Acordos para compra de carne bovina e soja sustentável mostram avanço da demanda chinesa por produtos agrícolas rastreáveis, certificados e livres de desmatamento
A China ampliou a busca por produtos agrícolas sustentáveis e colocou a carne bovina brasileira livre de desmatamento no centro de uma nova etapa do consumo verde. A Associação de Carnes de Tianjin, no norte do país, firmou nesta quarta-feira um acordo para importar 50 mil toneladas do produto até o fim de 2027.
A carne será certificada pelo BOT, sistema desenvolvido pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). A ferramenta garante rastreabilidade em toda a cadeia produtiva e comprova a origem livre de desmatamento.
A compra reforça uma mudança relevante no mercado chinês. Consumidores e empresas passaram a observar critérios ambientais, sociais e de governança antes de fechar negócios. Dessa forma, o preço deixou de ser o único fator determinante para a decisão de compra.
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O movimento ocorre em meio ao crescimento do interesse por produtos com certificação ambiental. Além disso, empresas importadoras passaram a valorizar fornecedores capazes de comprovar a origem dos alimentos comercializados.
Consumo verde avança e muda decisão de compra na China
Segundo Xing Yanling, presidente da Associação de Carnes de Tianjin, a procura por alimentos sustentáveis cresceu de forma consistente nos últimos anos. O avanço acompanha o aumento da consciência ambiental entre consumidores chineses.
De acordo com Zhang Xinhao, CEO de uma importadora chinesa de carne bovina, compradores passaram a observar aspectos como rastreabilidade, qualidade estável e padrões ESG. Assim, produtos certificados ganharam espaço em diferentes segmentos do mercado.
Mesmo com preço estimado entre 5% e 10% acima da carne convencional, Xing demonstrou confiança no potencial de vendas. Os produtos serão comercializados em supermercados premium, restaurantes e plataformas de transmissão ao vivo.
A produção livre de desmatamento será apresentada como um dos principais diferenciais. Em abril, Xing liderou uma comitiva chinesa que visitou a Amazônia para acompanhar iniciativas relacionadas à produção sustentável.
A expectativa da associação é ampliar o interesse dos consumidores por alimentos certificados e fortalecer práticas produtivas alinhadas à preservação ambiental.

Soja sustentável brasileira também entra na rota verde chinesa
A demanda verde chinesa não se limita à carne bovina. Em 2025, COFCO International, China Mengniu Dairy e Sheng Mu Organic Dairy assinaram um acordo para adquirir 1,5 milhão de toneladas de soja sustentável produzida no Brasil.
O fornecimento ocorrerá entre 2025 e 2030. A matéria-prima será verificada por auditoria independente para comprovar que sua produção ocorreu sem desmatamento e sem conversão de vegetação nativa.
A iniciativa amplia a participação de produtos agrícolas sustentáveis nas relações comerciais entre os dois países. Ao mesmo tempo, fortalece a presença do Brasil em um mercado que valoriza cada vez mais certificação, origem e transparência produtiva.
O acordo também demonstra que a preocupação ambiental passou a influenciar decisões de compra em diferentes cadeias do agronegócio chinês.
Plano verde chinês reforça compras sustentáveis
De acordo com o 15º Plano Quinquenal da China (2026-2030), o país pretende acelerar a adoção de modelos de produção e consumo sustentáveis. O documento também prevê incentivos para ampliar a economia de baixo carbono.
Em janeiro, o Ministério do Comércio da China e outros oito departamentos governamentais lançaram um plano nacional com 20 medidas voltadas ao fortalecimento do consumo sustentável.
As ações abrangem setores como produtos agrícolas, eletrodomésticos e hospedagem. Além disso, o programa prevê a ampliação da oferta de alimentos verdes e orgânicos para os consumidores chineses.
Entre as medidas anunciadas estão áreas exclusivas para venda de produtos sustentáveis, exibição de certificações de qualidade, selos de rastreabilidade e divulgação de testes relacionados a resíduos de agrotóxicos.
O conjunto de iniciativas reforça o papel das políticas públicas na consolidação do consumo verde no país asiático.
Brasil e China veem força estratégica na agricultura sustentável
Segundo Zhu Chunquan, assessor sênior da Aliança das Florestas Tropicais do Fórum Econômico Mundial, a postura chinesa pode influenciar produtores em diferentes regiões do mundo ao priorizar produtos desvinculados do desmatamento.
Na avaliação dele, a decisão contribui para a proteção das florestas tropicais e para os esforços globais relacionados às mudanças climáticas.
Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, destacou que Brasil e China possuem forte complementaridade estratégica. Afinal, a China permanece como a principal compradora de soja e carne bovina brasileiras.
Para Müller, a demanda por produtos sustentáveis incentiva produtores brasileiros a manter práticas ambientais mais rigorosas. Além disso, aumenta o valor agregado dos produtos exportados e fortalece a competitividade internacional do agronegócio nacional.
Por fim, Bai Yunwen, vice-diretora do Instituto de Finanças e Sustentabilidade, defendeu a ampliação da cooperação bilateral em áreas como normas ambientais, tecnologia agrícola e finanças verdes. Segundo ela, a parceria entre Brasil e China pode servir de referência para uma agricultura mais sustentável, contribuindo simultaneamente para a segurança alimentar e para a estabilidade climática global.

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