Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay pediram ao governo americano que produtos brasileiros fiquem fora da nova taxação em análise nos Estados Unidos. O argumento das empresas é que a medida pode encarecer cadeias produtivas dentro do próprio mercado americano, atingindo desde fábricas de tecnologia até alimentos consumidos no dia a dia.
A proposta de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos do Brasil colocou grandes empresas americanas em posição incomum: elas passaram a defender exceções para mercadorias brasileiras antes que a medida seja aplicada.
Tesla, Coca-Cola, Nestlé e eBay enviaram manifestações ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, pedindo que determinados itens sejam retirados da lista de produtos sujeitos à cobrança.
O movimento ocorreu no prazo final para envio de comentários públicos, em 1º de julho de 2026, dentro da investigação aberta com base na Seção 301 da legislação comercial americana. Como informou o UOL, as empresas alegam que a tarifa pode elevar custos, dificultar abastecimento e prejudicar consumidores nos Estados Unidos.
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O caso chama atenção porque a pressão não vem apenas do governo brasileiro ou de exportadores nacionais. Parte dela parte de companhias dos próprios Estados Unidos, que dependem de insumos, alimentos e componentes brasileiros em setores diferentes.
A audiência pública sobre a proposta foi marcada para 6 de julho de 2026, em Washington. O processo ainda prevê análise do USTR antes de qualquer decisão final, mas os pedidos das empresas já mostram onde a medida pode bater primeiro.
A investigação mira o Brasil, mas as empresas enxergam risco dentro dos EUA
O USTR afirma que a investigação trata de temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. No aviso publicado no Federal Register, o órgão disse ter determinado que certas práticas brasileiras seriam “acionáveis” sob a Seção 301 e abriu consulta pública sobre possíveis respostas comerciais.

A proposta colocada na mesa inclui tarifas de 25% sobre bens brasileiros, com algumas exceções previstas para produtos específicos, itens sujeitos a outras regras comerciais e mercadorias listadas em anexo. O próprio USTR pediu que os comentários tratassem da disponibilidade de fornecedores alternativos, do risco de ruptura no abastecimento e do impacto sobre a economia americana.
É nesse ponto que as empresas entraram. Elas não fizeram uma defesa ampla da política comercial brasileira, mas argumentaram que aplicar a tarifa de forma generalizada pode gerar efeito contrário ao pretendido.
Para as companhias, substituir o Brasil não é tão simples quanto trocar um fornecedor em uma planilha. Em alguns casos, há exigências de qualidade, escala, rastreabilidade, segurança alimentar e certificação industrial.
Tesla tenta proteger insumos industriais usados em cadeias de tecnologia
A Tesla pediu que insumos industriais importados do Brasil sejam isentos da nova tarifa. A empresa argumenta que está investindo bilhões de dólares para nacionalizar e diversificar sua cadeia nas Américas, mas afirma que esse processo leva tempo.
A montadora de Elon Musk sustenta que setores como veículos elétricos, baterias, robótica e manufatura avançada ainda dependem de materiais que não são produzidos nos Estados Unidos na mesma escala ou qualidade. A preocupação é que uma cobrança rápida demais encareça peças e componentes antes que a produção doméstica consiga ocupar o espaço.
Na prática, a Tesla tenta evitar que uma medida feita para pressionar o Brasil acabe pressionando também fábricas americanas. O alerta da companhia é que a tarifa pode atingir trabalhadores, consumidores e projetos industriais dentro dos Estados Unidos.
O argumento tem peso porque a indústria de carros elétricos depende de cadeias longas e sensíveis. Uma mudança de fornecedor pode exigir testes técnicos, validação de segurança e adaptação de contratos.
Nestlé quer preservar café solúvel e colágeno bovino importados do Brasil
A Nestlé pediu a inclusão de dois produtos brasileiros entre os itens isentos: café solúvel não aromatizado e colágeno bovino. A empresa afirma que o café em grão não pode ser cultivado em escala comercial no território continental dos Estados Unidos, o que limita a substituição por produção local.
