreas, a floresta começou a sugar a água do solo, dos aquíferos e das comunidades, mudando o regime de chuvas e redistribuindo a água para longe de onde ela era mais necessária.

Enquanto isso, no outro lado do planeta, a Grande Muralha Verde da África foi sendo redesenhada com outra lógica. Em vez de repetir a fórmula de monoculturas rápidas, o continente apostou em mosaicos de restauração, espécies adaptadas e protagonismo das comunidades locais, tentando recuperar solo, água e renda ao mesmo tempo. O contraste entre os dois megaprojetos mostra que reflorestar não é só plantar, e que uma floresta sem planejamento pode agravar a crise hídrica em vez de resolvê-la.

Quando a China plantou árvores para segurar o deserto

O norte da China vive há décadas sob a pressão do Deserto de Gobi, que avança sobre cidades, campos agrícolas e rotas logísticas.

Para enfrentar isso, a China plantou árvores em uma escala histórica, criando o que ficou conhecido como Grande Muralha Verde da China, um cinturão florestal pensado para funcionar como barreira contra a areia e, de quebra, ajudar a reduzir CO₂ na atmosfera.

Num primeiro momento, a estratégia deu certo. Imagens de satélite e relatórios oficiais mostraram que o avanço do deserto foi contido em várias frentes, áreas antes nuas começaram a ficar verdes e o país passou a exibir o projeto como vitrine de combate à desertificação e às mudanças climáticas.

A China plantou árvores, o deserto recuou e a narrativa parecia perfeita.

O erro de cálculo: floresta que bebe a água das pessoas

O problema começou a aparecer quando estudos independentes e análises climáticas olharam para além do mapa verde.

Em muitos trechos, a China plantou árvores de crescimento acelerado, não nativas, escolhidas mais pela velocidade com que enchiam os gráficos do que pela adaptação ao ecossistema local. Essas espécies têm um apetite enorme por água.

Por meio da evapotranspiração, elas puxam grandes volumes de água do solo e dos aquíferos e devolvem essa umidade à atmosfera.

Na prática, a floresta passou a competir diretamente com a agricultura e com o abastecimento humano pelo mesmo recurso.

Estudos publicados em revistas científicas como Earth’s Future apontam que, entre 2001 e 2020, regiões do leste e do noroeste da China registraram redução de água doce disponível, ao mesmo tempo em que áreas como o Planalto Tibetano viram a disponibilidade aumentar.

Isso significa que, quando a China plantou árvores em massa, ela não apenas mudou a paisagem. Ela mexeu no ciclo hidrológico, fazendo com que a água continuasse circulando, mas caísse em outro lugar.

As árvores, com raízes profundas, captam água de camadas inferiores do solo, mandam essa umidade para a atmosfera e ajudam a deslocar o destino das chuvas.

O resultado foi um redesenho inesperado: a floresta ajudou a segurar o deserto, mas secou o solo e os aquíferos de comunidades que dependiam daquela água.

Esse é o paradoxo do reflorestamento mal planejado. Quando a China plantou árvores em monoculturas extensas, sem considerar espécie, solo e água, criou uma solução que também virou parte do problema.

A lição é direta: não basta encher o mapa de verde se esse verde derruba o equilíbrio hídrico de toda uma região.

Grande Muralha Verde da África: um cinturão que nasce de baixo para cima

China plantou árvores contra o deserto de Gobi, gerou escassez de água; Grande Muralha Verde da China e Grande Muralha Verde da África mostram lições.
Imagem: UNCDD

Enquanto a experiência chinesa ganhava o mundo, outro projeto com nome semelhante surgia do outro lado do planeta.

A Grande Muralha Verde da África, coordenada pela UNCCD, nasceu com o objetivo inicial de criar uma faixa contínua de vegetação com cerca de 8.000 quilômetros, cruzando 22 países do Sahel e do entorno do Saara.

Com o tempo, porém, os próprios africanos perceberam que repetir a lógica de “parede verde” poderia gerar os mesmos erros.

