O dispositivo foi testado com sucesso em 11 de abril de 2026 a bordo do navio chinês Haiyang Dizhi 2 — ele corta cabos blindados com um disco de diamante que gira a 1.600 rotações por minuto e funciona sob pressão de 35 megapascais no fundo do oceano
Conforme reportou o El Español em 22 de abril de 2026, o teste foi conduzido durante a primeira missão em águas profundas do ano pelo Ministério de Recursos Naturais da China.
O equipamento foi desenvolvido pela Universidade de Zhejiang, uma das mais prestigiadas instituições de engenharia do país.
Segundo o jornal oficial China Science Daily, a demonstração “preencheu a última milha entre o desenvolvimento do equipamento e a aplicação em engenharia”.
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Em outras palavras, o dispositivo deixou de ser protótipo. Está pronto para uso operacional.
Um disco de diamante a 3.500 metros de profundidade: como o dispositivo funciona
De acordo com os detalhes técnicos divulgados, o coração do sistema é um atuador eletro-hidrostático (EHA) que integra bomba hidráulica, motor elétrico e unidade de controle em uma única peça compacta.
Dessa forma, o equipamento elimina tubulações externas e pode ser instalado em veículos submarinos operados remotamente — os chamados ROVs.
Para realizar o corte, o atuador pressiona um disco abrasivo recoberto de diamante com 150 milímetros de diâmetro.
O disco gira a 1.600 rotações por minuto e é capaz de atravessar as múltiplas camadas de aço, borracha e polímeros que protegem os cabos submarinos.
Além disso, a precisão milimétrica do sistema evita levantar nuvens de sedimentos que poderiam denunciar a operação.
O equipamento suporta pressões superiores a 35 megapascais — equivalentes à coluna d’água de 3.500 metros, ou 11.483 pés abaixo da superfície.
Nessa profundidade, a maior parte dos cabos do Oceano Atlântico, Pacífico e Mar do Sul da China está ao alcance.

De 5 horas para 20 minutos: a evolução que assustou analistas
Por outro lado, o que torna a demonstração ainda mais significativa é a velocidade da evolução tecnológica chinesa nesse campo.
Em 2022, equipes de reparo de oleodutos submarinos levavam 5 horas para fazer um único corte em um tubo de 18 polegadas.
Apenas um ano depois, em 2023, embarcações chinesas com ROVs já cortavam tubos de 38 polegadas a 600 metros de profundidade em apenas 20 minutos.
Agora, em abril de 2026, o dispositivo opera a 3.500 metros — quase seis vezes mais fundo do que três anos atrás.
Em quatro anos, a China multiplicou a profundidade operacional por seis e reduziu o tempo de corte em mais de 90%.
Consequentemente, o país ultrapassou os principais concorrentes. O MARCAS-V-ROV do Japão e o Olympian T2 ROV alcançam no máximo 3.000 metros.

95% da internet mundial passa por cabos no fundo do oceano
Além disso, para entender o impacto potencial, é preciso compreender como a internet global funciona.
Aproximadamente 95% de todo o tráfego de dados entre continentes viaja por cabos de fibra óptica no fundo do mar.
São centenas de cabos que cruzam oceanos inteiros, conectando países e continentes a velocidades próximas da luz.
Somente pelo Mar Vermelho passam 17 cabos submarinos que conectam Europa, Ásia e África.
O Brasil, por sua vez, possui 16 cabos na costa — incluindo um operado parcialmente pela China Unicom.
Sem esses cabos, países inteiros podem ficar isolados em minutos. Transações bancárias, comunicações governamentais, sistemas de defesa e até hospitais dependem dessa infraestrutura invisível.
Reparo de oleodutos ou arma de guerra? O duplo uso que ninguém ignora
Segundo Pequim, o governo chinês apresenta oficialmente o dispositivo como ferramenta para construção e reparo de oleodutos e gasodutos submarinos.
De fato, a indústria de petróleo e gás offshore precisa de equipamentos capazes de cortar e manipular estruturas em águas profundas.
Contudo, analistas de defesa apontam que a diferença entre cortar um oleoduto e cortar um cabo de comunicações é essencialmente zero do ponto de vista técnico.
Um relatório chinês de setembro de 2025, citado pelo South China Morning Post, já descrevia a tecnologia como destinada a “cortar cabos submarinos e operar garras de águas profundas”.
Nesse sentido, conforme observaram especialistas consultados pelo Xataka, um dispositivo que corta cabos blindados a 3,5 quilômetros de profundidade e pode ser transportado por um drone submarino “não requer muita imaginação para compreender seu potencial uso militar”.

O Estreito de Ormuz e a guerra que já ameaça cabos
O teste não acontece num vácuo geopolítico. A guerra no Irã já demonstrou o que acontece quando infraestrutura crítica é atingida.
O Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, também abriga cabos submarinos que conectam o Golfo Pérsico ao restante do planeta.
Ataques a infraestrutura submarina e usinas de dessalinização já ocorreram durante o conflito.
Além disso, em novembro de 2024, dois cabos no Mar Báltico foram cortados em circunstâncias suspeitas — autoridades europeias suspeitaram de sabotagem russa.
Portanto, a capacidade de cortar cabos a grandes profundidades não é hipotética. É uma ameaça que governos ocidentais já monitoram ativamente.
A fragilidade que ninguém quer admitir
Apesar disso, mesmo carregando quase toda a comunicação global, os cabos submarinos são surpreendentemente vulneráveis.
A maioria tem a espessura de uma mangueira de jardim nas seções de águas profundas, onde a proteção contra impacto é mínima.
Não existe nenhum sistema de monitoramento em tempo real capaz de detectar um corte em águas profundas antes que ele aconteça.
Da mesma forma, não há tratado internacional que classifique explicitamente cabos submarinos como infraestrutura protegida em conflitos armados.
Sobretudo, a reparação de um cabo cortado a 3.500 metros leva semanas — ou meses — e exige navios especializados que existem em número limitado no mundo.
Ainda assim, governos e empresas de tecnologia continuam dependendo dessa infraestrutura como se ela fosse inviolável.
O que a China diz — e o que ainda não se sabe
Por fim, oficialmente Pequim insiste que o dispositivo é uma ferramenta industrial para o setor de óleo e gás offshore.
No entanto, nenhum país com capacidade militar submarina desenvolve tecnologia de corte em águas profundas sem considerar aplicações estratégicas.
O teste de 11 de abril colocou a China à frente de qualquer concorrente nessa capacidade específica. Mas transformar um teste bem-sucedido em operação militar real exige integração com sistemas de navegação, drones submarinos autônomos e inteligência de localização dos cabos — etapas que podem levar anos.
Por enquanto, o disco de diamante de 150 milímetros gira a 1.600 rotações por minuto no fundo do oceano. E o mundo que depende dos cabos que ele pode cortar ainda não decidiu como se proteger.
