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Cercada pelo Atlântico e pelo estuário amazônico, a Ilha de Marajó perde terra para o mar em velocidade registrada por satélite, enquanto a água salgada já invade os poços que abastecem comunidades ribeirinhas, e o processo avança sem que nenhum plano de adaptação nacional contemple o arquipélago habitado mais vulnerável do Brasil

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 28/04/2026 às 11:10
Atualizado em 28/04/2026 às 11:18
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Ilha de Marajó perde terra, sofre salinização de aquíferos e enfrenta risco de colapso com avanço do mar e mudanças climáticas.
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Ilha de Marajó perde terra, sofre salinização de aquíferos e enfrenta risco de colapso com avanço do mar e mudanças climáticas.

Segundo as Nações Unidas no Brasil, na Vila do Pesqueiro, uma comunidade tradicional de 160 famílias localizada na costa de Soure, na margem leste da Ilha de Marajó, o avanço do mar já deixou de ser uma projeção e se tornou realidade física. O local onde antes existiam casas está hoje submerso. Moradores que viveram por décadas em estruturas sobre palafitas viram o mar avançar progressivamente até alcançar suas residências. O processo foi gradual, com marés cada vez mais fortes e erosão constante redesenhando o litoral.

A Vila do Pesqueiro não representa um caso isolado. É o exemplo mais documentado de um fenômeno que ocorre simultaneamente em diversas comunidades da ilha.

Ilha de Marajó é a maior ilha fluviomarinha do mundo e sua posição geográfica define sua vulnerabilidade extrema

A Ilha de Marajó possui aproximadamente 49 mil quilômetros quadrados, sendo maior que países como Suíça e Dinamarca.

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Classificada como a maior ilha fluviomarinha do planeta, sua formação ocorre na interface entre o Oceano Atlântico e o estuário do Rio Amazonas. Essa posição geográfica, que historicamente sustentou sua biodiversidade e riqueza cultural, tornou-se o principal fator de vulnerabilidade.

Com altitude média de cerca de 9 metros acima do nível do mar, a ilha apresenta elevada sensibilidade a variações no nível oceânico e nos regimes hidrológicos.

Dinâmica de macromarés no litoral leste do Marajó provoca erosão intensa e redistribuição forçada de sedimentos

No litoral leste da ilha, regiões como Soure e Salvaterra estão sujeitas a macromarés com amplitude de até 4 metros, uma das maiores do Brasil.

Esses ciclos de inundação e exposição promovem constante remodelação da linha de costa. Em algumas áreas, o litoral avançou até 100 metros por deposição de sedimentos. Em outras, recuou até 80 metros devido à erosão.

Essa assimetria não ocorre de forma aleatória. Reflete a perda de equilíbrio no sistema sedimentar costeiro, com redistribuição forçada de materiais ao longo da costa.

Cheias do Amazonas combinadas com marés elevadas aumentam períodos de inundação nos campos de várzea

No lado oeste da ilha, a dinâmica é dominada pelo estuário amazônico. O regime de cheias e vazantes do Rio Amazonas eleva e reduz o nível da água sazonalmente, criando ciclos conhecidos como inverno e verão amazônico.

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Quando a cheia coincide com maré alta e eventos de chuva intensa, extensas áreas da ilha ficam submersas por meses.

Esse comportamento sempre fez parte do funcionamento natural do ecossistema. O que mudou foi a intensidade e a frequência desses eventos.

Imagens de satélite mostram recuo sistemático da linha de costa e avanço da erosão em comunidades do Marajó

Análises multitemporais de imagens Landsat entre 1990 e 2023 documentaram recuo linear contínuo da linha de costa em comunidades como Jubim, no município de Salvaterra.

imgem aerea da ilha de marajo – CPG

O estudo identificou tendência erosiva persistente em áreas de menor altitude, onde manguezais recuam e praias avançam sobre estruturas naturais que antes protegiam o litoral.

No Pará, cerca de 60% dos 562 quilômetros de litoral estão sob erosão ativa, indicando um cenário de instabilidade generalizada.

Exposição de manguezais acelera colapso costeiro ao eliminar barreira natural contra energia das ondas

A erosão remove camadas superiores do solo e expõe estruturas antigas de manguezal. Quando isso ocorre, as raízes dessas formações perdem sustentação e colapsam, eliminando a principal barreira natural contra a ação das ondas.

Sem essa proteção, o processo erosivo se intensifica, criando um ciclo de degradação progressiva.

Salinização de aquíferos avança de forma invisível e compromete abastecimento de água doce nas comunidades

Enquanto a erosão é visível, a salinização ocorre de forma silenciosa. A intrusão de água salgada nos aquíferos costeiros desloca a água doce disponível. Poços que antes forneciam água potável passam a produzir água salobra ou imprópria para consumo.

Esse processo é lento, mas difícil de reverter, especialmente em regiões com baixa recarga hídrica. A diminuição da vazão de água doce no sistema amazônico intensifica o avanço da água salgada.

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Barragens construídas ao longo da bacia reduzem o volume de água que chega ao oceano, especialmente durante períodos de seca.

Com menor pressão de água doce, o mar avança com maior facilidade sobre o leito dos rios e aquíferos subterrâneos.

Município de Afuá apresenta índice máximo de vulnerabilidade climática em todos os cenários projetados

Estudo conduzido pelo Instituto Federal do Pará avaliou a vulnerabilidade de municípios costeiros às mudanças climáticas.

Afuá, cidade com cerca de 40 mil habitantes construída sobre palafitas, atingiu índice máximo de vulnerabilidade em todos os cenários analisados.

A estrutura urbana da cidade foi adaptada a ciclos naturais do passado, mas enfrenta dificuldades diante das novas condições climáticas.

Elevação do nível do mar pode inviabilizar cidades inteiras no Marajó nas próximas décadas

Projeções baseadas em dados do IPCC indicam que o aumento da temperatura global pode elevar o nível do mar de forma significativa.

Em áreas com baixa altitude média, como o Marajó, mesmo pequenas elevações representam risco direto de inundação permanente. Cidades inteiras podem enfrentar perda de território e necessidade de deslocamento populacional.

Modelos desenvolvidos por instituições internacionais mostram que grandes áreas da ilha podem ser afetadas por inundações periódicas crescentes nas próximas décadas.

Em cenários de altas emissões, há risco de submersão permanente de regiões inteiras até o final do século. A escala do impacto envolve centenas de milhares de habitantes distribuídos em diversos municípios.

Ausência de políticas públicas específicas mantém Marajó fora do centro do debate climático nacional

Apesar da vulnerabilidade evidente, a Ilha de Marajó não ocupa posição central nas políticas públicas de adaptação climática.

O Plano Nacional de Adaptação identifica o litoral como área prioritária, mas ações concretas concentram-se em grandes centros urbanos.

Comunidades tradicionais da ilha permanecem sem acesso a planos estruturados ou financiamento climático.

Em algumas localidades, moradores utilizam barreiras improvisadas para conter a erosão. Essas soluções oferecem proteção temporária, mas não são capazes de conter processos de larga escala associados à dinâmica oceânica e climática. A tendência é de intensificação dos impactos ao longo do tempo.

Agora queremos saber: o Brasil está preparado para proteger territórios inteiros ameaçados pelo avanço do mar?

O caso da Ilha de Marajó expõe um cenário de transformação territorial em andamento.

Na sua visão, o país possui capacidade de adaptação suficiente ou enfrenta um processo de perda progressiva de áreas costeiras vulneráveis?

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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