O conceito foi reformulado e, hoje, a Grande Muralha Verde africana é um mosaico de intervenções, não uma linha contínua de árvores.

Nesse modelo, a prioridade não é só plantar, mas restaurar 100 milhões de hectares de terras degradadas até 2030, sequestrar 250 milhões de toneladas de carbono e criar 10 milhões de empregos verdes.

Isso significa combinar regeneração natural assistida, plantio de espécies nativas, manejo de água, agroflorestas e práticas agrícolas sustentáveis.

Em vez de uma floresta industrial, a África aposta em paisagens produtivas e resilientes, onde a árvore é parte de um sistema que inclui roça, pastagem, coleta de água de chuva, sementes tradicionais e conhecimento local.

Quando reflorestar é mais do que jogar muda no chão

Colocando os dois casos lado a lado, o contraste fica nítido. De um lado, a China plantou árvores com foco em escala, velocidade e barreira física contra o deserto, muitas vezes com espécies de alta demanda hídrica e baixa conexão com o ecossistema.

Do outro, a África redesenhou sua estratégia para colocar solo, água e gente no centro da equação, usando a floresta como ferramenta, não como fim em si mesma.

Os dois projetos deixam claro que reflorestamento é uma ciência de precisão, não um ato simbólico de “verde pela foto”. Se você escolhe a espécie errada, no lugar errado e sem gestão hídrica, corre o risco de:

  • Criar florestas que drenam o solo e secam aquíferos.
  • Deslocar o regime de chuvas para outras regiões.
  • Aumentar a competição por água com agricultores e cidades.

Mesmo iniciativas com o mesmo nome, como as duas “Grandes Muralhas Verdes”, podem produzir efeitos opostos.

Quando a China plantou árvores em larga escala, mostrou a força de um Estado capaz de executar megaprojetos, mas também escancarou os riscos de tratar a natureza como fábrica padronizada.

Já a África, com menos recursos financeiros, tenta construir uma solução mais lenta e complexa, mas potencialmente mais estável, onde biodiversidade, água e comunidades caminham juntas.

No fim, o sucesso de um projeto de reflorestamento não se mede apenas em hectares cobertos, mas em água disponível, solos vivos, alimentos na mesa e qualidade de vida para quem vive ali. Um mapa mais verde pode esconder um território mais seco.

E você, depois de saber que a China plantou árvores e acabou mexendo no ciclo da água, acha que o mundo ainda subestima os riscos de reflorestar sem ouvir o solo, a água e as comunidades que vivem em volta?

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Guillermo leguizamonguillermo392@gmail.com
Guillermo leguizamonguillermo392@gmail.com
12/02/2026 22:50

Se cultiva la lluvia para la zona y se soluciona más para recuperar el aquifero y mojar el desierto

Juan González Sánchez
Juan González Sánchez
12/02/2026 13:41

De acuerdo al diseño original del gran arquitecto del universo para el planeta Tierra que contempla la creación de varios biomas terrestres, entre ellos las selvas tropicales y todo lo que conlleva de flora y fauna, y que la naturaleza se tardó años en crear grandes bosques, al hombre le han bastado unos pocos años para destruir rápidamente y alterar los ecosistemas de esas zonas en especifico.
El gran error del hombre es que no se ha dado a la tarea de reforestar las áreas que ha talado, lo que lleva a alterar los ecosistemas de esos grandes bosques, destruyendo y alterando los ciclos del agua, el oxígeno y el nitrógeno entre los principales además de la flora y la fauna logrando crear un gran caos de destrucción y deterioro del planeta y además con el crecimiento de la población de seres humanos vienen agregados problemas de contaminación de suelos y sobreexplotacion de mantos acuíferos que es la principal fuente de vida para la raza humana.
El panorama actual es desalentador para las actuales generaciones, que poco a poco se van convirtiendo en los mayores depredadores de este mundo.

Rodrigo
Rodrigo
12/02/2026 13:21

Cada vez hacen más estupideces esos ****

Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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