O pedido também conversa com a estratégia da própria companhia no Brasil. Segundo a Nestlé Brasil, a fábrica de Araras, no interior de São Paulo, deve exportar mais de 20.200 toneladas de café solúvel em 2026 e atende mercados internacionais a partir de uma unidade considerada estratégica para a operação global da marca.
No caso do colágeno bovino, a empresa aponta que o Brasil tem papel relevante no fornecimento global. Esse ingrediente aparece em produtos de saúde, bem-estar, nutrição e alimentos funcionais, segmentos em crescimento no mercado americano.
A Nestlé também buscou responder a preocupações ambientais. De acordo com o texto citado na fonte original, a companhia informou que 96,7% de suas cadeias de suprimentos de commodities primárias já haviam sido avaliadas como livres de desmatamento até o fim de 2025.
Coca-Cola coloca a crise da laranja da Flórida no centro da discussão
A Coca-Cola pediu que os Estados Unidos mantenham a isenção para o suco de laranja brasileiro e também incluam o limão e seus derivados na lista de produtos livres da cobrança. A empresa afirma que, sem transição, a tarifa pode encarecer a produção de bebidas e concentrados.
O argumento passa pela queda forte da citricultura da Flórida. Segundo previsão divulgada pelo USDA Agricultural Statistics Board, a safra 2025-2026 de laranjas na Flórida foi estimada em 12 milhões de caixas, volume 2% menor que o da temporada anterior.
A comparação usada pela empresa é dura: no começo dos anos 2000, a Flórida colhia centenas de milhões de caixas por safra. Hoje, a produção local sofre com doenças, pragas e eventos climáticos, o que tornou o Brasil um fornecedor essencial para manter parte do abastecimento.
Trocar fornecedores de cítricos não é imediato. Há testes de segurança alimentar, validação de sabor, padronização industrial e contratos já assinados.
eBay tenta tirar produtos usados da cobrança e mira o impacto no consumidor de baixa renda
O eBay pediu uma isenção categórica para produtos de segunda mão, usados e seminovos. A empresa argumenta que esses itens não representam nova produção industrial brasileira e, por isso, não deveriam ser tratados como mercadorias comuns dentro de uma disputa comercial.
A plataforma afirma que um produto usado já passou pelo primeiro ciclo de venda. Cobrar uma tarifa adicional nesse caso atingiria revendedores, pequenos negócios e consumidores que recorrem a itens mais baratos para economizar.
Outro problema apontado é burocrático. Em roupas e acessórios usados, por exemplo, nem sempre há etiqueta com país de origem, o que tornaria a fiscalização mais cara e menos precisa.
Esse ponto amplia o debate para além de grandes empresas. A tarifa, segundo a plataforma, pode cair sobre vendedores pequenos que não têm estrutura para rastrear cada item antigo colocado à venda.
Brasil contesta a base da medida e tenta evitar uma escalada comercial
O governo brasileiro também enviou manifestação ao USTR em 1º de julho de 2026. No documento, o Brasil rejeita as conclusões da investigação e afirma que suas políticas não são “irrazoáveis”, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio americano.
A defesa brasileira sustenta que a Seção 301 não autoriza os Estados Unidos a impor ação comercial apenas por discordar de escolhas políticas de outro país. O documento pede que o USTR se abstenha de adotar medidas unilaterais como resultado da investigação.
Para o Brasil, uma sobretaxa ampla de 25% não resolveria os pontos levantados pelos americanos e ainda poderia criar custos para empresas e consumidores dos dois lados. Já para o USTR, a proposta aparece como resposta a práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
A disputa, portanto, não está restrita a Brasília e Washington. Ela atravessa fábricas, supermercados, plataformas digitais e cadeias de alimentos que funcionam com produtos brasileiros dentro do mercado americano.
Se a tarifa avançar sem novas exceções, o impacto pode aparecer longe dos portos brasileiros. Pode chegar ao preço do café solúvel, do suco, de suplementos, de componentes industriais e até de roupas usadas vendidas por pequenos comerciantes nos Estados Unidos.
O que você acha dessa pressão feita por empresas americanas contra a tarifa sobre produtos brasileiros? A medida protege a indústria dos EUA ou pode acabar encarecendo produtos para os próprios consumidores americanos? Deixe sua opinião nos comentários e participe da discussão.
